
Bebedouro (SP) – A cidade coração, acolheu, entre os dias 30 de julho e 2 de agosto, a 9ª Marcha Franciscana da Juventude, reunindo jovens da Juventude Franciscana (JUFRA), Frades, aspirantes, Freiras, outras juventudes, que estão no território missionário da Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus. Inspirada pela celebração dos 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis, a Marcha tornou-se muito mais do que um encontro juvenil: foi um verdadeiro itinerário de espiritualidade, formação, missão e fraternidade, conduzindo os participantes a redescobrirem o sentido da vida à luz do Evangelho e do testemunho do Pobrezinho de Assis.

Desde a acolhida, marcada pela Missa de Envio e pela constituição das fraternidades de convivência, a programação revelou uma pedagogia profundamente Franciscana. Cada momento foi pensado para favorecer sobretudo uma experiência de encontro com Cristo, de vida fraterna, de oração, de serviço e de compromisso missionário. Celebrações eucarísticas, reflexões em grupo, momentos de convivência, visitas missionárias, caminhada penitencial, oficinas voltadas ao cuidado da Casa Comum, adoração e a tradicional Marcha do Perdão constituíram um único caminho espiritual, cuidadosamente articulado ao longo dos quatro dias de encontro.
O coração de toda a Marcha esteve na formação conduzida por Frei Gilmar Vasques, OFM, que também atua como psicólogo-clínico. O Frei falou sobre “A Revolução de Francisco: Vida, Morte e a Juventude de hoje”, fazendo, então, alusão aos “800 anos do Trânsito de São Francisco”, que ofereceu aos participantes uma profunda reflexão sobre a atualidade da Espiritualidade Franciscana diante dos desafios da juventude contemporânea. A formação apresentou São Francisco como um jovem profundamente semelhante aos jovens de hoje: cheio de sonhos, expectativas, inquietações e buscas, mas que encontrou em Cristo o verdadeiro sentido para sua existência.

A reflexão mostrou que a grande revolução vivida por Francisco não começou quando fundou a Ordem dos Frades Menores, nem quando recebeu os estigmas, mas quando permitiu que Deus transformasse radicalmente o seu coração. Assim como o jovem rico do Evangelho foi convidado a abandonar suas falsas seguranças, Francisco precisou deixar para trás os sonhos de prestígio, riqueza e reconhecimento para descobrir que somente Deus poderia preencher plenamente o coração humano. A partir dessa experiência, compreendeu que as crises, os fracassos e as fragilidades não são o fim da caminhada, mas podem tornar-se

Celebrar os 800 anos do Trânsito de São Francisco significou, portanto, recordar não apenas sua passagem desta vida para a eternidade, mas contemplar o coroamento de uma existência inteiramente configurada a Cristo pobre, humilde e crucificado. Francisco permanece, oito séculos depois, como um testemunho vivo de que a verdadeira felicidade nasce da liberdade interior, da fraternidade, da simplicidade, da misericórdia e da confiança absoluta em Deus. Essa formação tornou-se a grande chave de leitura de toda a programação da Marcha, iluminando cada atividade desenvolvida ao longo dos dias.
A experiência formativa encontrou imediatamente sua continuidade na vida concreta dos participantes. Após a reflexão, os grupos reuniram-se para partilhar suas experiências, confrontando a palavra escutada com os desafios vividos em suas realidades, famílias e comunidades. Depois foram fazer uma visita missionária à Casa Santa Clara, apresentada por Frei André Luís dos Santos, OFM, como uma Instituição Social Franciscana que acolhe crianças e adolescentes em situação de risco, abandono, negligência ou violência. É uma casa de acolhimento que, desde 2004, busca oferecer dignidade, carinho e proteção, funcionando como um espaço mais humano e familiar para quem precisa ser afastado temporariamente do convívio familiar. Isso permitiu transformar a reflexão em gestos concretos de escuta, proximidade, presença e serviço, reafirmando que a Espiritualidade Franciscana nunca permanece apenas no campo das ideias, mas conduz sempre ao encontro com os irmãos, especialmente os mais vulneráveis.

Um dos momentos mais intensos e significativos da programação aconteceu na noite da sexta-feira, durante a Caminhada Luminosa, preparada por Frei João Paulo Gabriel Mendes de Moraes, OFM. Muito além de uma procissão ou caminhada orante, o roteiro conduziu os jovens por uma verdadeira peregrinação espiritual, fazendo dialogar a história de conversão de São Francisco com os grandes sofrimentos enfrentados pela juventude contemporânea. A caminhada iniciou-se com a transmissão da luz do Círio Pascal à pequenas outras velas que cada participante trazia, recordando que Cristo continua sendo a luz capaz de vencer toda escuridão humana e de reacender a esperança no coração daqueles que caminham.

Ao longo do percurso, três profundas paradas meditativas levaram os participantes a contemplar a Cruz como lugar de encontro entre o sofrimento humano e a misericórdia de Deus. A primeira retomou a experiência da “caverna” vivida por Francisco após a guerra e sua profunda crise interior, aproximando-a da realidade da depressão, do isolamento e do sofrimento silencioso que atingem tantos jovens na atualidade. A segunda reflexão apresentou o despojamento de Francisco como resposta às cobranças sociais, estabelecendo um diálogo com a ansiedade, a cultura da comparação e as pressões impostas pelas redes sociais. Já a terceira meditação contemplou o encontro de Francisco com os leprosos, refletindo sobre o drama do abandono, da solidão e da prevenção ao suicídio, reafirmando que a Igreja é chamada a ser presença acolhedora, mão estendida e comunidade que cuida da vida. Cada parada foi marcada pelo silêncio, pela oração e pela entrega das dores humanas aos pés da Cruz, fortalecendo a convicção de que ninguém deve carregar sozinho o peso do sofrimento.

A chegada, diante do Crucifixo de São Damião, conduziu todos ao coração da Espiritualidade Franciscana. Diante da cruz, ecoou novamente o chamado dirigido a Francisco: “Vai e reconstrói a minha Igreja.” A reflexão evidenciou que reconstruir a Igreja significa também reconstruir vidas marcadas pela desesperança, pela exclusão e pelas feridas emocionais. O momento culminou no gesto simbólico do abraço ao leproso, representado por um adolescente que entrou em cena a caráter, isso inspirado naquele episódio decisivo da conversão de São Francisco. Ao romper o preconceito e aproximar-se daquele que era rejeitado pela sociedade, Francisco descobriu o próprio rosto de Cristo. Da mesma forma, os jovens foram convidados a reconhecer que o Evangelho continua chamando cada cristão a abraçar aqueles que vivem as periferias existenciais do nosso tempo. A celebração encerrou-se com uma grande roda da vida, expressão da fraternidade, da comunhão e da alegria que brotam do encontro com Cristo.

A programação prosseguiu no sábado com a Caminhada Penitencial pela manhã cedo, com a oração sobre “A semente da vida eterna” conduzido por Frei Pedro Neto Alves Lima, OFM, teve momentos de convivência, exposição dos carismas das religiosas presentes, da JUFRA, das diversas juventudes e dos Frades e seus formandos, reflexão sobre o cuidado da Casa Comum e a oficina do Tau Franciscano, culminando, à noite, na “FrancisNight” marcada pela adoração ao Santíssimo Sacramento, músicas e atendimento de confissões. No domingo, aconteceu a tradicional “Marcha do Perdão” saindo de frente ao Educandário Santo Antônio perpassando algumas ruas dos bairros, na Comunidade Espírito Santo, no terreno em construção da nova matriz paroquial do Sagrado Coração de Jesus, voltando para a Capela do Educandário, onde foi feito a entrada penitencial da Porta Santa conduzida pelo Pároco, Frei Valdemir Nelo Rufino, OFM (Frei Miro), e em seguida deu início a Celebração Eucarística presidida pelo Custódio, Frei Fernando Aparecido dos Santos, OFM, onde concluiu a celebração com a fixação de uma placa comemorativa pelos 800 anos do Trânsito de São Francisco, como sinal concreto de memória, compromisso e continuidade da missão franciscana e da 9ª Marcha Franciscana da Juventude.
A realização dessa 9ª Marcha também foi marcada pelo empenho generoso e pela dedicação de toda a equipe preparatória, que, durante meses, trabalhou para que cada detalhe do encontro se transformasse em uma verdadeira experiência de evangelização. Sob a coordenação de Frei Pedro Neto, OFM, responsável direto pela Frente das Juventudes, juntamente com o jovem, Murilo Torres, membro da JUFRA/OFS, foi construída uma programação que integrou harmoniosamente espiritualidade, formação, missão, convivência e cuidado com a vida. Essa frente faz parte da Secretaria para Missão e Evangelização, conduzida pelo secretário, Frei Eduardo Augusto Schiehl, OFM, contando ainda com o apoio e incentivo da Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus, cujo compromisso permanente com a evangelização das juventudes tornou possível a realização de mais esta edição da Marcha. O êxito do encontro é fruto da dedicação silenciosa de inúmeros frades, jovens, voluntários e colaboradores que colocaram seus dons a serviço da missão, testemunhando, na prática, o ideal Franciscano de vida.

Ao final da Celebração Eucarística, os participantes reuniram-se diante da Porta Santa para o tradicional registro da foto oficial da 9ª Marcha, perpetuando a memória de um encontro marcado pela fraternidade. Em seguida, realizou-se um momento de avaliação, onde puderam partilhar suas impressões sobre a caminhada vivida ao longo dos quatro dias, destacando a riqueza da formação, da convivência fraterna e das diversas experiências espirituais e missionárias proporcionadas pela Marcha.
Como gesto de esperança e continuidade da missão, o Custódio, Frei Fernando Aparecido dos Santos, OFM, anunciou, com grande alegria, que a 10ª Marcha Franciscana da Juventude acontecerá em 2027, na cidade de Franca/SP, tendo como sede o Convento Santa Maria dos Anjos. A próxima edição revestir-se-á de um significado ainda mais especial, pois será celebrada em pleno Jubileu dos 80 anos da Custódia Franciscana do Sagrado Coração de Jesus, tornando-se um dos momentos comemorativos dessa importante data histórica. O Custódio ressaltou ainda que a preparação da Marcha deverá ser assumida pelos diversos regionais da Custódia, fortalecendo a comunhão entre as Fraternidades e envolvendo toda as juventudes das regiões na celebração do jubileu.

Assim, a 9ª Marcha Franciscana da Juventude encerrou-se deixando muito mais do que lembranças de um encontro. Deixou sementes de conversão, fraternidade e compromisso missionário plantadas no coração de centenas de jovens, reafirmando que o testemunho de São Francisco de Assis continua iluminando novos caminhos para aqueles que desejam seguir Jesus Cristo com simplicidade, alegria e coragem. Na celebração dos 800 anos do Trânsito de São Francisco, a juventude renovou seu compromisso de continuar caminhando, como irmãos e irmãs, anunciando ao mundo que o Evangelho permanece vivo, atual e profundamente capaz de transformar vidas.
Fraternalmente,
Frei Suelton Costa de Oliveira, OFM









