Mensagem do Custódio e do Ministro Geral em ocasião da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Franca/SP, 10 de junho de 2021

À Fraternidade Custodial: confrades, noviços, postulantes e aspirantes.

Às Clarissas, Religiosas, Irmãos e Irmãs da OFS e JUFRA e fiéis devotos de nossas comunidades, que o Senhor vos dê a paz.

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele.” (Lc 10, 33-34)

Esse foi o lema que escolhemos juntos para balizar o nosso Capítulo Custodial, que será realizado em novembro próximo. É tirado da conhecida passagem da parábola do Bom Samaritano do Evangelho, segundo Lucas. Diante dessa atitude louvável e misericordiosa, podemos e devemos perguntar: quem é verdadeiramente este samaritano?

Sem aprofundar o mérito exegético-teológico desta passagem, mas recorrendo aos padres da Patrística (Orígenes), cito-o afirmando que este Samaritano é o próprio Cristo que veio para nos acudir, curar as nossas feridas do pecado e devolver-nos a vida. Só ele foi capaz verdadeiramente de aproximar, isto é, de se fazer próximo do homem, mesmo que este estivesse na sua situação mais degradante possível. Só ele foi capaz de amar, de estar bem perto de nós, dentro de nós, em nosso coração e em nossa boca.

Ver, sentir compaixão e cuidar não são prerrogativas para qualquer vontade da fragilidade humana, se, não antes, experimentado o amor de Deus, que nos amou por primeiro (1 Jo 4,19). São verbos provocativos que nos induzem a um movimento circular de inspiração e expiração no sentido espiritual, onde, este sentido ‘o ver’ leva a uma interiorização da cena, purificada no coração, despertando um sentimento: ‘a compaixão’. Neste movimento espiritual, ‘o ter compaixão’ provoca uma atitude; um sair de si mesmo capaz de transformar a cena: ‘o cuidar’. Esta é a realidade humana que experimentou por primeiro o amor de Deus como João nos recorda na sua Primeira Carta, já citada. Estas atitudes são consequências do fato de que Deus amou-nos e se aproximou por primeiro de nós e é justamente com esta autoridade da proximidade do filho com a condição humana, que ele mesmo nos diz: “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37)

Pois bem, irmãos, estamos vivendo em tempos de profundas crises nas várias dimensões. No entanto, não podemos recuar e nos escondermos, como os Apóstolos no Cenáculo no primeiro momento. Faz-se necessário abraçar o futuro com esperança e ânimo de dias, de tempos melhores, confiantes de que o Senhor que tudo conhece, faz-se próximo e caminha conosco na árdua estrada da Jericó para a Jerusalém. O seu Coração comove-se no íntimo e arde de compaixão por nós (Os 4,8), pois nele todos nós tornamo-nos filhos e filhas no Filho pela estrada aberta por aquele soldado que transpassou com a lança o seu lado na Cruz, fazendo jorrar o sangue e água , elementos vitais da nossa regeneração, o Batismo e a Eucaristia.

Ao celebramos a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, significa redescobrir a razão profunda do que aconteceu na cruz. Ali realizou-se um ato de obediência total e perfeita que fundamentou toda a vontade de Deus: a redenção e a salvação de todos os homens. O Coração de Jesus ressuscitou, livre do peso da carne mortal. Está vivo ‘no Espírito’ como todo o Cristo. É um coração que existe, palpita em toda parte, tornando-se novamente próximo de todo o mundo, íntimo de todos nós, até mais que a nós mesmos. Por esta fé em Cristo, nós temos a liberdade de nos aproximarmos de Deus com toda a confiança (Ef 3, 12) e segundo a riqueza da sua glória, somos robustecidos, por seu Espírito, quanto ao homem interior e por esta mesma fé, Cristo habite os nossos corações para estarmos enraizados e fundados no amor. Há uma porta aberta no Coração de Jesus, estreita, mas aberta a todos, aos santos e aos pecadores, que nos conduz à intimidade com Jesus. É uma fonte inesgotável de amor e misericórdia que o Pai mesmo nos preparou no Filho, onde somos todos irmãos.

Não tenhamos medo de vislumbrar o futuro e abraçá-lo com esperança com o amor apaixonado a exemplo de São Francisco de Assis, pois só assim teremos a capacidade de compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo. Repito: não tenhamos medo. Assim também no encoraja o grande São Boaventura: “Corre àquela fonte de vida e de luz com o desejo vivo, quem quer que sejas e com a íntima força do coração grita-lhe: Ó eterno e inacessível, esplêndido e doce fluir de fonte escondida aos olhos de todos os mortais! A tua profundidade é sem fim, a tua altura sem limites, a tua amplidão é infinita, a tua pureza é imperturbável! De ti nasce o rio que alegra a cidade de Deus, porque ‘em meio aos cantos de uma multidão em festa’ podemos cantar-te hinos de louvor, demonstrando, como testemunho da experiência, que em ti está a fonte de vida e à tua luz veremos a luz.”  (Opusculum 3)

Que o Sagrado Coração de Jesus tenha piedade de todos nós e do mundo inteiro e que não nos cansemos de pedir que Jesus faça com que o nosso coração se assemelhe ao Dele para que, pouco a pouco, se torne semelhante ao Seu. Na Rezemos, reciprocamente, especialmente, para que os nossos corações se revistam a cada dia do Coração de Jesus e sejam canais amor de Deus aos irmãos e irmãs do nosso tempo.

Feliz Solenidade do Sagrado Coração de Jesus!

Em Francisco e Clara de Assis,

Frei Fernando Aparecido dos Santos, OFM

Custódio


Mensagem do Ministro Geral em ocasião da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, “Patrono” de nossa Custódia


Acompanhe também a reflexão especial da Solenidade do Sagrado Coração de Jesus da série: “Luz do meu caminho”

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo” – Carta do Ministro Geral a toda a Ordem por ocasião da Solenidade de Pentecostes

Giotto di Bondone (–1337) Pentecost – Domínio Público

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (Atos 2,1-12)

Queridos irmãos,

Que o Senhor vos dê a Paz!

A tradição diz que o Capítulo Geral da Ordem coincide com a festa de Pentecostes, seguindo o desejo expresso por Francisco em documentos como a Regra Não-Bulada (cf. Rnb XVIII, 2) e que ele reitera na Regra Bulada quando diz: “Quando ele falecer (o Ministro geral), faça-se a eleição do sucessor pelos ministros provinciais e custódios no capítulo de Pentecostes, em que os ministros provinciais tenham sempre que se reunir juntos, onde quer que for estabelecido pelo Ministro Geral” (Rb VIII, 2). Este ano, por motivos que todos conhecemos bem, fomos obrigados a mudar este importante acontecimento para o mês de julho, esperando que as condições e os regulamentos governamentais o permitissem.

De modo algum gostaria de perder a oportunidade de dirigir-me a vós, queridos irmãos, nesta solenidade de Pentecostes, para partilhar convosco tudo o que esta celebração litúrgica inspira no meu coração e, ao mesmo tempo, para devolver ao Senhor e a cada um de vós a bondade e a bênção nestes últimos anos no serviço de Ministro Geral dos Frades Menores (cfr. Rnb XVII, 17-18). Esta restituição gostaria de expressar através de uma ação de graças profunda e sentida a toda a Ordem, às Clarissas e às Concepcionistas e a toda a Família Franciscana em geral, por ter me ajudado a ver a força e eficácia do dom da fraternidade enquanto nos comprometemos a ouvir a voz de Deus e a cumprir o que nos pede com fidelidade, perseverança e amor.

É inspiradora, sem dúvida alguma, a relação profunda que o pobre de Assis cultivou com a pessoa do Espírito Santo. Este fato pode ser evidenciado na forma como a terceira pessoa da Santíssima Trindade aparece tanto nos Escritos do santo como nas fontes hagiográficas (Cf. RnB XVII, 14; RB X, 8-10; CtaF2 48; LM X , 3, etc.). Francisco sentia o seu derramamento e presença tão próximos que atribui ao Espírito Santo a orientação e a direção da Ordem, chamando-o de Ministro da Ordem, como nos diz Tomás de Celano: “Em Deus não há acepção das pessoas, e o Ministro Geral da Ordem – que é o Espírito Santo – repousa igualmente sobre os pobres e sobre os ricos ». Ele até queria incluir essas palavras na Regra; mas não foi possível, por já estar bulada (2Cel CXLV).

Chama-me particularmente a atenção esta observação do biógrafo porque, em certo sentido, se presta a criar um vínculo direto com a cena que é descrita no livro dos Atos dos Apóstolos, uma leitura que é proposta na Solenidade de Pentecostes, “Apareceram então umas línguas como de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (Atos 2,3-4). O adjetivo determinativo “todos”, que aparece 6 vezes, oferece uma chave de leitura e nos permite ver uma intenção totalizante: toda a casa (v.2); todos ficaram repletos do Espírito Santo (v.4); de todas as nações (v.5); Não são todos galileus? (v.7); Todos nós os ouvimos proclamar (v.11), todos disseram maravilhados (v. 12). Além disso, o adjetivo indefinido “cada um”, repetido três vezes, confirma essa forte ideia de inclusão e desejo de ampla participação em uma experiência do Espírito. Francisco, por sua vez, considera a efusão do Espírito uma bênção para todos, porque … “em Deus não há acepção das pessoas” (2 Cel CXLV).

Detenho-me por um momento sobre esta ideia porque nestes anos de serviço como Ministro Geral pude constatar que ainda devemos continuar trabalhando incansavelmente para combater o que o Papa Francisco chamou em sua encíclica Laudato Si’, a cultura do descarte, em relação direta com outro tema que ele mesmo chamou de “a globalização da indiferença” (cf. Mensagem do Santo Padre Francisco para a celebração do XLIX Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2016) que se expressa através de fenômenos como o ódio racial, a xenofobia, a aparição de personagens populistas que proclamam tempos messiânicos para a construção de uma sociedade como ela “deveria ser”. Uma mentalidade desta natureza preocupa-me sinceramente porque aos poucos vai tomando conta, como o joio que cresce entre o trigo (cf. Mt 13,24-52), fragmentando dramaticamente não só o ambiente político dos nossos países, mas também ameaçando a integridade de nossas sociedades, das famílias e até batendo nas portas de algumas de nossas fraternidades locais.

O texto dos Atos dos Apóstolos que narra essa ação especial do Espírito ilumina essa realidade de tal forma que não se pode negar, porque o cenário em que se produz tal acontecimento é extraordinariamente diferente, cheio de diversidade, de diferenças, de nuances e formas que não admitem uniformidade. É uma cena caracterizada pelo pluralismo, variedade e movimento (ruído semelhante a uma forte rajada de vento v. 2). Nada está parado, tudo está em movimento, algo está acontecendo, alguém está chegando. Todos repletos do Espírito Santo começaram a expressar…. o que o Espírito lhes havia dado (cf. v. 4).

O episódio de Pentecostes, além de evocar o cenário típico das teofanias veterotestamentárias, está ligado a outros momentos em que uma personagem importante é assistida de maneira especial pelo Espírito (por exemplo, João Batista, Lc 1,15; Isabel, Lc 1,41 ; Zacarias Lc 1,67; Pedro, Atos 4,8; Paulo Atos 9,17; 13,9; 13,9). No entanto, a plenitude do Espírito que os Apóstolos estão experimentando agora em 2,4 se caracteriza por um aspecto único, se trata do início dos tempos da Igreja, de um novo caminho que Jesus já havia anunciado, com o qual estaria entre os seus seguidores todos os dias até o fim do mundo (cf. Mt 28, 16-20). A ação realizada pelo Espírito Santo, ou seja, as línguas de fogo que se “separaram” e “pousaram” sobre cada um, nos faz pensar imediatamente no dom “carismático” que os Apóstolos receberam para realizar sua pregação e missão. O fogo, símbolo por excelência da presença divina, indica a vontade de Deus de envolver, quase invadir, toda a comunidade presente, conseguindo expulsar todas as sombras do medo e dando uma força interior capaz de transformar os corações dos presentes e criar uma autêntica comunhão.

O Papa Francisco diz: “Quando estamos bem e nos sentimos bem, nos esquecemos dos outros (algo que Deus Pai nunca faz), não nos interessamos pelos seus problemas, pelos seus sofrimentos, pelas injustiças que sofrem … Então o nosso coração cai na indiferença”. (Ibid. Mensagem para o 49º Dia Mundial da Paz). Após os eventos horríveis do assassinato de George Floyd em Minnesota, EUA, em 20 de maio de 2020, uma série de reações emergiu em muitas partes do mundo. Isso gerou protestos públicos que se espalharam de Minneapolis (EUA) a Manaus (Brasil), de Nova York a Joanesburgo, de Paris a Jacarta. Infelizmente, a situação de racismo sistemático, a manipulação da classe social e da casta, e outras categorias de exclusão estão presentes na nossa Ordem e na Igreja.

Pude ler alguns testemunhos que alguns frades me enviaram sobre as experiências de racismo ou exclusão na sociedade e na Ordem. Eles falam de momentos de intensa humilhação, um sentimento de traição e uma profunda ruptura no tecido da comunhão fraterna. As histórias dos irmãos também revelam o fato de que muitos de nós estão dispostos a fechar os olhos às situações de agressões direta ou indiretamente à dignidade humana. A festa de Pentecostes que celebramos hoje nos faz exigências radicais. Ele nos chama a “despertar” para as realidades que nos rodeiam e dentro de nós, para as estruturas e acontecimentos que expressam atitudes diretamente contrárias à nossa vocação humana, cristã e franciscana. O Espírito nos convida a uma conversão radical da mente, do coração e da ação (cf. Ef 4, 23-32) e a abraçar a visão de Deus para toda a humanidade e toda a criação. Pentecostes nos lembra que todos são bem-vindos, todos são respeitados, todos são convidados a oferecer suas contribuições únicas e distintas, todos compartilham a mesma dignidade e o mesmo destino. O dom do Espírito é “uma bênção para todos porque … em Deus não há acepção de pessoas!”

Queridos irmãos e irmãs, creio que a celebração do Pentecostes deve nos encorajar a viver uma experiência que abala os alicerces das nossas seguranças e expulsa de dentro de nós o medo de ser homens e mulheres “em saída”. Pentecostes deve ajudar-nos a abrir os olhos (cf. Lc 24, 13-35), a reconhecer a riqueza da diferença, da variedade de formas, cores, modos, mentalidades, abordagens, opiniões, perspectivas. Se ainda temos medo do confronto, de sair da nossa zona de conforto, de abrir espaços para partilhar um modo de ver, de apreciar, de julgar, é tempo de deixar trabalhar o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar (cf. Rb X , 8).

Continuemos a rezar pelo próximo Capítulo Geral, para que o Espírito do Senhor, Ministro Geral da Ordem, nos conceda um momento de graça, efusão e inspiração para o bem da Ordem, da Igreja e do mundo em que vivemos.

Feliz festa de Pentecostes!

Frei Michael A. Perry, OFM

Ministro Geral e servo

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Em entrevista sobre o Capítulo Geral, Frei Valmir Ramos, OFM ressalta: “A vivência autêntica do nosso carisma exige vida e atuação em fraternidade!”

Frei Valmir Ramos, OFM – Definidor Geral para a América Latina | Imagem (Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil)

A equipe de comunicação de nossa Custódia entrou em contato com Frei Valmir Ramos, OFM, que atualmente reside na Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores em Roma/Itália, como Definidor Geral para América Latina; para entrevistá-lo acerca do Capítulo Geral de nossa Ordem, que acontecerá em julho próximo.

Veja abaixo uma breve biografia de Frei Valmir, OFM e a íntegra da entrevista sobre o Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores.


UMA BREVE BIOGRAFIA…

Frei Valmir Ramos, OFM, nascido no dia 31 de maio de 1965 é natural de Franca/SP. Entrou para a Ordem dos Frades Menores e foi vestido com o habito franciscano no dia 16 de janeiro de 1989. Professou os primeiros votos no dia 02 de fevereiro de 1990 em Catalão/GO. Professou Solene no dia 30 de abril de 1993 e Ordenou Diácono em 11 de agosto de 1993. Foi Ordenado Sacerdote no dia 28 de janeiro de 1994 em sua cidade natal. Serviu a nossa Fraternidade Custodial como Custódio de 2001 a 2010. Foi eleito no último Capítulo Geral, em 2015, como Definidor Geral para a América Latina e reside na Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores em Roma/Itália.


ENTREVISTA COM FREI VALMIR SOBRE O CAPÍTULO GERAL DA OFM

Equipe de Comunicação – Frei Valmir, fale um pouco para nós sobre o que é o “Capítulo Geral”, que a nossa Ordem celebrará em julho próximo.

Frei Valmir, OFM – O Capítulo Geral é uma assembleia geral celebrada pelas Ordens e Institutos Religiosos, que tem a autoridade máxima para decidir e eleger irmãos para o serviço geral e prioridades para todos.

A nossa Ordem, Ordem dos Frades Menores, celebra o seu Capítulo Geral a cada 6 anos. O início desta celebração se deu em 1217, em Assis, com o chamado “Capítulo das Esteiras”, quando São Francisco de Assis quis reunir todos os freis que formavam a sua nova Fraternidade que ele chamou de Ordem dos Frades Menores. Foi uma celebração decisiva que organizou a Ordem, já com milhares de irmãos, em grupos de Províncias e deu o impulso missionários para regiões longínquas além da Itália.

Entre os dias 03 e 18 de julho de 2021, vamos celebrar mais um Capítulo Geral para avaliar nossa vida e nossa missão e escolher os irmãos que deverão animar-nos na vivência do Evangelho e do nosso carisma nos dias de hoje e no futuro.

Equipe de Comunicação – No Capítulo Geral a nossa Ordem elegerá o novo Ministro Geral, 121º sucessor de São Francisco. Fale um pouco para nós sobre este serviço e qual a sua importância!

Frei Valmir, OFM – A nossa Igreja chama o Ministro Geral de “moderador supremo”. Isto significa que a Igreja considera o Ministro Geral como aquele que tem a autoridade de decisão sobre os assuntos que compete à Ordem como um todo. De fato, o Ministro Geral tem a tarefa de encaminhar soluções para todas as situações que dizem respeito à Ordem no mundo todo. Equivocadamente, muitas vezes esta tarefa é chamada de “governo”, usando uma palavra que não faz parte do espírito evangélico nem religioso, pois de fato, o Ministro Geral é aquele que deveria cuidar dos seus irmãos “como a mãe cuida dos seus filhos”, animá-los na vivência autêntica do Evangelho e do carisma e corrigi-los com caridade, se necessário. Outro equívoco influenciado pelo Direito Canônico é chamar o Ministro Geral de “superior”. Jesus mesmo pediu aos discípulos que se considerassem “irmãos” e fossem “servidores”. De fato, ministro significa aquele que serve, então o Ministro Geral é o irmão escolhido pela Ordem para servir toda a Fraternidade animando-a e acompanhando sua atividade missionária evangelizadora. Isto sem deixar de tomar as decisões necessárias e de executar os processos internos e externos diante da Igreja e da sociedade.

O Ministro Geral também é tido como “sucessor de São Francisco”, mas o nosso atual Ministro Geral, Frei Michael Anthony Perry, com razão, insiste que todos os franciscanos são sucessores de São Francisco e, por isso mesmo, eles têm a obrigação de viver autenticamente o carisma estejam onde estiverem. De qualquer maneira, a figura do Ministro Geral é sempre um ponto de referência para todos os irmãos da Ordem e também para a Família Franciscana.

Equipe de Comunicação – Junto com Ministro Geral, serão eleitos outros membros? Para quais serviços?

Frei Valmir, OFM – No mesmo Capítulo Geral em que ocorre a eleição do Ministro Geral são eleitos o Vigário Geral, que é o “vice-ministro” Geral, e 8 Definidores Gerais para o mesmo tempo de serviço. Os Definidores Gerais são provenientes de todos os continentes e eleitos para servir toda a Ordem na animação e tomada de decisões que competem ao Definitório Geral. Este Definitório formado pelo Ministro Geral, Vigário Geral e Definidores, age de forma colegiada e atua também como Conselho do Ministro Geral. Os Definidores Gerais têm a missão de animar mais de perto as Entidades da Ordem em uma determinada região, por exemplo, América Latina. Eles são também o elo imediato entre os vários Ministros das Entidades e a Casa Geral incluindo as suas diversas secretarias e serviços. Quando o Ministro Geral visita uma Província ou Custódia, o Definidor Geral responsável pala animação daquela região o acompanha. Além do serviço específico do Definidor Geral, ele pode também ser nomeado para algum outro serviço de animação ou de procedimentos necessários com a Santa Sé.   

Equipe de Comunicação – Para este momento que a Ordem vivenciará, o Capítulo Geral: Quem são os participantes? Como são escolhidos?

Frei Valmir, OFM – Os frades capitulares são aqueles que já fazem parte do Definidor Geral, o Secretário Geral, os Secretários das Missões e Evangelização e da Formação e Estudos, os Ministros Provinciais, os Custódios das Custódias autônomas e daquelas dependentes do Ministro Geral, um frade leigo de cada Conferência de Ministros, cinco frades convidados pelo Ministro Geral e outros frades que podem ser convidados como é o caso do Animador do Serviço de JPIC (Justiça, Paz e Integridade da Criação) e do Assistente Geral para OFS e JUFRA (Ordem Franciscana Secular e Juventude Franciscana). Além dos frades capitulares que já são obrigados a participar, cada Conferência escolhe o frade leigo que deverá participar e o Ministro Geral convoca aqueles que ele quer convidar. Ao todo, os frades capitulares para este Capítulo Geral são cerca de 125.

Equipe de Comunicação – Durante a preparação, houve algum impacto que foi fruto do momento pandêmico em que vivemos?

Frei Valmir, OFM – Este Capítulo Geral começou a ser preparado em 2018, especialmente com a celebração do CPO (Conselho Plenário da Ordem) acontecido em Nairóbi, Quênia. Lá os frades participantes opinaram sobre o local a ser celebrado e os temas principais que deveriam ser tratados. Com estas indicações o Definidor Geral decidiu que o Capítulo Geral seria celebrado em Manila, Filipinas, no mês de maio de 2021. Com a pandemia declarada no início do ano passado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), foi necessário mudar o local e o tempo de duração do Capítulo. De Manila passou para Roma e de 4 semanas ficou reduzido a 2 semanas de celebração em julho de 2021. Tudo está preparado, incluindo documentação do Estado italiano para os frades capitulares poderem ingressar na Itália neste período de pandemia. Já uma semana antes e durante a celebração do Capítulo, teremos um frade médico para receber e acompanhar todos os frades capitulares e um rigoroso protocolo de segurança sanitária.

Equipe de Comunicação – Sabemos que os frades estão espalhados por todo o mundo, presentes nas mais variadas culturas e vivem diversas situações diante do cenário atual de nossa sociedade. Tendo isso em mente, quais são as expectativas (da Ordem) para o futuro?

Frei Valmir, OFM – O maior desafio para os frades em todo o mundo é “ler os sinais dos tempos”. Este é um imperativo da pós-modernidade. Não é possível vivermos bem o nosso carisma e a nossa missão sem ter plena consciência do significado dos acontecimentos de hoje. Reconhecemos que é mais fácil viver e fazer o que sempre se fez, porém é desafiador ser interpelado pelas várias situações pelas quais as pessoas e toda a criação passam em todo o mundo e “atualizar” nosso carisma e nossa missão. Com as informações provindas das várias partes do mundo, com as estatísticas da Ordem, com a partilha realizada pelos frades presentes no CPO de 2018 em Nairóbi, ficou claro que nossa Ordem está mudando rapidamente, seja em número, seja em proveniência dos irmãos. Isto deixa claro que as decisões deverão vislumbrar o futuro, ousar (sonho de Frei Giacomo Bini, ofm) dar passos que garantam a vivência plena de nossa identidade e do nosso carisma nos mais variados cenários que encontramos em todos os continentes e ousar atuar como Fraternidade na construção do Reino de Deus caminhando com os mais pobres e excluídos das sociedades. Como Igreja é preciso abraçar integralmente as indicações do Papa Francisco: uma Igreja em saída, comprometida com as pessoas, corajosa diante dos ataques e solidária com os sofredores.

Equipe de Comunicação – Frei Valmir, qual a mensagem que você deixa, como Definidor Geral, acerca do Capítulo Geral, para todos os que nos acompanham? 

Em primeiro lugar, uma mensagem de gratidão às pessoas que fazem parte de nossa vida e missão, pois sem elas não teria sentido nossa consagração ao serviço do Reino de Deus. Do mesmo modo como ninguém se salva sozinho, nenhum de nós consegue realizar a missão sozinho. A vivência autêntica do nosso carisma exige vida e atuação em fraternidade. Isto significa viver em dependência uns dos outros, construir juntos o projeto fraterno de vida, planejar e projetar juntos a ação missionária evangelizadora e celebrar em Fraternidade todos os dons recebidos de Deus. O carisma franciscano vem de Deus e não nos pertence, pois Deus o dá a seus filhos e filhas. Por isso mesmo, os franciscanos não podem viver sem a proximidade e a partilha da vida e da missão com as pessoas leigas.

Por fim, esperamos que todos se unam a nós em oração, suplicando as luzes do Espírito Santo para que nosso Capítulo Geral seja um impulso e um ponto de partida para viver melhor o Evangelho e responder mais adequadamente os apelos que Deus nos faz em nossos dias.


Agradecemos ao nosso confrade, Frei Valmir Ramos, OFM pela partilha e suplicamos as bençãos de Deus sobre toda a nossa Ordem, para que o Espírito Santo, Ministro Geral, conduza segundo a vontade de Deus, as decisões e escolhas do Capítulo Geral. Que o seráfico pai São Francisco, interceda por todos nós, seus filhos!

Fraternalmente,

Equipe de Comunicação

“A mensagem do túmulo vazio”, carta do Ministro Geral para a Páscoa

Meus caros irmãos,

Aproveito desta solene ocasião para desejar a cada um de vós uma abençoada santa Páscoa!

Como ouvimos no trecho do Evangelho de João (Cf. Jo 20,1-9), lido no dia da Páscoa, três amigos e seguidores de Jesus tiveram três experiências muito diferentes do evento do túmulo vazio: Maria Madalena, Pedro e o famoso “outro discípulo”, citado por João. No caso de Maria, vemos que ela chega ao túmulo ‘quando ainda é escuro’, um dos temas teológicos centrais, presentes no Evangelho de João: a luta entre a luz (Justiça) e as trevas (tudo o que não é de Deus). Ela é uma mulher sofredora por ter perdido seu Mestre e amigo. Provavelmente é esse o motivo de ela voltar ao túmulo, a fim de chorar a morte de Jesus e procurar respostas para perguntas que atormentam sua mente e seu coração. Contudo, o que vê provoca uma reação mais profunda, reação de medo, o medo de que malintencionados tenham roubado o corpo de Jesus. Talvez seja esse o motivo que a impele de voltar correndo à companhia dos discípulos e informar-lhes o que seus olhos viram.

O “outro discípulo”, “aquele que Jesus amava”, é a segunda pessoa a chegar ao túmulo antes de Pedro. Talvez porque ele era mais jovem, aguarda fora do túmulo, esperando respeitosamente a chegada do companheiro mais idoso. Somente após a chegada de Pedro e seu ingresso no túmulo, esse “outro discípulo” ousa entrar no espaço sagrado. Quando esse “outro discípulo” finalmente adentra o túmulo, algo acontece em sua vida. Acontece o reconhecimento de que Deus está fazendo algo grande em e através de Jesus – “viu e creu” – mas ainda não era claro o que significavam esses acontecimentos e que diferença teriam feito em sua vida.

Muitos estudiosos da Bíblia concordam em afirmar que esse “outro discípulo” é cada um de nós, seguidores do Senhor Jesus ressuscitado. Como esse discípulo”, talvez também nós nos encontramos em momentos diferentes de nossa vida, a correr em busca de respostas às perguntas da vida, que se tornaram ainda mais evidentes nestes tempos da pandemia Covid-19. Talvez nós, como o “outro discípulo”, chegamos a perceber no vazio, no medo e no isolamento provocados pela pandemia algo diferente em nossas vidas, em nosso mundo, algo que pede uma conversão mais profunda, uma verdade maior, uma justiça e uma paz mais profundas para poder verdadeiramente “ver e crer”. No que consiste esse “ver e crer”? Talvez seja a convicção de que Deus está aqui, que a esperança está próxima, que o amor de Deus em Jesus é um amor que se estende a todas as pessoas e a toda criatura, é mais forte do que a ameaça da pandemia, a ameaça da doença e da morte!

A terceira testemunha desses acontecimentos, Pedro, é aquele que negou conhecer Jesus, durante o processo, a condenação e a crucificação. Talvez seu silêncio seja resultado de seu sentimento de culpa, vergonha e total inconveniência. Muitas vezes, esses sentimentos provocam silêncio. Ele era somente um dos muitos discípulos e amigos que haviam abandonado Jesus, na hora mais obscura. Não há confissão de fé por parte de Pedro, como no caso do “outro discípulo”. Ou melhor, ele recolhe informações e, depois, retorna à “sala fechada com chave”, onde ele e outros discípulos e amigos de Jesus se haviam refugiado. É provável que, juntos, tenham discutido sobre o que haviam visto e percebido. Todavia, o vazio do túmulo e sua mensagem ainda não haviam penetrado nos grossos escudos protetores que Pedro, os discípulos e seguidores de Jesus, e que nós, muitas vezes, construímos para nos proteger daquilo que percebemos como perigo, ameaça, aquilo que nos provoca medo, confusão, raiva e até desprezo.

Meus caros irmãos, teria sido mais encorajador que eu falasse da segunda parte do capítulo 20 do Evangelho de João, que, segundo muitos estudiosos da Escritura, foi acrescentado num momento posterior como que para resgatar os impenetráveis eventos do sofrimento e da morte de Jesus, demonstrando aos discípulos a presença viva do corpo ressuscitado de Jesus. Contudo, creio que esse primeiro “encontro” com o túmulo vazio nos fornece importante instrumento para refletir sobre nossa experiência vivida com a pandemia Covid-19. Claramente, a escuridão cobriu a terra, exatamente como nos tempos primordiais, antes que Deus fizesse emergir a ordem do caos (Gn 1,2). Junto com toda a humanidade, temos vivido as ameaças do caos e do vazio provocado pela pandemia Covid-19. Estávamos isolados, privados de contatos físicos. Tivemos que nos revestir com “escudos” para proteger-nos do desconhecido, mas sempre presente, perigo, em tocaia num organismo invisível, capaz de nos causar grandes danos físicos, mentais, espirituais, sociais, econômicos e em todos os outros modos. Enquanto nos preparamos para sermos vacinados a fim de nos proteger, reconhecemos também que ainda há demasiadas coisas escondidas sobre o vírus para que possamos relaxar. A noite escura ainda não acabou.

A mensagem da Páscoa é mensagem que traz esperança e inspira coragem a todos os que professam a fé no amado Filho de Deus, Jesus. O túmulo vazio não nos dá respostas. Ou, ao contrário, cria um espaço no qual podemos colocar perguntas difíceis. Fornece lugar no qual podemos achar-nos face a face com tudo o que nos causa medo, tudo aquilo que nos empurra a escolher o isolar-nos de Deus, dos outros e por fim de nós mesmos, em vez de escolher a estrada em direção de uma autêntica fraternidade com Deus e com os outros. Enfim, a promessa da ressurreição dá-nos esperança. Todavia, essa esperança não é apenas o resultado de algo que vem de fora de nós, do crer no poder da graça e do amor de Deus. É, enfim, o resultado de uma decisão que tomamos do interior de nossas mentes e de nossos corações para acolher e abraçar Aquele que abraçou a morte a fim de poder conduzir todos nós rumo a uma experiência autêntica daquilo que significa estar vivos. A ressurreição de Jesus apresenta-nos uma escolha radical – viver diariamente na força do amor de Deus, que é mais forte do que os efeitos cruéis e escravizadores da injustiça, do racismo, do ódio, da violência e de uma terra espiritualmente desolada. O de viver na indiferença, no medo e na falta de esperança, oferecidas por tudo o que se opõe à justiça, à santidade, à bondade e à verdade.

Que o amor e a paz, que Jesus oferece a todos os que repõem Nele sua confiança, nos encha de alegria e nos reforce em nossa determinação de abraçar o caminho da cruz, o caminho do Evangelho, a abraçar também o túmulo vazio. Que, como Maria Madalena, “o outro discípulo” e Pedro, possamos experimentar o que significa verdadeiramente estar vivos em Cristo Jesus.

As Bênçãos da alegria pascal a vós, meus caros Irmãos, e também a vós, minhas caras Irmãs Clarissas e Concepcionistas de clausura. Também continuemos a rezar para que a graça amorosa de Deus se derrame sobre nosso Capítulo geral.

Votos de Boa e Santa Páscoa!
28 de março de 2021
Domingo dos Ramos

Frei Michael Anthony Perry, OFM
Ministro Geral e Servo

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Um ano após a declaração da Covid-19 como uma pandemia global no dia 11 de março de 2021

Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores – Frei Michael Antony Perry, OFM

Meus queridos irmãos,

Que o Senhor lhes dê paz.

A data de 11 de março de 2021 marcará um ano desde que a Organização Mundial da Saúde declarou a Sars2-Covid-19 como uma pandemia global. Naquela data, havia 118.000 infectados verificados, 4.291 mortes verificadas de Covid-19 e 114 países relataram a presença do vírus. Até 26 de fevereiro de 2021, houve cerca de 112 milhões de infectados confirmados e quase 2.500.000 mortes de Covid-19, com 192 países diretamente afetados pela pandemia. O que também está claro é o impacto desproporcional que a Covid-19 tem sobre nossos irmãos e irmãs pobres e sobre as nações mais pobres do mundo.

Não creio que seja exagerado dizer que todos nós na Ordem conhecemos alguém que foi infectado, e talvez alguém que morreu. É difícil verificar com exatidão quantos de nossos queridos frades morreram em consequência das complicações da Covid-19, mas os números são significativos. As fraternidades foram colocadas em quarentena, alguns irmãos foram isolados no hospital ou nas enfermarias da Província ou da Custódia ou em outros centros de acolhimento; os familiares se infectaram e, lamentavelmente, alguns morreram. Um número significativo de “sobreviventes” da Covid-19 está calculando os efeitos a longo prazo, como exaustão, dificuldades respiratórias, anomalias cardíacas e outras dificuldades para as quais agora estão sob cuidados médicos. Não se pode nem imaginar o impacto psicossocial da pandemia devido ao medo do contágio, do isolamento social e do desencadeamento de outras condições de saúde mental de longa duração. Não só afetam os desconhecidos, mas também a nós.

A pandemia da Covid-19 está reescrevendo a história do mundo e, mais importante, a história de cada uma de nossas vidas, da vida da Ordem e da Igreja. Não conhecemos o peso total dos “danos” colaterais que podem advir da pandemia, mas já percebemos o aumento dos desafios que afetam todos os aspectos de nossas vidas, nossas instituições e nossa presença evangelizadora no mundo atual. Rogo para que cada um de vocês tenha tido tempo para refletir sobre o impacto da pandemia em sua vida, na dos outros irmãos da fraternidade, em seu trabalho pastoral e missionário, e na vida daqueles a quem fomos chamados para servir.

Ao se aproximar o dia 11 de março de 2021, o primeiro ano desde a declaração oficial da pandemia de Sars2-Covid-19, convido a todos vocês, meus queridos irmãos, a unirmos à Fraternidade universal da Ordem para um tempo de oração, jejum e esmola. Esses três “caminhos” encontram o seu precedente nas Sagradas Escrituras e oferecem a oportunidade, a quem os abraça, de entrar num espírito de conversão da mente, do coração e da ação (cf. Joel 1,14 ss). Em anexo a esta carta estão duas orações que foram compostas em resposta à pandemia. São orações em que se pede a Deus que ouça o clamor do povo de Deus e venha em nosso auxílio. No espírito de jejum proposto pelos Profetas (cf. Is 58,6-7) e por Jesus (cf. Mt 6,16-18), o foco está centrado claramente em uma mudança radical de coração e mente, e se vincula também a atos que contribuem para a libertação do povo de Deus, unindo nossos esforços em um grande ato de solidariedade, algo tão necessário em nosso mundo, antes e como consequência da pandemia da Covid. Este é o foco da mensagem do Papa Francisco na “Fratelli Tutti” ao falar da necessidade de que o mundo inteiro se converta radicalmente (Fratelli Tutti 32, 55).

Por fim, peço-lhes que reservem algum tempo para conversar uns com os outros e expressar como a pandemia da Covid afetou sua vida pessoal, seu envolvimento com a fraternidade, seus compromissos missionários e outros desafios que enfrentam. Seria muito conveniente que as fraternidades locais celebrem juntos a Eucaristia neste dia de oração. O momento de diálogo poderia ter lugar em um capítulo especial da fraternidade ou durante o tempo da homilia da Eucaristia.

Espero de coração que nos unamos como uma única fraternidade universal nesta ocasião, o primeiro ano desde que a Covid foi declarada uma pandemia. Invocamos Maria, Mãe da Ordem Seráfica, e a todos os santos da Ordem para que intercedam diante de Deus em nosso nome e por toda a humanidade. Que o dom da nossa fraternidade seja uma fonte de apoio e encorajamento constantes, enquanto enfrentamos juntos um futuro incerto. Que possamos refletir o amor e a misericórdia de Deus, que está sempre presente conosco, especialmente nos momentos mais difíceis, convidando-nos a nos levantar e a erguer a cabeça, para ver que não estamos sozinhos (cf. Lc. 21,28).

Oremos por todos os que continuam sofrendo as consequências físicas diretas da Covid-19. Oremos também por todos aqueles que são afetados social, espiritual e economicamente. E recordemos de todos os nossos irmãos e irmãs que já passaram desta vida e agora desfrutam da plenitude da vida na eternidade.

Roma, 1º de março de 2021

Fraternalmente em Cristo e São Francisco,

Frei Michael A. Perry, OFM

Ministro Geral e Servo


ORAÇÃO PARA 11 DE MARÇO DE 2021

 Oração – I

Deus eterno e onipotente, nosso refúgio em todos os perigos, olhai benigno para as nossas aflições e angústias. Como filhos, com fé vos pedimos: concedei o eterno descanso aos que morreram, conforto aos que choram, cura aos doentes, paz aos moribundos, força aos que trabalham na saúde, sabedoria aos nossos governantes e coragem para chegarmos amorosamente a todos, glorificando juntos o vosso Santo Nome. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!

Senhor, fortalecei os laços de nossa fraternidade espiritual, para que possamos dar testemunho da vossa presença e do vosso amor curador, pelo modo com que cuidamos uns dos outros, e pela forma com que estendemos as mãos aos nossos irmãos e irmãs mais necessitados, especialmente os mais afetados pela pandemia. Invocamos a intercessão de Maria, mãe de nossa Ordem Seráfica, de São Francisco, de Santa Clara e de todos os Santos franciscanos. Que eles intercedam por nós junto do Pai das Misericórdias. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que convosco vive e reina para sempre, na unidade do Espírito Santo. Amém!


Oração – II

Senhor Jesus, que prometestes permanecer sempre conosco, neste momento em que as notícias tristes nos dominam e o medo toma conta de nós, voltai a repetir vossa reconfortante palavra: A paz esteja convosco! Ainda que não possamos estar fisicamente perto de outras pessoas, dai-nos a força e a coragem de amar tanto quanto pudermos, porque “o amor perfeito afasta todo o medo”. Olhai com bondade os médicos e as enfermeiras, os pesquisadores e os responsáveis pela segurança. Fortalecei os enfermos e os mais vulneráveis. Consolai os aflitos. E quando a pandemia passar, quando esta terrível crise for superada, ensinai-nos a vos conhecer com mais certeza, como nosso amigo querido e nossa única esperança. Vós que viveis e reinais com o Pai na unidade do Espírito Santo. Amém!


(ofereça um Pai Nosso, uma Ave Maria e Glória …)

Maria Imaculada, Padroeira da Ordem Franciscana, rogai por nós!

 

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Fonte (Imagem):  Província São Maximiliano Kolbe (Conventuais)

Carta dos Ministros Gerais Franciscanos: “Viver e Seguir!”

Imagem: Giotto, Papa Inocêncio III confirma a Regra franciscana, Basílica Superior de Assis

A todos os frades da Primeira Ordem, pela alegre ocasião dos oitocentos anos da Regra não bulada, nós, Ministros Gerais, enviamos esta carta.

Para fazer grata memória.

Para renovar com paixão o nosso seguimento do Senhor Jesus na forma de vida de Frei Francisco para a Igreja e o mundo como frades menores.

Para louvor de Deus, “que é todo bem, o bem inteiro, verdadeiro e sumo bem” (RNB XXIII,9).

Para começar

Um outro aniversário… Que não seja a visita obrigatória a um museu!

Em 1221 chegava ao término uma das tantas “histórias” que, na tradição cristã, tiveram como êxito final um texto chamado “regra”. Qual é o “gênero literário” em questão? Para nós, a palavra “regra” suscita, com muita probabilidade, um impulso interior de autodefesa, porque o apelo, mais ou menos consciente, é a algo de fixo e esquemático, talvez até estéril. Olhando bem, não é assim. Lendo a Regra não bulada, de fato, tem-se a sensação de horizontes que se abrem, de perspectivas que escancaram a alma e fazem entrar ar fresco no coração: à distância de 800 anos!

Sim, 800 anos se passaram, e é inevitável a celebração de um “aniversário”. E também aqui, de imediato, um outro lema – desta vez, de rebelião – surge de espreita em nós: “Um outro aniversário! Para que servirá?”. Façamos uma tentativa: não respondamos de imediato a esta pergunta – “para que serve um aniversário?” – mas vamos deixá-la como pano de fundo. Melhor, tentemos evitar o risco de celebrar a recorrência com uma inclinação semelhante à de quem visita um museu sem ficar tocado, com uma vaga curiosidade turística, sem um mínimo desejo de ser interceptado ao vivo; talvez só porque “se deve”, porque “aquele museu é famoso”. Sejamos, ao invés, os “turistas sérios”, que entram em um museu sabendo que as obras-primas contempladas não nos deixarão, em seguida, tal como entramos. Estamos, portanto, diante da obra de arte que é a Regra não bulada; uma obra, sem data e sem autor!

Em contínua escuta…

Passagens de vida segundo o Evangelho na Regra não bulada

Escrita diretamente, sem data e sem autor

Bem assim! Estamos falando de uma obra que não tem uma datação pontual e precisa; ou melhor: seria preciso recordar tantas datas, datas diversas para trechos diversos do texto. O ano de 1221 é o momento em que o processo termina, a “data última”, por assim dizer. E o autor é São Francisco? Certamente, é ele quem faz bater o coração da Regra, quem injeta em seu tecido compositivo a linfa vital do Espírito. Mas precisaria dizer melhor que se trata de uma “regra de grupo”, de uma obra pensada e redigida em diálogo com os frades e com os fatos. Em antecipação aos tempos, Francisco de Assis foi daqueles que souberam dar voz a um dos mais eficazes princípios do Papa Francisco: “A realidade é superior à ideia” (Evangelii Gaudium, nn. 231-233). Não temos, de fato, um texto normativo redigido sobre uma escrivaninha, mas algo que nasceu em diálogo com a vida; é, antes de tudo, um “pedaço de vida”, mais do que um “pedaço de papel”. A palavra escrita busca, assim, dar resposta a perguntas nascidas da escuta continuativa da realidade concreta. Aliás, reconhecemos na Regra não bulada a genialidade de quem soube interceptar “ao vivo” interrogações reais e oferecer respostas eficazes. Sim, o gênio tantas vezes está nisso: em ter a capacidade de colher perguntas centrais, não abstratas, mas aquelas mais inflamadas e sentidas “na própria pele”, em primeira pessoa; para dar respostas a tais perguntas capazes de convencer, e “convincentes” não só porque “justas” para aquele momento, mas também porque souberam convencer tantos outros, ao longo dos séculos, a responder à mesma maneira. Após oitocentos anos, ainda estamos aqui, em busca de responder em sintonia com aquelas intuições, pois estamos “convictos” de que valha a pena!

O que toca, desta obra de arte que é a Regra não bulada, é sobretudo a índole apaixonada. Ao lê-la, entende-se de imediato que não dá regras para fazer coisas, mas busca delinear coordenadas para viver relações. Não é um texto para escribas, mas para discípulos (cf. Mt 13,52). E a relação focal que desencadeia e libera ao máximo as suas energias vitais é aquela com o Senhor Jesus, saboreada verdadeiramente como tesouro para a própria vida. Saboreada de verdade! Corpo e alma! Nós o sabemos: o início da Regra não bulada declara sem meios-termos que regra e vida dos frades menores é “seguir a doutrina e os vestígios de nosso Senhor Jesus Cristo (RNB I,1)”, viver o Evangelho. E, capítulo após capítulo, segue-se toda uma série de indicações – às vezes sintéticas, outras vezes, expressas como que com o coração na mão – para que este Evangelho seja vivido; e, para vivê-lo, São Francisco nos convida de tantos modos a dar tudo, a nos liberarmos do que nos amarra. Claro, mas somente se tivermos sido atingidos pela surpresa e pela consolação do Senhor Jesus presente em nossa vida, tem sentido viver “sem próprio” (RNB I,1); do contrário, é triste pauperismo. “Nada mais, portanto, desejemos, nada mais queiramos, nada mais nos agrade e deleite a não ser o Criador e Redentor e Salvador nosso, único verdadeiro Deus, que é o pleno bem, todo bem, o bem inteiro, verdadeiro e sumo bem, que só ele é bom” (RNB XXIII,9); seria triste, talvez São Francisco nos diria com seus primeiros frades, se quiséssemos “vender tudo” sem termos sido antes conquistados pela alegria de um semelhante tesouro, que superou qualquer nossa expectativa, o tesouro que é Jesus, o tesouro daquele olhar imensamente simpático que o Filho de Deus sempre dirige a cada um de nós, suscitando comunhão.

 Espiritualidade e não espiritualismo

Mas o espírito do Senhor […] se esforça pela humildade e paciência e pura e simples e verdadeira paz de espírito.

 (RNB XVII,14-15)

Entre as “cores” e “tonalidades” mais fascinantes deste texto está, sem dúvida, a sua simplicidade. Atenção: não a banalidade de uma simplificação muito fácil, mas a inteligência cortante de quem descobriu um fio condutor capaz de dar liga, de manter unido. E, portanto, tudo o que mantém unido o corpo da Regra não bulada parece ser justamente a centralidade unitária da vida no Espírito. O que isso significa? Também aqui, quer dizer, em primeiro lugar, diálogo com a vida! Francisco de Assis não sabe de antemão o que é Espírito Santo e como age, mas é a terra áspera da vivência diária que lhe faz reconhecer o timbre daquela que é a voz do Espírito. A voz do Espírito tem um timbre próprio inconfundível e delicadíssimo, que São Francisco soube ouvir com uma atenção de máxima fé! E fez de modo que a Regra pudesse guardar e entregar percursos bons para todos, para viver justamente assim, tendo o Espírito do Senhor. Podemos assim dispor de algumas indicações fecundas também para nós, após oito séculos; indicações não espiritualísticas, isto é, não estabelecidas de antemão em relação à vida, ideologicamente; mas espirituais, pois “capturadas” das vibrações do sopro do Espírito no ar respirado habitando em meio aos seres humanos. Quais são estas indicações espirituais? Ao menos, as mais preciosas? Talvez poderiam ser sintetizadas em torno a alguns pontos nevrálgicos:

♦ Concretude diária: a Regra não bulada põe as mãos na massa da existência, com os seus fermentos por vezes contraditórios e, por vezes, promissores; em todo caso, não se perde na definição de normas ascéticas, e a sua maior preocupação é a de cuidar da vida, em todas as suas formas. Prioriza o caminho da vida! Não a preservação obstinada de estruturas. E também aqui se poderia citar: inicia processos, não se apropria de espaços! (cf. EG 223)

♦ Sem ânsias por aplausos: de muitos modos – e, às vezes, sobre isso, parece quase que São Francisco fale colocando-se de joelhos – somos exortados a prestar atenção, para que sejamos significativos; mas não presa de uma significatividade que seja exibicionismo. Bem sabia o nosso santo o quanto sutil e sorrateiro seja o limite: iludir-se de que “se esteja vivendo o Evangelho” porque se tem muito séquito e muitos aplausos, muitas curtidas ou seguidores em nossas redes sociais. Necessária é a humilde vigilância, pois “o espírito da carne quer e se esforça muito por ter palavras, mas pouco pelas obras, e busca não a religião e a santidade no espírito interior, mas quer e deseja ter religião e santidade que apareçam fora para os homens” (RNB XVII,11-12). Às vezes, talvez, o risco é o de chamar de “profecia” aquilo que é apenas vitrine cintilante. Mas São Francisco o sabia: a profecia não é palco, e pede muita humildade, muita trepidação… não por outra razão que os profetas, geralmente, têm um fim trágico.

♦ Uma grande perda de tempo: é superabundante a profusão de palavras empregadas pela Regra não bulada para fazer com que os frades não sejam mesquinhos em dedicar tempo para a oração: “Por isso, irmãos todos, guardemo-nos muito, para que sob a aparência de alguma mercê, ou obra ou ajuda, não percamos ou tiremos do Senhor nossa mente e coração. Mas na santa caridade, que é Deus, rogo todos os frades, tanto ministros como os outros, afastado todo impedimento e posposto todo cuidado e solicitude, no melhor modo que puderem, façam servir, amar, honrar e adorar o Senhor Deus de coração limpo e mente pura, que ele busca acima de tudo, e sempre façamos aí habitação e morada para aquele que é o Senhor Deus onipotente” (RNB XXII,25-27). Convite este realmente espiritual: convite à gratuidade, à generosidade de passar tempos aparentemente estéreis, mas que, na realidade, nutrem a vida espiritual. Sem a obstinação desta fidelidade à oração, para São Francisco, tudo corre o risco de se tornar uma farsa, ou, na melhor das hipóteses, esforço voluntarista sem alegria.

 Em oposição ao “Antifrancisco”. Apenas como irmãos!

Portanto guardai vossas almas e as dos vossos frades.

Todos os frades não tenham nisso poder ou domínio entre si

(RNB V,1.9)

Assim como há um “Anticristo” (cf. 1Jo 2,18), assim também um “Antifrancisco”. É a dedicação à qualidade da vida fraterna o critério discriminante? Não só a vida fraterna, mas, certamente, o cuidado ou, ao contrário, o desinteresse em vivê-la põe uma diferença. A Regra não bulada não poupa exortações para que o seguimento de Jesus seja vivido como irmãos. E, quase como uma espécie de “dogma”, de condensado palpável entre as linhas do texto, poder-se-ia arriscar assim: nada é tão “antifranciscano” (mas, seria preciso dizer, anticristão) quanto um estilo de vida que se fundamente fora de uma paixão pelos vínculos fraternos, a alma-vida dos quais deve ser salvaguardada!

Francisco parece justamente intencionado em fazer nascer em nós um são horror por toda forma de indiferença para com o outro; e traça inúmeros convites, também estes colhidos das estradas da vida, para que se possa manter acesa no coração a persuasão de que o outro é sempre para nós uma “dívida”, uma voz que nos chama, alguém a quem não podemos não dedicar atenção. De inúmeras formas! Algumas delas, após séculos, mantêm-se luminosamente todo o seu encanto:

♦ Amabilidade sem fingimento: um inimigo a ser combatido são as “caras feias”, dos fechamentos obstinados, das poses falsamente humildes (mas tediosas e oprimentes)! “E cuidem de não se mostrar tristes por fora e sombrios hipócritas; mas se mostrem alegres no Senhor e bem-humorados e convenientemente amáveis” (RNB VII,16). Mas, assim, é preciso sorrir sempre? Não é este o ponto! Não se trata de nos tornarmos peritos no fingimento de belos sorrisos exibidos para todos os lados; mas será fundamental não se deixar levar pelos pesos do próprio sentir, sempre móvel e inquieto. Nosso coração será escutado também quando estiver triste, claro, mas sem que se deva jogar no rosto do outro o nosso mau humor.

♦ Anestesia em relação ao “muito sensível”: tantas vezes há “leprosos” para encontrar, proximidades ásperas e difíceis para visitar. Também aqui: a Regra não bulada põe em alerta e nos convida a “anestesiar”, a calar aquelas vozes em nós que nos levariam a fugir para longe, a tomar distância. O convite dirigido aos frades, ao contrário, é a “alegrar-se quando convivem com pessoas vis e desprezadas, com pobres e fracos e doentes e leprosos e os que mendigam à beira da estrada” (RNB IX,2). A tarefa, certamente, torna-se mais difícil quando o irmão do qual não se deve fugir é o pobre: é a voz que destoa das minhas vestes, é a mão que me obriga a criar vias inéditas de comunhão, são as feridas que não se gostaria de olhar e que convidam a assumir uma nova sensibilidade (nada para anestesiar, desta vez!): a do coração compassivo de Jesus.

♦ Um atrevimento para se recuperar: aprender do sofrer. Que a vida fraterna não seja um passeio leve e romântico é uma consciência bem presente na Regra. O que toca, a propósito de vida fraterna, é que as dificuldades experimentadas, às vezes agudas, são para Francisco também elas acolhidas como oportunidade; ele diria até mesmo “uma graça”! O desafio (e, desta vez, é realmente assim!) é se deixar tocar pelas pessoas que mais se teme ou que mais incomodam, sem ter sempre que fugir; pode ser que se consiga aprender algo novo, ao menos, uma pitada daquela liberdade que se saboreia quando, talvez gaguejando, conseguimos “morrer para renascer”.

 Menos de quem conta menos. Para falar de “minoridade”

E nenhum se chame prior, mas em geral todos se chamem frades menores

(RNB VI,3)

Frades menores. Eis o nome de batismo que São Francisco quer dar àqueles que escolhem se confiar e viver segundo esta Regra. Minoridade! Palavra de inúmeros significados e facetas inimagináveis. É possível encontrar uma fórmula sintética que abranja todos? Muitas e eficazes são as tentativas feitas para este esforço de síntese. E, sem pretensão de exaustividade, provavelmente se poderia supor que “minoridade” seja a escolha de querer contar “menos de quem conta menos”. Isto, sim, é profecia! Isto, sim, é um núcleo quase impossível de viver, mas que mantém intacta a sua capacidade de nos pôr em alerta diante de todo risco de grandiosidade ou de posse. Trata-se de uma virtude?

♦ Mais justamente, talvez se deveria dizer que minoridade não é tanto uma atitude ascética solitária, ou seja, um conjunto de opções comportamentais – com o risco de que sejam mortificantes e redutivas; escolhas próprias, quase que em busca de uma “perfeição pessoal interior”. É mais um modo de estar na vida; e, neste sentido, é um modo de estar em relação: com as pessoas, com a criação, com Deus. Menor é quem jamais se cansa de reconhecer, plenamente, que tudo o que é provém de Deus e, portanto, não pode deixar de viver em “estado de gratidão”.

♦ Sinodalidade, discernimento comunitário: talvez estejam entre as expressões mais recorrentes na Igreja hoje. Nós sabemos: quando muito se fala de algo, é porque provavelmente se sente sua falta, sua urgência. Ou então porque temos medo de ser realmente sinodais ou tememos o fato de que, fazendo discernimento juntos, sempre devemos perder algo de nós mesmos. Os termos em questão são modernos; São Francisco não os conheceu ou usou, contudo, os frequentíssimos apelos às várias formas de obediência encontram espaço na Regra não bulada em um contexto de escuta e serviço recíprocos: “antes, pela caridade do espírito, sirvam e obedeçam uns aos outros” (RNB V,14). Minoridade é também isto: não somos nós que produzimos como própria a “verdade”, mas ela nos é sempre doada “de fora”, da escuta recíproca “pela caridade do espírito”.

♦ A síntese vital e efetiva da minoridade talvez deveria ser reconhecida na lógica da expropriação, que na Regra não bulada aparece declinada segundo perspectivas múltiplas e complementares, todas a qualificar a postura de uma pessoa que, para si, não detém nada: restituir, doar, servir, louvar, agradecer, bendizer (cf. RNB XXIII).

Em santa extroversão. Ir pelo mundo

Quando virem que agrada ao Senhor, anunciem a palavra de Deus

(RNB XVI,7)

 Sermos doados ao Senhor, melhor, sermos abandonados inteiramente a Ele – “E todos os frades, onde quer que estão, lembrem que se deram e cederam seus corpos ao Senhor Jesus Cristo” (RNB XVI,10) – representa um movimento constitutivo na vida dos menores, chamados a se alegrar com sua pertença ao Senhor não singularmente ou buscando comunhões de espírito apenas intracomunitárias (sempre precárias); mas atendendo ao convite do Senhor a sermos missionários, a percorrermos as estradas do mundo para anunciar a palavra de Deus. Na Regra não bulada não se encontram tantas palavras que digam em que consista a pregação; não há instruções analíticas sobre as “coisas” para dizer. Contudo, podemos estar certos de que, nas intenções de São Francisco, haja o desejo de favorecer uma pregação feita com as obras; antes de tudo, mediante a renúncia a toda forma de reivindicação em relação àqueles que encontrarmos. O anúncio explícito da palavra de Deus permanece importante, mas na consciência da responsabilidade de não trair, mediante o estilo das próprias relações, o Evangelho proclamado verbalmente.

Ao contrário, ainda mais radicalmente, talvez não estejamos longe da verdade se evidenciarmos na Regra não bulada um fato, por si só, libertador e surpreendente: muitas vezes anunciamos o Evangelho sem dizer ou fazer, mas acolhendo sem amargura a própria condição de pobres, todos chamados primeiramente a receber. Anunciamos a mensagem da salvação mostrando, na própria carne, a condição radical de limitação, sempre necessitada de misericórdia: “E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprouveste, junto com o Espírito Santo Paráclito te dê graças” (RNB XXIII,5).

Para concluir

 Um selo jamais posto

 Não bulada: a expressão serve para precisar que nos encontramos diante de um texto que jamais recebeu o selo de uma aprovação oficial, mediante bula papal; por várias razões. Talvez valha a pena aproveitar de tal falta de bula para lembrá-la não apenas pelo dado formal e jurídico, mas também para valorizar seu alcance existencial. Queremos, assim, dar graças ao Senhor pelo dom de um testemunho – mais do que de um texto – que permanece “sem limites”, ainda aberto e “generativo”. No papel, a Regra não bulada não pode ser seguida, mas pode sê-lo na existência de quem acolhe, por “inspiração divina” (RNB II,1), o convite a viver a própria fé em sintonia com a genialidade de São Francisco.

Em meio a tantas labutas do nosso tempo, participantes das ânsias de tantos homens e mulheres nas mais diversas partes do mundo, contudo, todavia, desejamos manter acesa a chama otimística da esperança cristã, acolhendo de coração o grato ímpeto de São Francisco que, entre as misérias do mundo, jamais renuncia a bendizer o Senhor, “que só ele é bom, manso, suave e doce, que só ele é santo, justo, verdadeiro, santo e reto, que só ele é benigno, inocente, puro; de quem e por quem e em quem é todo perdão, toda graça, toda glória” (RNB XXIII,9).

Convidamos todos os membros da Família Franciscana a se unirem a nós para comemorar o convite de São Francesco, expresso claramente na Regra não bulada, a viverem uma vida guiada pelo Espírito de Deus, enraizada na experiência humana e aberta ao amor e proximidade surpreendentes que Deus oferece àqueles que estão dispostos a permitir-Lhe que esteja no centro de toda a vida.

Onipotente, santíssimo, altíssimo e sumo Deus,

Pai santo e justo,

Senhor rei do céu e da terra,

por ti mesmo te damos graças! (RNB XXIII,1)

Roma, 4 de outubro de 2020, Solenidade de São Francisco de Assis

Fr. Michael A. Perry
Minister generalis OFM

 Fr. Roberto Genuin
Minister generalis OFMCap 

Fr. Carlos A. Trovarelli
Minister generalis OFMConv

Rogo a todos os meus frades que aprendam o teor e o sentido das coisas que estão escritas nesta vida para salvação de nossa alma e que frequentemente as tragam à memória (RNB XXIV,1)

Prot. 009/2020


Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (OFM)