26º Domingo do Tempo Comum: “Quem não é contra nós é a nosso favor!”

LEITURAS: Nm 11,25-29 / Sl 18 / Tg 5,1-6 / Mc 9,38-43.45.47-48

Quem não é contra nós é a nosso favor”. Esta foi a resposta de Jesus quando os discípulos estavam enciumados e queriam que Jesus proibisse a ação de alguém de fora do grupo deles. Não mudou nada da época da primeira leitura quando vemos Josué querendo proibir os profetas de agirem em nome de Deus. Moisés respondeu chamando a atenção para não ter ciúmes da ação de Deus, o que significa não tomar posse da ação e da vontade de Deus.

Os discípulos de Jesus queriam ser os patrões, os donos do Evangelho e do Reino. Queriam controlar a vontade de Deus e a vontade de Jesus. Assim como Jesus, Moisés abriu os horizontes para a compreensão de que não se pode aprisionar a vontade de Deus e de que todos os que fazem a sua vontade são autorizados a agir em seu nome.

Os discípulos de Jesus queriam ser os únicos depositários de sua missão que era instaurar o Reino de Deus, que é Reino de Justiça, de Paz e de Vida plena. Por sua vez, Jesus mostra que o critério para distinguir seus seguidores é não ser contra o Evangelho e contra o próprio Jesus. No fundo, é a vivência do amor verdadeiro que distingue quem faz a vontade de Deus, quem é seguidor de Cristo, e não apenas o nome do grupo ou da Igreja.

Jesus ainda aproveita para orientar os seus seguidores a não escandalizarem nenhum “desses pequeninos que creem”. Escandalizar significa fazer distanciar do Evangelho, distanciar de Deus. Jesus faz referência a todos os responsáveis por anunciar o Evangelho e construir o Reino diante daqueles que seguem o Evangelho. Aí usa imagens fortes que dá impressão de haver necessidade de mutilação. Na verdade ele ensina que se deve deixar as ações que não condizem com a vontade de Deus: a mão que rouba ou que não partilha, o pé de conduz para caminhos injustos e não para perto dos sofredores, o olho que cobiça e não enxerga a imagem de Deus nos irmãos… Tudo chama à conversão para viver o verdadeiro amor que identifica os seguidores de Jesus.

São Tiago na segunda leitura faz duras críticas aos apegados à riqueza que não conseguem colocar a confiança em Deus e realizar a partilha com os trabalhadores, com os justos e os que passam fome. O poder das riquezas seduzia e ainda seduz os cristãos afastando-os do verdadeiro amor a Deus e ao próximo.

Hoje os cristãos correm os mesmos riscos: o de pensarem que são donos do anúncio do Evangelho e de serem os únicos autorizados a falar em nome de Jesus e aquele de armazenarem coisas pensando que lhes darão segurança e salvação.

Frei Valmir Ramos, OFM


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25º Domingo do Tempo Comum: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”

LEITURAS: Sb 2,12.17-20 / Sl 53 / Tg 3,16-4,3 / Mc 9,30-37

Jesus iniciou a sua missão com os discípulos anunciando a Boa Nova com ensinamentos e sinais do Reino através dos milagres. Os discípulos estão admirados, entusiasmados e, ao mesmo tempo meio confusos, pois ainda não compreenderam bem que tipo de Messias eles estão seguindo. Jesus viaja a pé pelos vilarejos e vai formando os discípulos. No trecho do Evangelho de hoje, Ele anuncia que deverá entregar a vida porque será perseguido pelos poderosos deste mundo. Mas não ficará morto, pois ressuscitará. Este anúncio é feito aos discípulos que deverão continuar a missão interrompida pela morte na cruz.

Os discípulos não compreendem Jesus e ainda discutem entre eles sobre questões bem distantes dos ensinamentos do Mestre. Na prática eles estão preocupados com o prestígio de cada um, tentando cada qual pegar a maior fatia do poder, uma vez que são seguidores de um Mestre que faz bem todas as coisas e impressiona as multidões. Discutir quem é o maior entre eles é permanecer na lógica do mundo onde as pessoas só pensam em dominar os outros e tirar proveito das situações. Jesus é categórico em dizer “quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos”. A sabedoria de Deus não está em ser o primeiro, o maior, mas em ser justo e servir os pequenos.

Na primeira leitura vemos como o justo incomoda aqueles que são ímpios e transgressores da lei de Deus, por isso é perseguido e expulso do meio deles. Com Jesus não será diferente.

Na segunda leitura São Tiago proclama que “a sabedoria vem do alto” e os cristãos são chamados a abraçá-la sem inveja ou rivalidade, mas com atitude de quem tem o coração puro, pacífico, misericordioso, justo e sempre empenhado em produzir bons frutos de justiça.

Como os discípulos e também os cristãos demoram para entender a lógica de Deus, no Evangelho Jesus abraça uma criança e anuncia: “quem acolher uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo”. A criança aí indica todos os pequenos e pobres que são vulneráveis nas mais diversas situações. Jesus então está dizendo aos discípulos e aos cristãos que são estas pessoas que precisam ser servidas e protegidas.

Na Igreja e nas comunidades cristãs também existem aquelas pessoas que querem poder e privilégios, mas Jesus continua insistindo que seus seguidores sejam servos, sejam justos, coloquem-se do lado dos pequenos e nunca se vangloriem dos cargos ou ministérios, pois o Mestre e Senhor se fez servo de todos e entregou a própria vida.

Frei Valmir Ramos, OFM


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24º Domingo do Tempo Comum: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga!”

LEITURAS: Is 50, 5-9a / Sl 114 / Tg 2, 14-18 / Mc 8, 27-35

Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Este é o ensinamento de Jesus aos discípulos e à multidão que ia ao encontro dele a fim de ouvir a Palavra de Deus e ser curada de seus males. Esta afirmação vem logo depois do diálogo com os discípulos sobre a identidade de Jesus. Vindos de uma missão, Jesus pergunta sobre quem o povo diz que Ele é, e finalmente sobre quem os discípulos pensam que Ele seja. Pedro reponde por todos: “Tu és o Messias”, que quer dizer Cristo, aquele que salva. Apesar desta afirmação, Pedro não tinha entendido bem a missão de Jesus. Isto foi a causa da resposta dura de Jesus, que tem o sentido de exortação para que Pedro fosse para trás de Jesus, para segui-lo em tudo, e não ser uma pedra de tropeço e obstáculo ao seu projeto.

Aí compreendemos a revelação de Jesus que é enviado pelo Pai para Salvar a todos. Ele é visto como profeta, mas não á apenas profeta. É o Ungido, o Messias, o Cristo, é Deus mesmo que assumiu a condição humana e por isso se diz “Filho do Homem”. A reação de Pedro diante do anúncio da condenação e morte por parte dos chefes religiosos pode ser interpretada como aquela de alguém que ainda não entendeu que o Cristo é senhor da vida e vencedor da morte. Na verdade, os seus seguidores são convidados a abraçar o mesmo projeto, seguir o mesmo caminho, tomar a mesma cruz e depois ressuscitar com Ele.

Na primeira leitura, o profeta Isaías mostra o servo sofredor que não volta atrás diante das ameaças. Ele tem uma missão a cumprir e sabe que será perseguido e torturado, mas sabe também que “o Senhor Deus é o seu auxiliador”, por isso segue fiel a quem o enviou.

Na segunda leitura, o Apóstolo Tiago afirma que “a fé se não se traduz em obras, por si só é morta”. Isto significa que a fé é viva e deve ser anunciada e revelada pelas obras e não apenas pelo testemunho de discursos. Os seguidores de Jesus nas comunidades primitivas estavam se esquecendo que o amor a Deus se revela no amor aos irmãos e irmãs, especialmente àqueles mais sofredores que têm a vida ameaçada pela fome ou pelo frio.

Hoje os cristãos precisam colocar-se no caminho de Jesus, tomar a cruz que significa abraçar o seu projeto de construção do Reino de Deus e defesa da vida, mesmo que isto custe perseguição e morte. Por outra parte, não podem ser impedimento à construção do Reino de justiça e paz.

Frei Valmir Ramos, OFM


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23º Domingo do Tempo Comum: “Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar!”

LEITURAS: Is 35,4-7a / Sl 145 / Tg 2,1-5 / Mc 7,31-37

Quando João Batista mandou perguntar a Jesus se Ele era o Messias, a resposta foi que “os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5). Isto significa que Deus cumpriu sua promessa de acudir os sofredores e marginalizados de seu povo e enviou Jesus como Messias, Salvador. É Jesus o libertador das situações desumanizantes que os pobres precisam enfrentar.

No Evangelho de hoje Jesus está cumprindo a sua missão fora da Galileia. Isto indica que Ele veio salvar a todos e não apenas um grupo. Sua ação narrada no Evangelho é a de devolver a dignidade ao surdo-mudo. É bom lembrar que as pessoas com alguma necessidade especial eram tidas como pecadoras ou possuídas por um espírito impuro. Ou então eram filhas de pais pecadores e, por isso mesmo, eram discriminadas e marginalizadas na sociedade e no culto. Por isso, vemos nos Evangelhos que os cegos, os surdos-mudos, os aleijados precisam pedir esmolas para não morrerem de fome. Quando Jesus cura o surdo-mudo está indicando que a profecia de Isaías, que ouvimos na 1ª leitura, já se cumpriu. É Ele o enviado por Deus para perdoar os pecados, curar as enfermidades, devolver a dignidade e evangelizar os pobres.

Na interpretação dos judeus (fariseus, saduceus e mestres da Lei), Jesus é um charlatão. Eles não aceitam que Deus tenha se encarnado e que sobreponha a lei do amor aos preceitos religiosos criados ao longo dos séculos. De fato, quando Jesus cura o surdo-mudo, tido como pecador, Ele está dizendo que aquele surdo-mudo está perdoado ou não tem pecado. Isto para os judeus é um escândalo. Mas Jesus não faz diferença entre as pessoas e acolhe todas: mulheres, crianças, pobres, doentes, pecadores e estrangeiros.

São Tiago na 2ª leitura dá um puxão de orelha na comunidade cristã que começou a fazer distinção entre as pessoas ricas e pobres. Já naquele tempo o “prestígio” do mundo queria ser mantido na comunidade religiosa. Mas, Jesus havia dito aos discípulos “vós todos sois irmãos” e indicava assim que a sua nova família seria de pessoas com os mesmos direitos e deveres, sem maiores ou menores, e todos com a mesma dignidade e importância.

Hoje nós precisamos continuar a missão de Jesus de restituir a dignidade a quem a teve tirada ou roubada, de “curar” os surdos-mudos, os cegos, os doentes, os aleijados. A forma para fazê-lo é inseri-los na sociedade de modo que vivam integrados e dignamente, mesmo com necessidades especiais. Em nossas comunidades não podem subsistir os “sobrenomes” em detrimento à dignidade e importância dos pobres.

Frei Valmir Ramos, OFM


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22º Domingo do Tempo Comum: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior!”

LEITURAS: Dt 4,1-2.6-8 / Sl 14 / Tg 1,17-18.21b-22.27 / Mc 7,1-8.14-15.21-23

Jesus inaugura uma nova forma de viver a religiosidade, superando o ritualismo e vivenciando a vontade do Pai na prática. O ritual da purificação (feita com aspersão de água) era uma maneira de livrar-se de tudo que impedia a pessoa de aproximar-se daquilo que era sagrado. Acontece que os fariseus e mestres da Lei queriam observar o rito de lavar-se apenas fisicamente, exteriormente. De fato, as leis de purificação surgiram a partir da classificação das coisas impuras, incluindo pessoas doentes, mulheres durante a menstruação e animais como o porco e o camelo. Daí surgiram as leis e os ritos de purificação a serem observados antes das orações e das refeições.

Jesus mostra aos fariseus que nada vale a purificação externa e sim aquela interna, com a superação do pecado e a vivência do amor para realizar a vontade do Pai. Os discípulos de Jesus estavam já superando aquele ritualismo. Enquanto os fariseus e mestres da Lei insistem na purificação, Jesus quer a realização do Reino de Deus através das obras concretas, como diz São Tiago na segunda leitura: “sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes”. E São Tiago continua: “a religião pura é assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não deixar-se contaminar pelo mundo”. Esta é a forma de guardar os mandamentos de Deus que vemos na primeira leitura, isto é, viver concretamente o amor para com as pessoas que mais sofrem. Órfãos e viúvas representam as pessoas mais vulneráveis, pois naquele tempo uma pessoa sem família estava fadada a morrer de fome. O “mundo” quer dizer o conjunto de falsos valores e injustiças praticadas por causa do egoísmo, da ganância, do ódio, da discriminação e da falta de respeito pelo outro.

Esta Palavra é atual e chega a todos os cristãos para que não vivam a sua fé em ritualismos estéreis. De fato, o que Jesus ensina é que a fé exige obras. Por isso, o mesmo São Tiago vai insistir nas obras para revelar a fé e a fidelidade dos cristãos. Jesus dá uma orientação clara em relação ao culto que precisa estar ligado à vida e à prática do amor. Aos fariseus ele cita a própria Sagrada Escritura dizendo “de nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”. Isto também é atual para os cristãos, uma vez que é costume usar muita solenidade em certas celebrações mas sem importar-se e nem ouvir o grito dos “órfãos e viúvas” de hoje.

Frei Valmir Ramos, OFM

21º Domingo do Tempo Comum: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!”

LEITURAS: Js 24,1-2a.15-17.18b / Sl 33 / Ef 5,21-32 / Jo 6,60-69

A quem iremos Senhor? Tu tens palavra de vida eterna!” Esta é a declaração de São Pedro que ainda não entende completamente o que Jesus está dizendo e fazendo, mas vê nele a esperança da vida eterna. No final do capítulo 6 do Evangelho segundo São João vemos os discípulos assustados com a verdade de Jesus. Significa que estão vacilantes na fé e ainda não conseguem ver que Jesus é “espírito e vida”, que o seu Reino não é material, que segui-lo exige uma escolha decidida pela vida e pelos mais pobres e sofredores.

Todo o capítulo 6 de São João é a revelação de Deus que assumiu a humanidade e veio saciar o seu povo de vida plena. Para isso Jesus se doa como alimento da alma. Ele contrapõe carne e espírito, vida material e vida espiritual. Na Sagrada Escritura carne significa morte, porque é limitada e corruptível. Quando Jesus diz que suas “palavras são espírito e vida” indica uma dimensão espiritual que o ser humano é chamado a desenvolver para participar da vida de Deus.

Jesus afirma que Ele é “o pão que desceu do céu” e que a sua “carne é verdadeira comida” e seu “sangue verdadeira bebida”. Muitos ouvintes de Jesus não acreditam n’Ele, pois não conseguem imaginar que Deus pudesse assumir a carne humana, viver entre eles e entregar a própria vida para que outros pudessem havê-la em abundância. Muitos discípulos também reagiram dizendo “esta palavra é dura” e abandonam o seguimento de Jesus, por ser exigente a ponto de dar a vida por amor.

O profeta Josué na primeira leitura mostra como o povo está resistente em seguir os mandamentos de Deus. Queriam vive-los de acordo com a própria concepção, ignorando a necessidade de amar os irmãos. Por isso, o profeta diz ao povo: “escolhei hoje a quem quereis servir”. Muitos estavam na idolatria dos deuses estrangeiros e viviam uma religião voltada para o próprio interesse.

Para entender a segunda leitura é preciso evitar os equívocos de um tempo. Seu autor (esta carta é apenas atribuída a São Paulo) é fruto de uma sociedade machista que submetia a mulher. Jesus mostrou que a mulher tem a mesma dignidade do homem. Os dois formam uma só carne e por isso ambos vivem uma mesma vida de amor e respeito. Na mesma leitura o autor fala de como Cristo alimenta e cuida da sua Igreja, entendida como esposa. De fato, todos os cristãos são alimentados pelo Cristo que se doa e permite a comunhão de todos com Ele. Esta comunhão exige dos cristãos o compromisso com a sua missão de garantir vida plena para todos.

Frei Valmir Ramos, OFM


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19º Domingo do Tempo Comum: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente!”

LEITURAS: 1Rs 19,4-8 / Sl 33 / Ef 4,30-5,2 / Jo 6,41-51

Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”. Esta é a revelação de Jesus que São João coloca no ápice de sua narração do capítulo 6 de seu Evangelho. Este pão é a Palavra de Deus encarnada, por isso os judeus que ouviam o discurso de Jesus murmuravam numa atitude de incredulidade, pois eles conheciam Jesus como o filho de José carpinteiro e não como o enviado de Deus que assumiu a condição humana.

Jesus insiste e se apresenta como sendo a Palavra na qual a humanidade precisa acreditar. Como Palavra encarnada, Ele se oferece em sacrifício como alimento para a vida eterna. Esta é uma referência à Eucaristia que dará aos seus seguidores a possibilidade de permanecer em comunhão de vida com Ele. Daí a necessidade de desenvolver a fé para enxergá-lo presente na simplicidade do pão material, como Ele mesmo está visível aos seus discípulos e aos judeus.

São Francisco tinha especial reverência à Eucaristia pois reconhecia a presença de Jesus vivo, como também estava presente nos irmãos e irmãs sofredores.

Já no Antigo Testamento Deus tinha revelado ao seu povo que é o Deus da vida, por isso, providencia o pão para seus filhos e filhas. Com a vinda de Jesus, cumpre-se a vontade do Pai de saciar a fome neste mundo e levar todos à vida que não tem fim.

Na primeira leitura vemos que Elias no deserto estava por morrer de fome. Na prática ele não queria continuar a sua dura missão como profeta. Deus, que o escolheu, providenciou o pão que lhe era necessário para continuar a missão. O anjo é o mensageiro de Deus que diz a ele “levanta e come”. Isto quer dizer que ele não pode esquivar-se da missão. Ele precisa pensar no povo de Deus, seus irmãos e irmãs.

O autor da Carta aos irmãos de Éfeso exorta para viver no amor como Cristo viveu e entregou-se por nós. Esta mensagem é atual, pois a vivência do amor faz superar todas as mesquinharias humanas, o egoísmo, a indiferença, e coloca o cristão atendo à fome do próximo e à necessidade de manter-se em comunhão com Jesus. É esta comunhão com Ele que dá sentido às ações de caridade e doação para que todos tenham vida em abundância. Por outro lado, a comunhão com Jesus exige compromisso com a sua missão de construir o Reino de Deus neste mundo.

Frei Valmir Ramos, OFM

18º Domingo do Tempo Comum: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede!”

LEITURAS: Ex 16,2-4.12-15 / Sl 77 / Ef 4,17.20-24 / Jo 6,24-35

São João evangelista mostra que uma multidão vai atrás de Jesus, pois todos viram que Ele realiza alguns sinais não comuns entre os seres humanos. Contudo, ainda não entenderam bem a revelação de Jesus e quem Ele de fato é. Depois de terem sido saciados com o pão material, vão procurar Jesus talvez para que tenham mais pão. Neste momento Jesus indica o alimento espiritual: “quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”. O convite de Jesus é para que todos os seus seguidores creiam que Ele é “o pão da vida” que foi enviado pelo Pai para que seus filhos e filhas tivessem a vida eterna.

Esta reflexão de São João faz os cristãos entrarem em uma dimensão espiritual que supera as dificuldades encontradas nos caminhos da vida. Vemos na primeira leitura como o povo de Israel se lamentava quando estava enfrentando as dificuldades durante o êxodo. No Egito era um povo oprimido e escravizado pelo faraó. No caminho do deserto precisava enfrentar a fome e a sede. Num primeiro momento o povo não tinha entendido que a libertação era também fruto de uma luta, de esforços comunitários e de perseverança na realização da vontade de Deus. É Deus, o libertador que não abandona o seu povo, quem providencia o alimento necessário. Mas não somente o alimento material.

Para enxergar a ação de Deus, o povo precisa crer, os cristãos precisam crer que Jesus é o “pão de Deus que desce do céu e dá vida ao mundo”. Esta é a maior obra de salvação de Deus, isto é, descer no meio do seu povo para alimentá-lo material e espiritualmente para que tenha a vida plena neste mundo e a vida eterna depois desta existência aqui na terra. A compreensão desta grande obra de Deus faz o autor da Carta aos Efésios escrever para que se revistam do homem novo, “da imagem de Deus”, quer dizer, revestir-se da fé em Cristo e alimentar-se d’Ele para realizar as suas obras, manter-se em comunhão com Ele e depois participar da vida d’Ele.

Hoje todos os cristãos são chamados a manterem-se unidos ao “pão da vida” para que as obras cristãs sejam alimento na defesa da vida das pessoas e da criação e sejam capazes de revelar a bondade de Deus presente no caminho de libertação de seu povo que é enganado, que sofre violência, opressão, discriminação e marginalização.

Frei Valmir Ramos, OFM


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17º Domingo do Tempo Comum: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”

LEITURAS: 2Rs 4,42-44 / Sl 144 / Ef 4,1-6 / Jo 6,1-15

O Evangelista João descreve a ação de Jesus como reveladora de sua procedência de Deus. É o que o povo diz depois de ter comido os poucos pães partilhados e ainda recolhido 12 cestos das sobras: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”. Acontece que naquele momento o povo ainda não tinha percebido o sinal maior que era Jesus mais que um profeta. Por isso, quando querem levá-lo para fazê-lo rei, Jesus se retira sozinho para a montanha onde dialoga com o Pai.

No Domingo passado vimos como Jesus teve compaixão do povo que estava como rebanho sem pastor. Como Ele se compadece das pessoas sofredoras que foram ao seu encontro, Jesus começa a ensinar-lhes muitas coisas, pois eram pessoas que estavam sedentas de uma Palavra de vida, de alento, de esperança.

Neste Domingo vemos Jesus dando um passo a mais para que as pessoas sofredoras tenham vida e dá-lhes de comer. É a prova mais evidente de que Jesus não quer cuidar apenas da alma das pessoas, mas também de seus corpos para que tenham vida humanizada. O evangelista João descreve a cena em um lugar à beira do Mar da Galileia, longe de qualquer vilarejo. Sua pergunta pedagógica coloca em cena os seus discípulos que ainda não sabem o que fazer. E são eles que vão organizar o povo e distribuir o pão partilhado.

A liturgia faz um paralelo com aquilo que fez o profeta Eliseu na primeira leitura quando ele diz ao seu servo “dá ‘os pães’ ao povo para que coma”. O profeta Eliseu reconhece que o povo está com fome e não admite que os pães ofertados fiquem somente para os privilegiados do culto.

A grande diferença é que João apresenta Jesus realizando uma celebração do amor de Deus pelo seu povo e usa o termo “eucaristia” para a oração de ação de graças do Mestre. O espírito eucarístico não permite a exclusão de nenhum filho ou filha de Deus do direito essencial ao alimento. O caminho indicado por Jesus é a partilha, pois de fato, quando acontece a partilha sobra alimento.

Se no Brasil de hoje existem tantos milhões de pessoas passando fome segundo dados oficiais, é porque ainda não tem partilha suficiente. Pior, é porque o egoísmo e a falta de compaixão permitem o desperdício de mais de 40 toneladas de alimento por dia no Brasil.

O autor da Carta aos efésios escreve que “há um só corpo e um só Espírito” entre os cristãos. Então nos perguntamos: por que nos dizemos cristãos se ainda não repetimos o gesto de Jesus Cristo e partilhamos o pão?

Frei Valmir Ramos, OFM

16º Domingo do Tempo Comum: “Jesus teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor!”

LEITURAS: Jr 23,1-6 / Sl 22 / Ef 2,13-18 / Mc 6,30-34

No tempo do profeta Jeremias existia um rei que se chamava Sedequias, que significa “Deus é justiça”, mas ele reinava sem cuidar do povo, especialmente dos mais pobres e desvalidos. A imagem do pastor era aplicada aos governantes que tinham a tarefa de zelar pelo bem-estar das pessoas, protege-las contra as ameaças de suas vidas e promover a concórdia e a paz. Como Sedequias fazia o contrário, Deus promete um outro rei que “será sábio, fará valer a justiça e a retidão na terra” e “o chamarão: Senhor, nossa justiça”.

Quando vemos que “Jesus teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”, imediatamente reconhecemos que Deus cumpriu a sua promessa. O sentimento de Jesus revela a ternura de Deus para com seus filhos e filhas. Ele mesmo é o bom Pastor que substitui os maus pastores que deixam o seu povo sem o cuidado necessário diante das ameaças e da fome.

O evangelista Marcos apresenta esta passagem em um lugar deserto para onde os discípulos foram com Jesus para descansar. Acontece que uma multidão chegou antes deles ao lugar, pois tinha sede da Palavra e era formada de pobres, considerados pecadores pelos poderosos que os excluía da sociedade e da comunidade religiosa judaica. Jesus é o “bom Pastor” que sofre com os sofredores. Este é o sentido da compaixão. O descanso ficou para depois e Jesus “começou a ensinar-lhes muitas coisas”.

O autor da carta aos efésios escreveu que Jesus “quis criar em si um só homem novo”, quer dizer, uma nova comunidade, um novo rebanho do qual Ele mesmo seria o Pastor e estabeleceria a paz. A divisão, a inimizade, os muros, tudo foi destruído pela cruz que trouxe reconciliação de todos os povos e formou um só corpo. É o novo rebanho cuidado pelo bom Pastor.

Hoje todos os cristãos são chamados a viver o Evangelho com compaixão, e isto significa colocar-se na pele dos sofredores e sofrer com eles, para lutar pela justiça e construir a paz, para deixar a ideia de que os pobres são pobres por culpa deles ou porque são pecadores, para servir uns os outros para que caiam os muros de divisões e inimizades. Com o empenho de todos, “nada faltará” a nenhuma ovelha do Criador e Redentor da humanidade e todos terão vida em abundância.

Frei Valmir Ramos, OFM


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