Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”

LEITURAS: Dn 7,13-14 / Sl 92 / Ap 1,5-8 / Jo 18,33b-37

O trecho do Evangelho deste Domingo de Cristo Rei faz parte da narração do processo de Jesus em que Pilatos interroga-o para saber o porquê das acusações. Diante de Pilatos e dos seus acusadores Jesus declara que o seu Reino não é deste mundo. Os outros evangelistas colocam o Reino de Deus no centro da pregação de Jesus, enquanto que João afirma a realeza de Jesus. Todos são concordes que Jesus é um Rei bem diferente dos que o povo conhecia. O seu Reino é de vida, de amor, de paz, de justiça e de serviço. Os reinos conhecidos eram de exploração através dos impostos e dos trabalhos forçados, de guerras e de injustiças.

Pilatos tem poder dado pelo imperador romano e é representante dos reinos deste mundo. O poder de Jesus não é temporal e não é de domínio sobre os outros. Por isso, atribui-se a profecia de Daniel a Jesus, cujo Reino é eterno e seu poder não lhe será tirado. Os reinos deste mundo passam, os poderes caem, os mandatários desaparecem e surgem outros lutando pelo poder para explorar, guerrear, enganar e dominar. O Reino de Jesus é dado por Deus e baseado no amor, na justiça, no respeito pelos direitos de todos, na amizade entre as pessoas e os povos.

A afirmação de Jesus: “para isso eu nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade”, revela que seu Reino está acima de todas as expectativas humanas. Na segunda leitura vemos a declaração de que Jesus é “o alfa e o ômega”, isto é, o começo e o fim. Esta é a dimensão da eternidade de Deus que se encarnou para fazer parte da história da humanidade. O seu Reino é eterno, mas não começa só depois da morte. Começa na história humana real, concreta, faz parte da vida das pessoas. Por isso, todos são chamados a seguir Jesus Cristo e atuar na construção do seu Reino. Para isso ele chamou os doze Apóstolos, inúmeros discípulos e discípulas e continua chamando os cristãos todos para construir o seu Reino que começa neste mundo com justiça, paz, solidariedade, amor, misericórdia e bondade.

Os cristãos não devem esquecer que a coroa de Jesus é de espinhos e não de ouro; que seu Reino é de serviço e não de poder de domínio; que o empenho pelo Reino é de partilha e não de conquista e acúmulo; que o Pai o enviou ao mundo para que todos os povos pudessem conhecer o amor de Deus e a sua paz e ter vida em abundância.

Frei Valmir Ramos, OFM


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33º Domingo do Tempo Comum: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão!”

LEITURAS: Dn 12,1-3 / Sl 15 / Hb 10,11-14.18 / Mc 13,24-32

A linguagem apocalíptica da 1ª leitura do livro de Daniel, faz pensar num momento catastrófico do julgamento de Deus em que Miguel, mensageiro de dele, salvaria o seu povo. O profeta, que é porta voz de Deus, suplica pela fidelidade do povo para que no fim dos tempos, este mesmo povo, seja salvo por Deus.

O Capítulo 13 de São Marcos concentra o ensinamento escatológico de Jesus, entendido como um novo tempo em que reinará o Deus verdadeiro, vencedor das injustiças e de todo mal. No início desse capítulo, os discípulos estão admirados com o esplendor do templo e, no Evangelho deste Domingo, vemos uma resposta de Jesus sobre aquela grandiosa construção em Jerusalém que será destruída como todo poder temporal. Por isso, às vezes, esta Palavra é lida como sendo indicação do fim do mundo. Na verdade, a referência às catástrofes cósmicas é indicação do poder de Deus diante de toda a criação e não destruição da mesma. Por outra parte, Jesus reafirma a eternidade da Palavra de Deus. Tudo passa, os poderes desse mundo passam, o ciclo da vida passa, mas as “palavras” de Jesus “não passarão”.

A “parábola” da figueira faz perceber imediatamente a intenção do evangelista em não confundir o leitor com a ideia do fim do mundo, mas indicar a vitória de Jesus como Salvador da humanidade. Os discípulos devem ler os sinais dos tempos como fazem quando veem a figueira brotando e sabem que o inverno passou. Assim também devem estar vigilantes para acolher o Salvador e participar do seu Reino glorioso.

A carta aos Hebreus fala de Jesus Cristo sentado à direita de Deus, indicando a sua glória conquistada por sua obediência plena à vontade do Pai e por seu amor infinito pela humanidade a ponto de entregar a sua própria vida como “sacrifício único pelos pecados”.

Aos cristãos de hoje, esta palavra lança uma luz na vivência da fé com obras que a solidificam, que fazem com que cada cristão esteja sempre mais ligado ao Mestre Salvador por reconhecê-lo nos sofredores, que lê os sinais dos tempos e reconhece que Deus continua falando e agindo no meio da humanidade. Por isso mesmo os cristãos precisam rechaçar todo desejo de grandeza, de poder, de domínio e, com humildade, colocar-se a serviço dos pequenos e desprezados deste mundo como fez Jesus mesmo.

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade de Todos os Santos: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus!”

LEITURAS: Ap 7,2-4.9-14 / Sl 23 / 1Jo 3,1-3 / Mt 5,1-12

Santos, filhos e filhas de Deus fiéis ao mandamento do amor.

Deus mesmo revela-se ao seu povo no Antigo Testamento e faz um convite a todos: “sede santos como eu sou Santo” (cf Lv 11,44). O termo “santo” vem de uma palavra em hebraico e significa o que é separado daquilo que não é de Deus. A ideia é a de almejar e alcançar a perfeição de Deus. No Evangelho segundo Mateus, em seguida ao texto desta celebração, encontramos a expressão “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5,48). O significado de “perfeito” é relacionado à integridade, à fidelidade a Deus e à sua vontade.

Refletindo assim entendemos a celebração dos Santos, isto é, de pessoas que colocaram-se a caminho em busca da perfeição e foram fiéis a Deus e à missão de realizar ações concretas de amor ao próximo. Alguns foram testemunhas entregando a vida no martírio, outros na construção do Reino, na evangelização, outros no amor misericordioso e sem limites para com os sofredores, outros ainda dedicando-se às coisas de Deus no silêncio e na mais alta humildade. Em uma palavra, santos são aquelas pessoas capazes de viver plenamente a fidelidade e o amor a Deus e ao próximo.

Jesus indicou o caminho de santidade ensinando as bem-aventuranças. Em Mateus lemos: “pobres de espírito”, “aflitos”, “mansos”, “famintos e sedentos de justiça”, “misericordiosos”, “puros de coração”, “promotores da paz”, “perseguidos por causa da justiça”, “fiéis na perseguição”. Se no Antigo Testamento Deus convidou o seu povo a ser santo e deixar os ídolos, no Evangelho Jesus convida os cristãos a seguirem o caminho das bem-aventuranças para serem santos e participarem do Reino de Deus. É um caminho de comportamento sensível às necessidades dos outros, sem fechar-se no egoísmo, sem prepotência, sem desejo de vingança e, ao contrário, fiel a Deus e sentindo-se responsável pela vida em plenitude de todos os outros.

Em nossos dias existem muitos santos e santas “anônimos” no mundo. São pessoas que vivem a vontade de Deus, fazem tudo pelos outros, entregam-se para que outros tenham vida plena, dedicam-se silenciosamente na construção da paz, agem sempre com coração diante das pessoas, mesmo as pecadoras… Temos muitos mártires santos, mulheres e homens que deram sua vida por fidelidade à fé, por não abrir mão do projeto de Deus e dos valores do Evangelho, por defender a vida de outras pessoas e da natureza, nossa Casa Comum. Todas estas pessoas são santas, “uma multidão incontável” como lemos na 1ª leitura. Todos aqueles reconhecidos pela Igreja e todos estes recebem o “dom de serem filhos de Deus” que São João anunciou na 2ª leitura e, por isso mesmo, bem-aventurados.  

A palavra de Jesus continua ressoando a todos os cristãos: “sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste”. Por isso mesmo todos são chamados a viver plenamente o amor para com Deus, para com os irmãos e irmãs e para com a Irmã Mãe Terra.

Frei Valmir Ramos, OFM


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31º Domingo do Tempo Comum: “Tu não estás longe do Reino de Deus!”

LEITURAS: Dt 6,2-6 / Sl 17 / Hb 7,23-28 / Mc 12,28b-34

No Evangelho deste Domingo um escriba pergunta a Jesus sobre “o primeiro de todos os mandamentos”. Ele estava se referindo aos mandamentos de Deus, partindo do decálogo que Deus revelou a Moisés. Para responder Jesus se refere ao credo judaico presente no livro do Deuteronômio que lemos na primeira leitura: “Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor”. Depois, em poucas palavras Jesus resume: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças” (Dt 6,4-5) e amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18).

O amor na Sagrada Escritura é uma força que faz sair de si mesmo e agir para o bem do outro. São João diz que “Deus é amor” (cf 1Jo 4,8). A sua experiência de Deus que vive em comunhão com o Filho Jesus e o Espírito Santo e está presente no meio da comunidade agindo como Pai, Mãe, Pastor, Guia, Luz, Força e Vida, o fez chegar a esta definição, pois o mistério da ação gratuita de Deus pelos seus filhos e filhas não se explica com palavras humanas. De fato, na Sagrada Escritura, a aliança de Deus com o seu povo é um compromisso de amor em que Deus se empenha, cuida, zela de seu povo e espera uma resposta de gratidão e reconhecimento. Ele cumpriu sua promessa de amor e “estabeleceu Jesus como sumo sacerdote perfeito para sempre”. Ao mesmo tempo, Deus espera o empenho de cada filho e filha com o seu semelhante, isto é, que viva a caridade para com o próximo.

O amor a Deus deve ser incondicional, com todo o ser, “coração, alma, entendimento e força”, repete Jesus (cf Dt 6,5), e o amor ao próximo como se ama “a si mesmo” (cf Lv 19,18). Os primeiros cristãos entenderam, mas tinham dificuldades como os fariseus. São João foi categórico escrevendo às comunidades: “quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). Jesus faz entender a relação profunda entre os dois amores que, na prática não podem estar desvinculados para não cair na aridez do racionalismo ou da hipocrisia.

O escriba acabou elogiado por Jesus: “não estás longe do reino de Deus”. Isto significa que viver o amor a Deus e ao próximo abre caminho para o Reino de Deus que é construído com ações concretas de caridade. A caridade nos faz colocar-nos na pele dos sofredores deste mundo e agir impulsionados pelo amor gratuito que vem de Deus. Por isso, toda ação ou projeto dos cristãos não pode deixar de basear-se em uma mística que leva sempre a Deus.

Frei Valmir Ramos, OFM


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30º Domingo do Tempo Comum: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”

LEITURAS: Jr 31,7-9 / Sl 125 / Hb 5,1-6 / Mc 10,46-52

Jesus está indo para Jerusalém com seus discípulos. Passando por Jericó realiza um sinal da presença do tempo messiânico em que Deus está agindo no meio do seu povo com um amor infinito. De fato, o que lemos na 1ª leitura do profeta Jeremias é anúncio do retorno do exílio, lá onde o povo de Deus estava sem terra e sem cidadania. A ação de Deus muda a tristeza em alegria, a escravidão em liberdade, a escuridão em luz.

Às margens da estrada de Jericó está um filho de Deus que é cego e, por isso, precisa pedir esmolas para sobreviver. Ele conhece a promessa de Deus que enviaria um salvador da descendência de Davi, quer dizer pertencente ao povo hebreu. Quando ele soube que Jesus estava passando com a multidão gritou por “piedade”. Para as pessoas daquele tempo, a cegueira era por causa de algum pecado do cego ou de seus pais. Por isso Bartimeu grita por piedade.

A cena construída por Marcos é extraordinária, mostrando a fé daquele homem que provoca um movimento cheio de vida. “Jogou o manto e deu um pulo” escreveu Marcos, para indicar a convicção de Bartimeu sobre a identidade de Jesus e sua confiança no seu Mestre. Segue o diálogo com Jesus no qual o cego não pede uma esmola, mas a saúde, a dignidade, a vida. Na prática o cego vê o que os outros não veem. Ele enxerga a presença do Salvador da humanidade vindo da periferia do mundo hebreu, de um lugar insignificante e caminhando no meio do seu povo.

Jesus, por sua vez, acolhe o pedido de Bartimeu e lhe diz: “vai a tua fé te curou”. O verbo utilizado por Marcos que o nosso texto traduz como “curou” significa salvar, libertar, curar. Esta é a missão do Messias esperado pelo povo e isto é o que Jesus vai realizando durante a sua vida pública. O cego que agora vê segue Jesus pelo caminho rumo a Jerusalém. Sua decisão é a de acompanhar o Mestre até as últimas consequências.

Hoje os cristãos são chamados a viver uma fé ativa em Jesus que continua no meio do seu povo, agora porém, ressuscitado falando através do Evangelho, alimentando com a Palavra e a Eucaristia, curando, libertando e salvando. O seguimento de Jesus, contudo, exige dos cristãos um compromisso em restituir a dignidade, a saúde e defender a vida de todos aqueles que se encontram marginalizados à beira da estrada.

Frei Valmir Ramos, OFM


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29º Domingo do Tempo Comum: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos!”

LEITURAS: Is 53,10-11 / Sl 32 / Hb 4,14-16 / Mc 10,35-45

O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. E assim se cumpriu a profecia de Isaías que vemos na 1ª leitura: o servo de Deus entrega a sua vida para salvar os outros. Isto significa dedicação total aos outros e não glória pessoal como querem os grandes e os ambiciosos desse mundo.

A resposta de Jesus ao pedido dos Apóstolos não permite que eles continuem pensando com a lógica humana de ter privilégios e honra diante dos outros. Jesus inverte os valores desse mundo. Um pouco antes deste texto, lemos que Jesus anunciou aos seus discípulos que deveria ser preso, torturado e morto, mas que ressuscitaria no terceiro dia. João e Tiago querem ter o privilégio de ocupar os lugares mais importantes perto de Jesus. É a tentação de ter poder e dominar os outros. Jesus, no entanto, convida ambos ao seu seguimento com tudo que isto comporta, isto é, colocar-se a caminho, abraçar a cruz e, se necessário, enfrentar a morte e dar a vida para servir os outros.

Os cristãos são chamados a viver e agir como seguidores do Messias que se fez servo de toda a humanidade. O serviço de Jesus foi o de construir o Reino de Deus e entregar sua vida para salvar a todos. Servir a Deus e à humanidade hoje significa não aceitar passivamente as situações que desumanizam os filhos e filhas de Deus e agir com criatividade, com conhecimento e com esforços para construir um mundo mais justo, solidário e humano. Quando estiver construído este mundo, então o Reino estará presente porque haverá justiça e paz e a vida será respeitada e preservada.

Como membros da Igreja, os cristãos são chamados ao serviço especialmente daqueles que passam fome, que são marginalizados, que estão abandonados pela sociedade e pelos governantes. Nenhum cristão deveria pensar que, por ser “ministro” desta mesma Igreja, tem poder e goza de privilégios e por isso dever ser servido pelos seus inferiores. São Francisco de Assis entendeu bem que Jesus, sendo Senhor se fez servo, por isso quis viver como “menor” na Igreja e no mundo. Com isso, São Francisco viveu a perfeição do Evangelho como irmão e servidor de todos.

Frei Valmir Ramos, OFM

28º Domingo do Tempo Comum: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!”

LEITURAS: Sb 7,7-11 / Sl 89 / Hb 4,12-13 / Mc 10,17-30

Vai, vende o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu”. Jesus deixou aquele homem e os seus discípulos desconsertados. No Antigo Testamento e na tradição dos judeus a riqueza era interpretada como sinal de bênção de Deus. Jesus, no entanto, alerta que a riqueza almejada por muitos não passa de uma falsa segurança e pode chegar a uma idolatria.

No Evangelho vemos alguém perguntando o que fazer para ganhar a vida eterna. Aquele que pergunta é alguém que observa as leis e mandamentos, mas ainda está preso às coisas materiais, por isso foi embora cheio de tristeza. É fácil notar que o problema não está nas coisas materiais, mas no apego a elas e na ganância do quanto mais posses tem mais quer ter. O ser humano se ilude e ao mesmo tempo gosta do poder e do prestígio que as posses oferecem. Mas Jesus é categórico em dizer que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Mesmo se considerarmos esta “agulha” como sendo uma brecha da muralha que era usada como alternativa de fuga no caso de uma invasão na cidade fortificada, um camelo não passa, pois só passavam pessoas se arrastando.

O seguimento de Jesus é exigente. O ensinamento deste Evangelho mostra como é necessário colocar a confiança em Deus e não nas coisas, partilhar e não juntar sempre mais posses, ser solidários com os pobres, buscar a sabedoria de espírito que enobrece a pessoa. A primeira leitura mostra exatamente a grandeza e o valor da sabedoria que é superior ao fato de ser rei, de ter posses em ouro e prata comparados com a areia e a lama. Nos Evangelhos Jesus revela-se como sendo a sabedoria. Daí o convite que Ele faz: “vinde a mim” … “quem vem a mim não terá mais fome” … “não terá mais sede”… (cf Mt 11,28ss; Jo 4,14; 6,35). Os Apóstolos compreenderam depois que Jesus era mesmo a “sabedoria de Deus” (cf 1Cor 1,24.30; Col 1,25ss).

No Evangelho os discípulos querem saber qual recompensa terão por eles terem deixado tudo para seguir Jesus. A resposta é clara: “cem vezes mais agora… e no mundo futuro, a vida eterna”. Os discípulos estavam assustados e ficaram ainda mais perturbados, pois receberiam também “perseguições”. Mais uma vez fica claro que o seguimento de Jesus é exigente, especialmente por ter que enfrentar poderes e sistemas que escravizam e criam injustiças.

Hoje os cristãos precisam fazer um pouco de silêncio e refletir se de fato estão livres da cobiça dos bens materiais que provoca tantas injustiças, do poder, dos privilégios, e se são capazes de partilhar com os sofredores e lutar para erradicar um dos grandes males do mundo de hoje que é a idolatria do dinheiro e do poder.

Frei Valmir Ramos, OFM

27º Domingo do Tempo Comum: “Portanto, o que Deus uniu o homem não separe!”

LEITURAS: Gn 2,18-24 / Sl 127 / Hb 2,9-11 / Mc 10,2-16

Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher”. Com estas palavras Jesus revela a compreensão mais profunda da dignidade da mulher. O contexto do Evangelho deste Domingo é a Judeia com a presença de muitas pessoas e dos fariseus. Estes querem desmoralizar Jesus e dizer que Ele não observa os mandamentos de Deus revelados a Moisés. Por isso querem colocá-lo à prova perguntando sobre o divórcio. Jesus vai à Sagrada Escritura, supondo que os fariseus conheciam bem, mas eram muito machistas e discriminavam as mulheres. Eles retrucam que Moisés permitiu dar carta de divórcio. Aí a resposta de Jesus é categórica: “foi por causa da dureza do vosso coração… no entanto, desde o começo da criação Deus os fez homem e mulher”. Jesus se refere ao livro do Gênese na primeira narrativa da criação (Gn 1,27) onde homem e mulher são imagem e semelhança de Deus.

Na primeira leitura vemos a segunda narrativa da criação do homem e da mulher em que Deus faz a mulher como “semelhante” ao homem. As palavras em hebraico parecem exprimir melhor o sentido: ‘ish (homem) e ‘ishah (mulher). Não quer dizer que um é superior ao outro, mas dá a ideia de complementariedade. Por isso o homem não está autorizado a agir como superior, considerar a mulher como uma posse ou objeto. Este era o pecado dos fariseus machistas que perguntavam a Jesus sobre a carta de divórcio. Eles não aceitavam que Jesus tratasse as mulheres e os homens da mesma maneira, fazendo-se irmão de todos, amando e indicando o caminho da salvação.

Na carta aos hebreus vemos uma declaração sublime do amor de Jesus pela humanidade a ponto de assumir a condição humana e abraçar a morte. O autor da carta fala que Ele está “coroado de glória e honra” e que “pela graça de Deus em favor de todos, Ele provou a morte”. Jesus mostra aos fariseus e aos discípulos de ontem e de hoje que as mulheres e crianças, ambas discriminadas e não contadas na sociedade e no templo, têm a mesma dignidade dos homens adultos. E mais, mostra que as crianças indicam que os caminhos de Deus passam pelos pequeninos, marginalizados e descartados e quem quiser entrar no Reino deve fazer-se pequeno e humilde.

Hoje todos os cristãos precisam avaliar o modo de ver e considerar os irmãos e irmãs, especialmente nos ambientes machistas em que homens e também mulheres pensam que elas podem sofrer abuso, violência, discriminação, serem tratadas como coisa a ser possuída, ficarem longe das decisões e por fim precisarem jornadas duplas de trabalho porque são mulheres.

É tempo da Igreja católica também repensar o papel das mulheres na evangelização, nos vários ministérios e nas esferas das decisões. De modo especial as mulheres consagradas precisam ser reconhecidas e assumir cargos de decisão, além de possibilidades de estudos superiores e formação teológica.

Frei Valmir Ramos, OFM


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26º Domingo do Tempo Comum: “Quem não é contra nós é a nosso favor!”

LEITURAS: Nm 11,25-29 / Sl 18 / Tg 5,1-6 / Mc 9,38-43.45.47-48

Quem não é contra nós é a nosso favor”. Esta foi a resposta de Jesus quando os discípulos estavam enciumados e queriam que Jesus proibisse a ação de alguém de fora do grupo deles. Não mudou nada da época da primeira leitura quando vemos Josué querendo proibir os profetas de agirem em nome de Deus. Moisés respondeu chamando a atenção para não ter ciúmes da ação de Deus, o que significa não tomar posse da ação e da vontade de Deus.

Os discípulos de Jesus queriam ser os patrões, os donos do Evangelho e do Reino. Queriam controlar a vontade de Deus e a vontade de Jesus. Assim como Jesus, Moisés abriu os horizontes para a compreensão de que não se pode aprisionar a vontade de Deus e de que todos os que fazem a sua vontade são autorizados a agir em seu nome.

Os discípulos de Jesus queriam ser os únicos depositários de sua missão que era instaurar o Reino de Deus, que é Reino de Justiça, de Paz e de Vida plena. Por sua vez, Jesus mostra que o critério para distinguir seus seguidores é não ser contra o Evangelho e contra o próprio Jesus. No fundo, é a vivência do amor verdadeiro que distingue quem faz a vontade de Deus, quem é seguidor de Cristo, e não apenas o nome do grupo ou da Igreja.

Jesus ainda aproveita para orientar os seus seguidores a não escandalizarem nenhum “desses pequeninos que creem”. Escandalizar significa fazer distanciar do Evangelho, distanciar de Deus. Jesus faz referência a todos os responsáveis por anunciar o Evangelho e construir o Reino diante daqueles que seguem o Evangelho. Aí usa imagens fortes que dá impressão de haver necessidade de mutilação. Na verdade ele ensina que se deve deixar as ações que não condizem com a vontade de Deus: a mão que rouba ou que não partilha, o pé de conduz para caminhos injustos e não para perto dos sofredores, o olho que cobiça e não enxerga a imagem de Deus nos irmãos… Tudo chama à conversão para viver o verdadeiro amor que identifica os seguidores de Jesus.

São Tiago na segunda leitura faz duras críticas aos apegados à riqueza que não conseguem colocar a confiança em Deus e realizar a partilha com os trabalhadores, com os justos e os que passam fome. O poder das riquezas seduzia e ainda seduz os cristãos afastando-os do verdadeiro amor a Deus e ao próximo.

Hoje os cristãos correm os mesmos riscos: o de pensarem que são donos do anúncio do Evangelho e de serem os únicos autorizados a falar em nome de Jesus e aquele de armazenarem coisas pensando que lhes darão segurança e salvação.

Frei Valmir Ramos, OFM


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25º Domingo do Tempo Comum: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”

LEITURAS: Sb 2,12.17-20 / Sl 53 / Tg 3,16-4,3 / Mc 9,30-37

Jesus iniciou a sua missão com os discípulos anunciando a Boa Nova com ensinamentos e sinais do Reino através dos milagres. Os discípulos estão admirados, entusiasmados e, ao mesmo tempo meio confusos, pois ainda não compreenderam bem que tipo de Messias eles estão seguindo. Jesus viaja a pé pelos vilarejos e vai formando os discípulos. No trecho do Evangelho de hoje, Ele anuncia que deverá entregar a vida porque será perseguido pelos poderosos deste mundo. Mas não ficará morto, pois ressuscitará. Este anúncio é feito aos discípulos que deverão continuar a missão interrompida pela morte na cruz.

Os discípulos não compreendem Jesus e ainda discutem entre eles sobre questões bem distantes dos ensinamentos do Mestre. Na prática eles estão preocupados com o prestígio de cada um, tentando cada qual pegar a maior fatia do poder, uma vez que são seguidores de um Mestre que faz bem todas as coisas e impressiona as multidões. Discutir quem é o maior entre eles é permanecer na lógica do mundo onde as pessoas só pensam em dominar os outros e tirar proveito das situações. Jesus é categórico em dizer “quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos”. A sabedoria de Deus não está em ser o primeiro, o maior, mas em ser justo e servir os pequenos.

Na primeira leitura vemos como o justo incomoda aqueles que são ímpios e transgressores da lei de Deus, por isso é perseguido e expulso do meio deles. Com Jesus não será diferente.

Na segunda leitura São Tiago proclama que “a sabedoria vem do alto” e os cristãos são chamados a abraçá-la sem inveja ou rivalidade, mas com atitude de quem tem o coração puro, pacífico, misericordioso, justo e sempre empenhado em produzir bons frutos de justiça.

Como os discípulos e também os cristãos demoram para entender a lógica de Deus, no Evangelho Jesus abraça uma criança e anuncia: “quem acolher uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo”. A criança aí indica todos os pequenos e pobres que são vulneráveis nas mais diversas situações. Jesus então está dizendo aos discípulos e aos cristãos que são estas pessoas que precisam ser servidas e protegidas.

Na Igreja e nas comunidades cristãs também existem aquelas pessoas que querem poder e privilégios, mas Jesus continua insistindo que seus seguidores sejam servos, sejam justos, coloquem-se do lado dos pequenos e nunca se vangloriem dos cargos ou ministérios, pois o Mestre e Senhor se fez servo de todos e entregou a própria vida.

Frei Valmir Ramos, OFM


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