13º Domingo do Tempo Comum: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus!”

LEITURAS: 1Rs 19,16b.19-21 / Sl 62 / Gl 5,1.13-18 / Lc 9,51-62

O evangelista Lucas compôs o Evangelho e os Atos dos Apóstolos apresentando Jesus e a Igreja em caminho. No texto de hoje, São Lucas inicia a narração da viagem de Jesus até Jerusalém, onde acontecerá sua paixão, morte, ressurreição e ascensão para junto do Pai. Passando pela Samaria, região entre Galileia e Judeia, Jesus foi rejeitado. A razão era porque Ele ia a Jerusalém, cidade que condenava os samaritanos como não merecedores da misericórdia de Deus.

Percorrendo o caminho, Jesus ensina os seus seguidores que é preciso fidelidade à vontade de Deus e total dedicação na construção do seu Reino. O primeiro ensinamento é que o cristão precisa ser misericordioso e não vingativo, ter amor e não ódio. Por isso Jesus repreendeu os discípulos que queriam destruir os samaritanos. Um dos discípulos declarou que seguiria Jesus para onde fosse. Aí Jesus começou a apresentar as exigências do discipulado e a necessidade de renúncia: “o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Outro pediu para esperar enterrar o seu pai. Jesus ensina a urgência do Reino de Deus que precisa ser anunciado e construído agora e não depois. Outro quer apenas “despedir-se” de seus familiares, mas Jesus ensina que é preciso amá-los e renunciar certos costumes. Nada deve impedir a proclamação e a construção do Reino, nem os próprios laços familiares.

Jesus faz como que uma preparação dos discípulos que Ele escolheu para que sejam testemunhas de sua vida, sua missão e seu Evangelho. Devem viver na liberdade do Espírito, como pede São Paulo aos gálatas na segunda leitura. Uma liberdade que leva ao amor verdadeiro uns pelos outros, sem interesses ou vantagens, sem querer satisfazer as cobiças. Discípulos livres “segundo o Espírito” para instaurar o Reino de amor, de justiça, de solidariedade, de partilha e de misericórdia. Isto significa que eles deveriam continuar a missão de Jesus que seria interrompida com a morte de cruz.

Os cristãos de hoje recebem também uma missão, como Eliseu recebeu de Elias na primeira leitura, como os discípulos recebem de Jesus para anunciar o Reino. Jesus é categórico: “mas você, vai e anuncia o Reino de Deus”. É a missão dada que não pode esperar, pois os reinos deste mundo estão sempre ameaçando e destruindo a dignidade humana e a vida.

Frei Valmir Ramos, OFM

12º Domingo do Tempo Comum: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me!”

LEITURAS: Zc 12,10-11.13,1 / Sl 62 / Gl 3,26-29 / Lc 9,18-24

Jesus, estando em oração, pergunta aos discípulos sobre o que dizem as multidões a respeito d’Ele. Depois sobre quem os discípulos pensam que Ele seja. Pedro reponde por todos: “o Cristo de Deus”. Esta resposta vai além da visão das multidões, que viam Jesus como um grande profeta. Jesus, porém, proíbe os discípulos de anunciá-lo como o Cristo, o Messias. Este é o chamado “segredo messiânico” que parece ser usado como estratégia para não confundir o povo.

Jesus é visto como profeta, mas não á apenas profeta. É o Ungido, o Messias, o Cristo, é Deus mesmo que assumiu a condição humana e por isso se diz “Filho do Homem”. Jesus é Aquele anunciado pelos profetas e também por Zacarias, como vemos na primeira leitura. Acontece que Ele revela que vai passar pelo sofrimento, pela morte e pela ressurreição que não eram compreensíveis aos discípulos. Ao mesmo tempo, Ele convida os seus seguidores a abraçar o mesmo projeto, seguir o mesmo caminho, tomar a mesma cruz e depois ressuscitar com Ele: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

Certamente os discípulos só entenderam esta afirmação depois da ressurreição de Jesus e da vinda do Espírito Santo, pois eles mesmos não queriam que Jesus morresse. Por isso vemos na carta de São Paulo aos gálatas a expressão “batizados em Cristo”, que carrega o sentido de que com Cristo vivemos, por Ele morremos e por Ele nos salvamos.

Hoje Jesus nos interpela para que, como discípulos missionários, sejamos capazes de nos doarmos completamente, e este é o significado de “abraçar a cruz” e de servirmos a humanidade como cristãos e como Igreja. Pelo batismo nos tornamos também iguais aos olhos de Deus, por isso a necessidade de viver a solidariedade com os mais pobres e sofredores. São Francisco de Assis, irmão universal, deu testemunho com a sua vida que somos “todos filhos de Deus” por isso o seu olhar é de misericórdia e de ternura, que condena a violência e chama à conversão que reparte o amor, a veste e o pão.

Frei Valmir Ramos, OFM

8º Domingo do Tempo Comum: “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração!”

LEITURAS: Eclo 27,5-8 / Sl 91 / 1Cor 15,54-58 / Lc 6,39-45

O evangelista Lucas apresenta o discurso ou “sermão” de Jesus em uma planície, enquanto o evangelista Mateus fala de uma montanha. No texto do Evangelho deste Domingo, Jesus parece dirigir-se mais especificamente aos seus discípulos, pois a parábola iniciada no versículo 39 indica uma formação necessária àqueles que serão testemunhas da pessoa, das palavras e das obras do Mestre. No fundo é um apelo à coerência. Em Mateus (cf. Mt 15,14) Jesus diz que os fariseus são cegos guiando cegos. Os fariseus, conhecedores das escrituras, não produziam os frutos esperados, pois não vivenciavam a Palavra. Então entendemos porque Jesus pede coerência aos seus discípulos: eles devem ser como o Mestre e produzir frutos bons a partir da prática da boa doutrina aprendida.

Na primeira leitura vemos a insistência em observar os frutos que brotam do coração humano. O autor sugere que se ouça o que a pessoa diz para saber o que ela tem no coração, supondo coerência entre o que existe no coração e o que expõe pela palavra. Os fariseus são incoerentes, pois falam de uma doutrina sã e verdadeira, mas não vivem a justiça e a vontade de Deus, por isso Jesus os chama de hipócritas. Os discípulos têm uma missão importante que é igualar-se ao Mestre. Missão exigente, pois a boa obra por excelência de Jesus é dar a vida, vencer a morte e tudo aquilo que leva à morte. De fato, vemos na segunda leitura o canto de vitória sobre a morte, quando São Paulo retoma o profeta Isaías dizendo “a morte foi tragada pela vitória” de nosso Senhor.

O apelo de Jesus aos seus discípulos ainda ressoa em nossos dias, talvez mais ainda que naquele tempo. Hoje, a necessidade de coerência entre a palavra e as obras, a pregação e a vida, a doutrina e a ação concreta, é urgente e gritante. É a autoridade moral dos discípulos e discípulas de Jesus que fará a diferença na evangelização em todos os países do mundo. Não é possível sobreviver por muito tempo sem transparência e coerência de vida. Vivemos em tempos de muitas palavras, muitas versões dos mesmos fatos, muitas “notícias” falsas e muitas ideias apregoadas como únicas verdades. Os discípulos e discípulas de Jesus têm o Evangelho como fonte límpida onde podem beber da sabedoria do Mestre e retirar do grande tesouro as indicações para produzir bons frutos para os dias de hoje. Isto exigirá ação constante de defesa da vida, da justiça e da paz e, por outro lado, a corajosa denúncia das causas da morte, da injustiça e da violência.

Frei Valmir Ramos, OFM

7º Domingo do Tempo Comum: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso!”

LEITURAS: 1Sm 26,2.7-9.12-13.22-23 / Sl 102 / 1Cor 15,45-49 / Lc 6,27-38

No texto deste Domingo o evangelista Lucas apresenta o ensinamento de Jesus a uma multidão que está aí para vê-lo e ouvi-lo. Certamente o contexto de Igreja no tempo de Lucas transparece como pano de fundo, pois é uma Igreja perseguida, caluniada e que sofre ataques dos judeus e dos romanos.

Jesus ensina que é preciso amar até os inimigos. Nenhuma outra lei previa um amor assim grande e universal capaz de “amar os inimigos e fazer o bem aos que odeiam”. A ideia de um amor “justo” era aquela do “ama os que te amam”. Era retribuir o amor recebido. Jesus, no entanto, é a revelação do amor universal de Deus. Por amor a todos os filhos e filhas de Deus, amigos e inimigos de Deus, Ele assumiu a natureza humana, veio morar no meio da humanidade, abraçou a cruz e, pregado nela, amou os seus algozes pedindo ao Pai que lhes perdoasse. Este é o exemplo mais contundente do amor aos inimigos.

No ensinamento de Jesus está o modo de comportar-se dos seus seguidores: amar os inimigos, bendizer os que amaldiçoam, rezar pelos que caluniam, oferecer a outra face aos que batem, deixar levar aos que roubam, dar a quem pedir, fazer o bem a todos, emprestar sem juros, ser misericordiosos, não julgar nem condenar, ser generoso na medida. Este comportamento não é ingênuo ou de alguém sem a perfeita razão. Ao contrário, está fundamentado em valores espirituais que levam a pessoa a uma dimensão transcendente, muito além das simples reações humanas pontuais e mesquinhas.

Parece construir o “homem ou a mulher celeste” que diz Paulo na Carta aos Coríntios. É o homem ou mulher espiritual que não baseia a vida somente nas coisas materiais e nos contra valores deste mundo. Na primeira leitura vemos a narração de como Davi preservou a vida de seu perseguidor. Trata-se de uma perseguição para manter o poder, pois Saul era rei e se via ameaçado por Davi, que não era santo nem temente a Deus. Ele quis tirar proveito político e agiu de forma astuta para ganhar confiança. O seu escudeiro queria matar o rei e acabar com o “inimigo”. Este é o raciocínio imediato, mesquinho e rasteiro. A opção de Davi o levou ao trono e o fez um dos principais reis do povo de Israel.

São Francisco de Assis foi genial em agir com amor para construir a paz em 1219. Enquanto a Igreja mantinha as cruzadas contra os sarracenos tidos como inimigos, São Francisco foi ao encontro do Sultão em Damieta, no Egito, como irmão para dialogar com os irmãos sarracenos. Sua arma era o amor.

Os cristãos de hoje são chamados ao amor universal, sendo “mansos como as pombas e astutos como as serpentes” em um mundo materialista, individualista e que quer sempre destruir o outro para manter-se no poder ou na ilusão de ser melhor e levar vantagem.

Frei Valmir Ramos, OFM

6º Domingo do Tempo Comum: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!”

LEITURAS: Jr 17,5-8 / Sl 1 / 1Cor 15,12.16-20 / Lc 6,17.20-26

O evangelista Lucas apresenta o ensinamento de Jesus logo depois que Ele passou a noite em oração sobre a montanha. Lucas narra o “sermão” de Jesus em uma planície enquanto o evangelista Mateus fala de uma montanha. O contexto é o mesmo, quando Jesus vê uma multidão e começa a ensinar. Lucas, porém, indica que a multidão é composta de judeus e de estrangeiros vindos de todas as regiões para ouvir Jesus e serem curados de suas enfermidades por Ele.

Jesus, então, dirige o seu ensinamento para todos, incluindo os seus discípulos. No texto deste Domingo, Lucas apresenta as “bem-aventuranças” nos versículos 20 a 23 e as admoestações nos seguintes 24 a 26. Lucas apresenta Jesus olhando para a condição social das pessoas que muitas vezes causa sofrimentos e, ao mesmo tempo, anunciando a realização da salvação, quando a situação será inversa. Então anuncia aos pobres que herdarão o Reino e aos ricos não haverá nada, pois já receberam a consolação. Aos famintos anuncia que serão saciados, enquanto que os que têm fartura passarão fome. Aos que choram a alegria, e aos que riem o luto e as lágrimas. Aos perseguidos por causa de Jesus mesmo a “recompensa no céu”, enquanto aos que recebem elogios, frustração e perdas, pois assim foi com “os falsos profetas”.

Uma mensagem deste ensinamento de Jesus é que cada pessoa precisa colocar a sua confiança em Deus, como anuncia o profeta Jeremias, vislumbrando a vida que vai além da matéria. Quem não se apega às coisas materiais sabe reconhecer a fome, o sofrimento e as angústias do outro. Isto o torna menos egoísta e mais fraterno, mais solidário. E é a fraternidade e a solidariedade que leva a pessoa a participar do Reino de Deus. A confiança depositada em Deus não deixa a pessoa pensar que os bens materiais que podem expressar poder, fartura, alegria, elogios sejam a salvação.

Quando na segunda leitura São Paulo anuncia que a nossa fé seria em vão sem a ressurreição de Jesus, ele está afirmando que o Mestre percorreu o caminho das bem-aventuranças e venceu inclusive a própria morte. Assim será para cada discípulo que de fato vivenciar a Palavra das bem-aventuranças, pois viverá com o Ressuscitado na felicidade eterna.

Frei Valmir Ramos, OFM

5º Domingo do Tempo Comum: “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens!”

LEITURAS: Is 6,1-2a.3-8 / Sl 137 / 1Cor 15,3-8.11 / Lc 5,1-11

Às margens do lago de Genesaré, que é também conhecido como Mar da Galieia, se reúnem muitas pessoas, a começar pelos pescadores que devem trabalhar para o sustento de suas famílias. É aí que Jesus se encontra nesta passagem do Evangelho. Tem uma multidão que foi escutar os seus ensinamentos, por isso Ele entra em uma barca e ensina as pessoas que estão nas margens sem precisar de microfone. A barca pertence a Simão que está frustrado depois de muito trabalho e nenhum peixe.

Jesus ensina concretamente que é preciso ser perseverante na missão. Pede a Simão e aos seus companheiros que lancem as redes. Se durante a noite que era tempo propício para a pesca não tinham pego nada, durante o dia seria pior. Mas, para a surpresa dos pescadores, as redes aparecem abarrotadas de peixes.

Jesus chama a Simão para uma missão mais nobre: “tu serás pescador de homens”. Este chamado acontece depois que Simão reconhece Jesus como Senhor, e se reconhece pecador. É a mesma atitude do profeta Isaías quando está na presença de Deus que lhe pergunta: “quem enviarei?” Isaías se reconhece pecador, mas coloca-se à disposição de Deus e transforma-se em profeta, porta-voz e realizador da vontade de Deus. Ele sabe que a graça de Deus lhe acompanha na realização de sua missão.

Simão Pedro, Tiago e João ouviram o chamado e “deixaram tudo e seguiram Jesus”. Foi a resposta à vocação que os simples pescadores deram diante da missão que iria começar. Jesus não escolheu os mais “importantes” ou mais “famosos”, mas os trabalhadores. Gente simples capaz de deixar tudo para abraçar outro estilo de vida e a missão confiada por Deus.

Hoje todos os cristãos podem entender que a missão é universal e que todos são chamados a fazer a sua parte sempre contando com Jesus, pois os pescadores sem Ele não haviam pescado nada. É o mesmo Jesus que continua chamando os pecadores à conversão e à missão, como o fez com os apóstolos e a Paulo. Assim também os cristãos e a própria Igreja não podem jamais prescindir da presença e da graça de Jesus ressuscitado para cumprir a sua missão.

Frei Valmir Ramos, OFM

4º Domingo do Tempo Comum: “Em verdade eu vos digo que nenhum profeta é bem recebido em sua pátria!”

LEITURAS: Jr 1,4-5.17-19 / Sl 70 / 1Cor 12,31-13,13 / Lc 4,21-30

O profeta Jeremias anuncia que foi Deus mesmo que o escolheu e o consagrou como “profeta das nações”. Isto significa que o profeta é alguém que recebe um chamado de Deus, uma vocação para cumprir uma missão. Por isso mesmo, o profeta nunca estará sozinho, mesmo diante da perseguição, e será porta-voz de Deus que o unge com o seu Espírito e o acompanha.

No Evangelho vemos Jesus na sinagoga onde leu o livro do profeta Isaías e anunciou que a profecia tinha se cumprido. Isto significa que Jesus, tendo recebido o Espírito Santo, superou todos os profetas: Ele é o Messias, o Salvador. Os judeus que estavam na sinagoga não aceitaram que Ele fosse o Messias e começaram a persegui-lo. O evangelista Lucas é o único que apresenta o ensinamento de Jesus na sinagoga de Nazaré, onde tinha crescido e era conhecido como o filho de José.

A fúria dos judeus aparece quando Jesus mostra a ação de Deus aos estrangeiros que tiveram fé. O profeta Elias, enviado à viúva de Sidônia, anuncia a presença de Deus que não a deixa morrer de fome. Já o profeta Eliseu indica a vontade de Deus para que o leproso ficasse curado, e era Naamã, da Síria. Jesus quer dizer que a salvação chega às pessoas que acreditam em Deus e não simplesmente àqueles que a pretendem por participar de um grupo seleto.

Por outro lado, Jesus ensina que seus discípulos todos são chamados a serem profetas e profetizas, isto é, recebem a missão de revelar a verdade de Deus e atuar para que a vontade d’Ele seja realizada no mundo. Na Igreja primitiva, os Apóstolos entenderam que a profecia é um carisma dado por Deus. São Paulo dirá que é um carisma que o cristão recebe para “edificar, exortar e consolar” (1Cor 14,3). Na segunda leitura vemos que o próprio São Paulo diz que a profecia vai passar. Isto significa que os profetas são missionários do Reino de Deus. Quando o Reino for uma realidade completa neste mundo, então a missão estará cumprida. Restará a caridade.

Caridade significa amor fraterno que, no ensinamento de Jesus, é “amor ao próximo”, mesmo que este seja inimigo. O amor fraterno é universal e sempre unido ao amor a Deus e ambos estão no vértice da Lei divina. A caridade é também resposta ao amor Deus e de Jesus que entregou a sua vida por amor a todos. Por isso, “a caridade é paciente, é benigna… não é interesseira… não se alegra com a iniquidade, mas se regozija com a verdade… A caridade não acabará nunca”.

Frei Valmir Ramos, OFM

3º Domingo do Tempo Comum: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir!”

LEITURAS: Ne 8,2-4a.5-6.8-10 / Sl 18B / 1Cor 12,12-14.27 / Lc 1,1-4; 4,14-21

O evangelista Lucas é o único que apresenta esta passagem em que Jesus está na sinagoga em Nazaré e lê um breve texto do profeta Isaías. Jesus frequentava as sinagogas e o templo de Jerusalém, como também os primeiros cristãos farão depois. Certamente foi na sinagoga que Jesus aprendeu a ler e conheceu as Escrituras.

Lucas, que fez um “estudo cuidadoso de tudo que aconteceu desde o princípio”, apresenta já no início do seu Evangelho que Jesus veio cumprir as Escrituras. A ação de Jesus é impulsionada pelo Espírito Santo que é a força criadora de Deus. Na sinagoga, Ele lê o profeta Isaías (Is 61) e reconhece que aí está o programa de sua missão. Cheio do Espírito, Jesus se reconhece e se apresenta como o “ungido” por Deus “para anunciar a Boa-nova aos pobres”. No Antigo Testamento a “unção” faz referência ao Messias, o Salvador. Jesus, tomando as palavras do profeta Isaías, a apresenta no sentido de missão profética para anunciar a mensagem de Deus.

A mensagem não será apenas um ensinamento teórico, ou um discurso, mas uma prática de realização da vontade de Deus que ama a todos e dá vida em abundância a todos. Por isso, no programa de ação de Jesus está a “libertação dos cativos, aos cegos a recuperação da vista; libertar os oprimidos e proclamar um ano da graça do Senhor”. “Anunciar a Boa-nova aos pobres” porque são eles que ficam excluídos da sociedade e da comunidade religiosa; e são eles que têm maior abertura para receber a Palavra de Deus. Libertar os “cativos” porque a maioria dos presos daquele tempo estavam na prisão por pequenas dívidas financeiras e não porque eram criminosos. Restituir a vista “aos cegos” é referência aos presos libertos que, depois de passar longos períodos no escuro das prisões subterrâneas, veriam novamente a luz. “Libertar os oprimidos” porque na sociedade nem todos tinham as mesmas oportunidades e os seus direitos respeitados e, além disso, eram explorados pelo trabalho mal remunerado e pelos impostos. O “ano da graça do Senhor” faz referência ao jubileu que, no Antigo Testamento, previa a devolução dos bens confiscados, especialmente a terra, pois ela pertence a Deus.

Esta palavra de Jesus provocou admiração e perseguição, pois entre os seus conterrâneos, Ele não era reconhecido como profeta. Hoje os cristãos são chamados a dar ouvido à Palavra de Deus, como o povo o fez na primeira leitura, quando Esdras leu a Escritura reencontrada na reforma do templo. Em obediência, abraçar o projeto de Deus para continuar a missão de Jesus, uma vez que todos os batizados são ungidos pelo Espírito Santo para serem instrumentos de libertação de todas as situações de injustiças e opressão.

Frei Valmir Ramos, OFM

2º Domingo do Tempo Comum: “Fazei o que ele vos disser!”

LEITURAS: Is 62,1-5 / Sl 95 / 1Cor 12,4-11 / Jo 2,1-11

O Evangelho segundo João é o único texto que traz o “primeiro sinal” que Jesus realizou no meio do seu povo. Então chegou a hora da revelação. De fato, os “sinais” no Evangelho de João revelam que Jesus é o Messias, o Deus que não abandona o seu povo a quem ama como um esposo. A imagem do casamento é emblemática para indicar o amor, a ternura e a misericórdia de Deus.

O profeta Isaías anima o povo de Jerusalém anunciando o grande amor de Deus que a chama de “minha predileta”, “uma coroa de glória”, “a alegria do teu Deus”. Era um tempo em que o povo estava cansado, sem esperança, impaciente, pois retornava do exílio e tudo estava destruído e muito confuso. O profeta como porta-voz de Deus, anuncia algo novo, fala de “um nome novo”, de justiça e indica uma nova aliança. Isto quer dizer um novo empenho de Deus com o seu povo que também deverá empenhar-se com as cosias de Deus e a sua justiça.

O vinho novo das bodas de Caná é repleto de significado, pois chegou o novo tempo, que é o tempo do Messias, tempo da salvação do povo de Deus. Este tempo messiânico é indicado como um banquete de casamento. E aí está Jesus participando de uma festa de casamento. Ele se revela ao seu povo de maneira simples e na vida cotidiana. Ele mesmo é o esposo que agora está no meio do povo amado por Deus e sua ação revela seu empenho de amor, de ternura e misericórdia.

A água antes usada para os rituais de purificação, agora é “vinho novo”. Isto significa que o ritualismo judaico estava superado e com a chegada do tempo messiânico, já anunciado por João Batista, é necessário uma nova atitude que corresponda ao amor esponsal de Deus, purificando o interior dos sentimentos de egoísmo, de desejo de vingança, de violência, de discriminação, de preconceito e das injustiças contra irmãos e irmãs.

Para os cristãos de hoje, a atuação e revelação de Jesus nas bodas de Caná significa que é tempo de abertura para acolher o Messias com o seu projeto de salvação. É tempo de abraçar com alegria o Deus que se revela como esposo, amigo, cheio de ternura e misericórdia para com o seu povo e de prestar atenção às necessidades daqueles que sofrem por falta de alimento, de remédio, de casa, de terra, de emprego e de qualquer outro elemento que proporcione vida digna de filhos de Deus.

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo: “Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”

LEITURAS: Dn 7,13-14 / Sl 92 / Ap 1,5-8 / Jo 18,33b-37

O trecho do Evangelho deste Domingo de Cristo Rei faz parte da narração do processo de Jesus em que Pilatos interroga-o para saber o porquê das acusações. Diante de Pilatos e dos seus acusadores Jesus declara que o seu Reino não é deste mundo. Os outros evangelistas colocam o Reino de Deus no centro da pregação de Jesus, enquanto que João afirma a realeza de Jesus. Todos são concordes que Jesus é um Rei bem diferente dos que o povo conhecia. O seu Reino é de vida, de amor, de paz, de justiça e de serviço. Os reinos conhecidos eram de exploração através dos impostos e dos trabalhos forçados, de guerras e de injustiças.

Pilatos tem poder dado pelo imperador romano e é representante dos reinos deste mundo. O poder de Jesus não é temporal e não é de domínio sobre os outros. Por isso, atribui-se a profecia de Daniel a Jesus, cujo Reino é eterno e seu poder não lhe será tirado. Os reinos deste mundo passam, os poderes caem, os mandatários desaparecem e surgem outros lutando pelo poder para explorar, guerrear, enganar e dominar. O Reino de Jesus é dado por Deus e baseado no amor, na justiça, no respeito pelos direitos de todos, na amizade entre as pessoas e os povos.

A afirmação de Jesus: “para isso eu nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade”, revela que seu Reino está acima de todas as expectativas humanas. Na segunda leitura vemos a declaração de que Jesus é “o alfa e o ômega”, isto é, o começo e o fim. Esta é a dimensão da eternidade de Deus que se encarnou para fazer parte da história da humanidade. O seu Reino é eterno, mas não começa só depois da morte. Começa na história humana real, concreta, faz parte da vida das pessoas. Por isso, todos são chamados a seguir Jesus Cristo e atuar na construção do seu Reino. Para isso ele chamou os doze Apóstolos, inúmeros discípulos e discípulas e continua chamando os cristãos todos para construir o seu Reino que começa neste mundo com justiça, paz, solidariedade, amor, misericórdia e bondade.

Os cristãos não devem esquecer que a coroa de Jesus é de espinhos e não de ouro; que seu Reino é de serviço e não de poder de domínio; que o empenho pelo Reino é de partilha e não de conquista e acúmulo; que o Pai o enviou ao mundo para que todos os povos pudessem conhecer o amor de Deus e a sua paz e ter vida em abundância.

Frei Valmir Ramos, OFM


Acompanhe também a reflexão da série: “Luz do meu caminho”