Custódia realiza o 1º Congresso de Evangelização e Missão em Franca/SP

Franca (SP) – A Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus realizou, nos dias 06 e 07 de setembro, o Congresso de Evangelização e Missão, um tempo privilegiado de encontro, oração, reflexão, diálogo e discernimento sobre os caminhos da missão Franciscana diante dos desafios e das esperanças nas realidades onde a Custódia se faz presente.

Inspirado pela Ratio Evangelizationis Ordinis, o Congresso nasce como um espaço de escuta da realidade e de busca conjunta por respostas aos apelos de Deus. Mais do que elaborar novas atividades ou simplesmente avaliar aquilo que já é realizado, o encontro propõe um exercício de conversão missionária: reconhecer onde Deus está presente, escutar o que Ele pede e discernir como a Família Franciscana pode responder com criatividade e fidelidade ao Evangelho e ao carisma recebido.

O primeiro dia do Congresso teve início com a acolhida e a integração dos participantes, seguidas pela oração e pela dinâmica inicial. A abertura oficial foi conduzida por Frei Eduardo, que apresentou os objetivos, a metodologia e as expectativas do encontro.

Na sequência, Frei Sinivaldo conduziu a síntese conceitual que ofereceu as bases para o caminho de reflexão. A partir dela, os participantes foram convidados a olhar para a realidade não apenas como um conjunto de problemas e desafios, mas como lugar teológico onde é possível reconhecer os sinais da presença e da ação de Deus.

O primeiro trabalho em grupos partiu de uma pergunta fundamental: “Quais são os sinais da presença de Deus em nossa realidade?”

A partir dessa provocação, os participantes se dividiram em diferentes frentes de missão e evangelização, contemplando especialmente as Juventudes, a Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), a Comunicação e as Paróquias, com atenção aos Leigos e Leigas.

As partilhas revelaram uma realidade marcada por contradições. De um lado, aparecem o individualismo, a polarização, o imediatismo, a sobrecarga, as novas dependências, a fragmentação das relações, as dificuldades de comunicação entre gerações e a necessidade de uma formação mais adequada dos agentes de pastoral. De outro, também foram reconhecidos muitos sinais de esperança: pessoas que servem silenciosamente, famílias que perseveram na fé, jovens que procuram seu lugar no mundo, crianças que descobrem Jesus, pessoas que acolhem, visitam, escutam e cuidam, iniciativas em defesa da vida e do bem comum e uma crescente sensibilidade diante das situações de vulnerabilidade.

A pergunta ajudou a deslocar o olhar, pois não basta identificar aquilo que está ferido, é preciso reconhecer onde a vida está florescendo e onde o Espírito continua abrindo caminhos.

Na primeira plenária, os grupos socializaram suas reflexões, permitindo que as diferentes experiências entrassem em diálogo. A riqueza das contribuições mostrou que os desafios da evangelização não podem ser enfrentados isoladamente, mas exigem uma ação articulada e fraterna.

À tarde, uma nova provocação, apresentada por Frei Sinivaldo, conduziu o Congresso a um segundo movimento: “O que Deus espera de nós aqui e agora?”

A pergunta levou os participantes a reconhecer que discernir os sinais dos tempos implica também deixar-se interpelar por eles. Entre os apelos percebidos, destacaram-se a necessidade de voltar ao essencial do anúncio de Jesus Cristo, reaprender a escutar, estar presente onde a vida acontece, fortalecer a fraternidade, reconhecer o protagonismo dos leigos, das mulheres e das juventudes, habitar as novas fronteiras digitais, aproximar-se das periferias e dos vulneráveis e assumir com maior concretude o cuidado da Casa Comum.

Nesse caminho, surgiu também uma outra pergunta: “Quais são os apelos que precisamos nos recriar enquanto Família Franciscana?”

A reflexão apontou para a necessidade de uma verdadeira recriação missionária. Recriar a escuta, as relações fraternas, a formação, a comunicação, a participação dos leigos e jovens e a presença junto aos pobres. Não se trata de abandonar aquilo que constitui a identidade Franciscana, mas de permitir que o carisma encontre novas formas de encarnar-se no mundo atual.

Assim, o Congresso vai reconhecendo que a fidelidade ao carisma não significa simplesmente repetir formas do passado, mas recriar, com discernimento, aquilo que São Francisco e Santa Clara viveram como resposta ao Evangelho.

Um aspecto significativo do processo foi a presença transversal da Família Franciscana. Embora não tenha sido constituída como uma frente isolada de trabalho, suas diferentes expressões estiveram presentes nas diversas equipes e momentos de reflexão. Irmãos e irmãs da OFS, jovens da JUFRA e outras expressões do carisma participaram juntos do processo de escuta e discernimento. Essa presença evidencia que a missão evangelizadora não é tarefa exclusiva dos Frades, mas responsabilidade compartilhada por todos aqueles que, de diferentes maneiras, assumem o compromisso de viver e testemunhar o Carisma Franciscano.

A Família Franciscana é chamada, assim, a ser guardiã e transmissora de uma espiritualidade que nasce do Evangelho e se expressa na fraternidade, na minoridade, na simplicidade, na proximidade com os pobres, no cuidado da criação, na promoção da paz e na capacidade de estar próxima das feridas do mundo.

Entre os diferentes campos de missão, a Comunicação apareceu como uma importante fronteira evangelizadora. As novas tecnologias e as redes sociais oferecem possibilidades inéditas para anunciar o Evangelho, aproximar pessoas e alcançar aqueles que talvez não cheguem aos espaços tradicionais da Igreja. Ao mesmo tempo, o Congresso reconheceu o risco de transformar a presença digital em acomodação ou de permitir que o mundo virtual substitua o encontro concreto.

O desafio é, portanto, comunicar para criar pontes, e não apenas para transmitir informações. É preciso avançar da reflexão para a ação, caminhar em comunhão e “remar juntos”, acreditando que, mesmo diante das dificuldades e das experiências de morte, Deus continua abrindo possibilidades de ressurreição e de vida nova para a missão.

As juventudes também ocuparam lugar importante no discernimento. Os participantes reconheceram nos jovens uma profunda sensibilidade diante das necessidades do mundo e do sofrimento do próximo. Muitas vezes, essa sensibilidade manifesta-se em gestos concretos de solidariedade e desejo de fazer algo pelo outro. Ao mesmo tempo, os jovens estão expostos a diferentes propostas de pertencimento, ideologias, influências digitais e formas de “salvação” imediata diante das angústias existenciais.

O apelo que emerge é o de escutar e acompanhar os jovens, ajudando-os a reconhecer a presença de Deus em suas próprias buscas e inquietações. Mais do que tentar enquadrá-los em modelos prontos, somos chamados a criar condições para que possam discernir, participar e assumir seu próprio protagonismo na missão.

Na frente de Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC), o discernimento destacou a experiência da própria fragilidade como caminho para a empatia. Reconhecer as próprias feridas pode ajudar a compreender as feridas dos outros. A pergunta “poderia ser eu no lugar do outro?” desloca a evangelização de uma postura de julgamento para uma atitude de proximidade e compaixão.

A presença junto às periferias e situações de vulnerabilidade foi compreendida não como cumprimento mecânico de tarefas, mas como possibilidade de estabelecer vínculos, gerar pertencimento e experimentar Deus presente nas relações concretas. É uma Espiritualidade Franciscana encarnada, que não foge das incertezas e das dores, mas permanece próxima delas, aberta à conversão e à transformação.

A reflexão sobre as paróquias e o protagonismo dos leigos e leigas revelou a necessidade de fortalecer a formação dos agentes de pastoral e aprofundar o conhecimento do Carisma Franciscano. Também apareceram desafios como a dificuldade de apresentar Jesus de maneira não punitiva, a cultura da imediatidade, o excesso de informação, a influência das redes sociais, o individualismo, o abandono dos idosos e as dificuldades de diálogo entre gerações.

Mas também foram reconhecidos muitos sinais de vida: pessoas que dedicam seu tempo gratuitamente, famílias que permanecem firmes na fé, agentes que visitam e escutam, voluntários que cuidam dos vulneráveis e iniciativas que defendem a dignidade humana e o bem comum.

Nesse contexto, a paróquia é chamada a ser cada vez mais casa de acolhida, espaço de escuta, comunidade missionária e lugar onde o Evangelho toca concretamente a vida das pessoas.

O segundo dia, 07 de setembro, foi dedicado à retomada das reflexões e ao discernimento das prioridades. Após a oração e a síntese do dia anterior, conduzida por Frei Sinivaldo, os participantes foram convidados a uma nova roda de conversa em grupos, tendo como questão orientadora: “Quais seriam as prioridades, os valores inspiradores e as atitudes próprias de nossa missão evangelizadora?”

A partir das partilhas, a plenária buscou construir consensos e definir os encaminhamentos finais do Congresso. Desse modo, o processo vivido nesses dias seguiu uma dinâmica profundamente Franciscana: escutar, discernir, dialogar e partir novamente para a missão.

O Congresso de Evangelização e Missão da Custódia tornou-se, assim, uma oportunidade para olhar o presente com realismo, mas também com esperança. Em meio às fragilidades e às transformações do nosso tempo, a Família Franciscana é chamada a reconhecer que Deus continua presente, continua chamando e continua enviando. A resposta não será encontrada em uma fórmula pronta, mas na capacidade de caminhar juntos, permanecer próximos das pessoas, escutar os sinais do Espírito e recriar nossa presença missionária sem perder a simplicidade do Evangelho.

Como Francisco e Clara, somos convidados a deixar que o Evangelho continue nos desinstalando e nos enviando. O caminho está diante de nós. A missão continua, somos chamados a remá-la juntos, como irmãos e irmãs, confiantes de que o Deus da Vida continua fazendo novas todas as coisas.

Fraternalmente,

Frei Suelton Costa de Oliveira, OFM