Solenidade da Santa Maria Mãe de Deus: “Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher!”

 

São Paulo dá testemunho de Jesus Cristo como sendo o Salvador que nasceu de uma mulher do seu povo. Esta afirmação é para dizer que Jesus é verdadeiro homem, que não é um mito ou um espírito que ficou visível aos seus discípulos e às multidões. Na sequência da carta, o autor diz que nasceu “sujeito à Lei”, quer dizer, tão humano que não se esquivou de observar as prescrições religiosas de seu povo. A jovem que acreditou na Palavra de Deus é uma mulher de fé e cumpre os preceitos religiosos, por isso leva Jesus ao templo, apresenta-o e cumpre os ritos necessários.

São Lucas narra o momento em que os pastores encontram Maria, José e o “recém-nascido deitado na manjedoura”. Para os pastores, homens simples e certamente analfabetos, Deus revela a notícia da chegada do Salvador, que entra na história da humanidade silenciosamente, de maneira humilde, no seio de uma família pobre e na periferia do mundo. Este nascimento acontece em um contexto histórico bem concreto e conhecido. A cena construída por São Lucas mostra os pastores que chegam onde estão Maria e José e veem o recém-nascido. Não se trata de uma visão em sonho ou em transe, mas uma realidade muito concreta: lá está uma mulher que deu à luz um filho e lá está o que nasceu como nascem todos os seres humanos. Os pastores glorificam a Deus pelo que lhes foi revelado. Ainda não sabem bem o que será daquele menino da manjedoura, mas retornam ao trabalho transformados.

Também Maria “guardava todos estes fatos e meditava sobre eles em seu coração”. Ela é mulher de fé, mas percorre um caminho de discipulado para compreender que aquele Menino deve cumprir o projeto do Pai. O que é traduzido como “fatos” que Maria guardava e meditava é um termo que corresponde a “palavra”, a “acontecimentos”, isto é, aquilo que em hebraico faz referência a palavra/ação realizada por Deus. Maria encontra-se imersa em um processo de amadurecimento de sua fé que alcançará o cume ao celebrar a ressurreição de Jesus.

As celebrações natalinas devem transformar os cristãos num processo constante de amadurecimento da fé e do compromisso com o Reino de Deus. É sempre um risco celebrarmos e pedirmos o nascimento de Jesus em todos os corações, em todas as famílias, e nos esquecermos que Ele nasceu realmente como nascem todos os bebês e entrou na história concreta da humanidade, ensinou um novo caminho da prática do amor altruísta, agiu construindo o Reino de Deus, foi perseguido, morto e ressuscitou vencendo a morte. Hoje, todos são chamados a reconhecê-lo no rosto dos sofredores, especialmente das vítimas da miséria, da violência, dos abusos e da indiferença.

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade do Natal do Senhor: “O fazer-se carne foi a forma com que Deus escolheu para ser presença pessoal e sensível!”

Com uma página maravilhosa o Evangelho de João inicia com o anúncio de que Deus veio morar com o seu povo. “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. É a Palavra de Deus que ama de forma infinita o seu povo que mora neste mundo e nem sempre aprecia a luz, a verdade, a vida. Na Sagrada Escritura a Palavra de Deus, “Dabar”, significa ação, Sabedoria, pois Deus fala agindo. Isto vemos já no Gêneses quando Deus diz, por exemplo, “faça-se a luz” e a luz começou a existir. E tudo foi criado pela sabedoria de Deus. O fazer-se carne foi a forma com que Deus escolheu para ser presença pessoal e sensível entre os seus filhos e filhas. Deus agora fala através do Filho: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”, diz na carta aos Hebreus. Toda a humanidade é interpelada pela Palavra, deve ouvir o que diz o Filho de Deus.

O nascimento do Salvador era esperado pelo povo de Deus. Já revelado pela mesma Sabedoria de Deus, o Salvador nasce como um menino do seu povo. O Evangelista o apresenta como Palavra que desde sempre estava com Deus, por isso não é criada, mas gerada no útero de Maria. Esta forma de vir participar da história da humanidade surpreendeu os doutores e mestres da Lei que não aceitaram Jesus como Salvador.

No Evangelho João contrapõe as situações da humanidade com aquelas que revelam Jesus: criaturas quando Jesus é Criador com o Pai; trevas quando Jesus é luz que ilumina todas as pessoas; fragilidade da carne quando Jesus é gerado pelo Espírito; finitude temporal quando Jesus é eterno; submissão à Lei quando Jesus é graça e verdade libertadora. A luz perpassará todo o Evangelho de João e será aquele que iluminará os olhos e as mentes para ver Deus presente no meio da humanidade.

O contexto em que surge o texto de Isaías (da 1ª leitura) é de opressão e domínio sobre o povo de Israel, o povo de Deus. O profeta vislumbra a salvação que vem de Deus através de um “novo rei” que voltaria a Sião, Jerusalém, para reergue-la das ruínas, alegrar o seu povo e torna-la centro de salvação para todos os povos. Num primeiro momento aparece a esperança de um rei político forte o suficiente para vencer os dominadores. Depois alcança uma dimensão mais universal de realização do bem e da paz.

Em nossos dias, o Natal significa nova esperança para a humanidade abrir bem os ouvidos para a Palavra morar na vida. Isto implica dar o devido valor a cada coisa: primeiro a vida com dignidade para todas as pessoas, a vida de toda a criação para dar condições de vida ao ser humano, a solidariedade que é expressão de amor verdadeiro ao próximo, o respeito ao ser do outro e das criaturas, até chegar aos verdadeiros valores humanos que distinguem os filhos e filhas de Deus das demais criaturas.

Frei Valmir Ramos, OFM

Papa Francisco: “Maria, cuida com carinho deste mundo ferido!”

Com uma mensagem no Twitter, o Papa Francisco recorda hoje a Natividade de Nossa Senhora. A festa da Natividade de Maria projeta a sua luz sobre nós, disse o Pontífice numa homilia de 8 de setembro de 2017.

“Maria é o primeiro esplendor que anuncia o fim da noite e, sobretudo, a proximidade do dia. O seu nascimento faz-nos intuir a iniciativa amorosa, terna e compassiva do amor com que Deus Se inclina sobre nós e nos chama para uma aliança maravilhosa com Ele, que nada e ninguém poderá romper.

Maria soube ser transparência da luz de Deus e refletiu os fulgores desta luz na sua casa, que partilhou com José e Jesus, e também no seu povo, na sua nação e na casa comum de toda a humanidade que é a criação.

No Evangelho, ouvimos a genealogia de Jesus (cf. Mt 1, 1-17), que não é uma mera lista de nomes, mas história viva, história dum povo com o qual Deus caminhou e, ao fazer- Se um de nós, quis anunciar que, no seu sangue, corre a história de justos e pecadores, que a nossa salvação não é uma salvação assética, de laboratório, mas concreta, uma salvação de vida que caminha.

Esta longa lista diz-nos que somos uma pequena parte duma longa história e ajuda-nos a não pretender protagonismos excessivos, ajuda-nos a fugir da tentação de espiritualismos evasivos, a não abstrair das coordenadas históricas concretas em que nos cabe viver. E também integra, na nossa história de salvação, aquelas páginas mais obscuras ou tristes, os momentos de desolação e abandono comparáveis ao exílio.”

Os momentos de desolação que hoje ferem o mundo são inúmeros, como denuncia o Pontífice. A pandemia acirrou as consequências das desigualdades sociais, somando-se aos problemas já existentes, como migração forçada, desnutrição, analfabetismo, conflitos, guerras e destruição do meio ambiente.

Maria, com o seu «sim» generoso, permitiu que Deus cuidasse desta história. E hoje pedimos a Nossa Senhora que cuide “deste mundo ferido”.

Fonte: Vatican News