Domingo da Páscoa: O sepulcro está vazio, Ele vive!

LEITURAS: At 10,34a.37-43 / Sl 117 / Cl 3,1-4 / Jo 20,1-9

A vida venceu a morte!

Os discípulos chegaram ao túmulo vazio “viram e creram”. A passagem do Evangelho de João indica os primeiros movimentos do Domingo da Ressurreição que levam os discípulos à fé na Ressurreição de Jesus.

Ainda estava escuro e Maria Madalena, que é a primeira testemunha ocular da Ressurreição, foi ao túmulo de Jesus. O texto é repleto de movimento dela e dos discípulos. O que à primeira vista parece muito simples, na verdade pode indicar um processo de crescimento dos personagens deste texto. Maria Madalena é uma discípula que vai reverenciar o seu Mestre e prestar suas homenagens. Esta mulher marginalizada torna-se a primeira anunciadora da Ressurreição. Vai correndo aos discípulos porque viu o túmulo vazio. Os discípulos, certamente tristes e desiludidos, ao ouvirem que o túmulo está vazio correm para verificar. Eles ainda não entendiam o que estava acontecendo e não acreditavam, mas veem os lençóis dobrados no chão e na cabeceira. No vazio do sepulcro começaram a perceber a presença do Ressuscitado.

Pedro tornou-se um gigante na fé e coluna da Igreja sustentada por aquele que venceu a morte. Na primeira leitura vemos como Pedro anuncia que mataram Jesus em uma cruz em Jerusalém, “mas Deus o ressuscitou no terceiro dia”. O anúncio dos Apóstolos e dos discípulos e discípulas era acompanhado pela força do Ressuscitado e fez com que multidões se tornassem seguidoras de Jesus. A forma de entrar para a família do Ressuscitado sempre foi através do batismo. Nele morremos com Cristo e ressuscitamos com Cristo. São Paulo na segunda leitura adverte os colossenses e todos os cristãos que é preciso pensar e buscar as coisas do alto. Isto indica que a Ressurreição de Jesus é o núcleo da fé cristã e exige um comportamento de defesa da vida, da paz que preserva a vida, do respeito mútuo que evita todo tipo de violência.

Hoje existem muitos sinais de Ressurreição apesar de tanta violência. É a vida que vence a morte. Os violentos se iludem como os poderosos se iludiram pregando Jesus numa cruz. A Páscoa se repete silenciosamente, pois a vida é mais forte do que a morte.

Frei Valmir Ramos, OFM

Mensagem do Custódio em ocasião da Páscoa

É Páscoa! Aleluia, o Senhor ressuscitou!

“Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?” (Mc 16, 3). Esta foi a pergunta que as mulheres fizeram entre si nos primeiros raios de sol daquele domingo, que tornara o dia sem ocaso, o Domingo da Ressurreição. Na verdade, não havia mais a pedra obstruindo a entrada ao túmulo porque já não havia mais a morte como castigo. A libertação dos filhos de Deus já estava consumada de uma vez por todas com a Ressurreição do Seu Filho, o Cristo, o Ungido.

Muitas vezes acreditamos que a pedra ainda obstrui a passagem do encontro com Jesus, o Ressuscitado. A pedra já não é empecilho, mas, pela nossa pouca fé e medo, resistimos à entrada ao túmulo. Quem não entra no túmulo da humildade, do perdão, do amor, da conversão, do renovar-se, não contempla a ressurreição. Não ouve o alegre anúncio do Anjo: “Ele ressuscitou. Não está aqui” (Mc 16, 6).

Que pela força do Espírito que o Ressuscitado mesmo nos conferiu, possamos vencer as barreiras que nos impedem desse encontro, tais como: o medo, a incredulidade, o egoísmo, a injustiça, o extremismo, a apatia, a intolerância, o preconceito e falta de caridade. Que a Luz do Cristo ressuscitado ilumine as trevas dos nossos corações e do mundo inteiro e os faça arder do seu amor e da bendita esperança que nos faz mirar ao longe com a certeza da vida que se refaz a cada instante, não obstante, os sinais de morte que nos rodeiam. Que possamos gritar ao mundo com as nossas ações transbordantes da certeza de que a morte foi vencida e a vida sempre prevalecerá porque o Senhor reina para sempre.

“Não vos assusteis. Ele ressuscitou!” (Mc 16, 6)

Feliz Páscoa!

Franca, 03 de abril de 2021

Solenidade da Vigília Pascal

 

Frei Fernando Aparecido dos Santos, OFM

Custódio

Vigília Pascal: “Ele ressuscitou! Não está aqui.”

Cristo ressuscitou, aleluia!

Depois de apresentar os momentos mais importantes da história da salvação em que Deus criou tudo por um amor infinito, a liturgia nos faz reviver a alegria da ressurreição de Jesus. De fato, desde a criação da humanidade, vemos Deus presente com os seus filhos e filhas para dar-lhes vida, para libertá-los da opressão, para garantir-lhes vida plena e para dar-lhes vitória sobre a morte.

No Domingo, as mulheres discípulas de Jesus que tinham acompanhado a sua morte vão ao túmulo para oferecer-lhe a dignidade e a honra ao Mestre que entregou a sua vida pelos seus. O perfume é um sinal de exalação da presença de uma pessoa que depois passou a ser usado no rito fúnebre como testemunho de respeito e amor pelo ente querido que morreu. Acontece que as mulheres não encontraram Jesus, pois quando chegaram ao túmulo viram que a pedra que fechava a sua entrada estava removida e lá dentro tinha “um jovem vestido de branco”. “Muito assustadas”, sem dizer nada, ouvem o anúncio de que “Jesus de Nazaré que foi crucificado” não estava lá, tinha ressuscitado. 

São Marcos apresenta o anúncio daquele “jovem vestido de branco” como realização do que Jesus mesmo tinha dito. Agora o túmulo está vazio, “não está aqui” diz o jovem. Mas Ele quer encontrar os seus discípulos na Galileia, lá onde Ele tinha iniciado a sua missão e de onde os discípulos deverão dar continuidade à construção do Reino de Deus. O anúncio da ressurreição é seguido do envio das mulheres como primeiras testemunhas da vitória da vida sobre a morte. Elas devem dizer aos discípulos de Jesus e a Pedro que o Ressuscitado os espera na Galileia.

A grande vitória da vida sobre a morte deixa o Domingo repleto da alegria da Páscoa cristã. A ressurreição abateu o poder da morte que Jesus venceu passando pela cruz. O testemunho de Paulo na carta aos Romanos é contundente dizendo “sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele”. Por isso, aqueles que morrem com Cristo, viverão com Ele. Esta certeza deve encher os cristãos de
alegria como filhos e filhas amados por Deus e enviados ao mundo como testemunhas de que a vida vence a morte.

A Páscoa dos cristãos hoje deve ser repleta de alegria e, ao mesmo tempo, deve ser uma ocasião de envio ao mundo, tão ferido de morte, para testemunhar que a vida tem mais poder, é dom de Deus e precisa ser defendida com amor.

Frei Valmir Ramos, OFM

Mensagem de Páscoa da Irmã Cleusa, presidente da CFFB

Irmã Cleusa Aparecida Neves, CFA (Presidente da CFFB) – Imagem: CFFB

MENSAGEM DE PÁSCOA

“Não temais! O crucificado ressuscitou […]”. “Desapareceu a amarga raiz da cruz, desabrochou a flor da vida com seus frutos”. “Quem jazia na morte ressurgiu na glória.” “De manhã ressurgiu, quem à tarde fora sepultado”, para que se cumprisse a palavra do salmo: “De tarde estaremos em lágrimas, e de manhã em alegria!”
Sermão de Santo Antônio, Páscoa do Senhor (1)

Queridos Irmãos e Irmãs, Feliz e abençoada Páscoa!

Mais um ano vivenciamos a alegria da Páscoa em meio à pandemia provocada pelo Covid-19. Tempo marcado pela angústia e incerteza; pela tristeza causada por tantas vidas ceifadas pela “nossa irmã a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar” (Cnt 12) e pelas mudanças radicais na rotina de nossas vidas. Regada por lágrimas, nossa peregrinação existencial está sendo provada.

Narra o evangelista João (20, 1-18) que, após a morte de Jesus, Maria Madalena faz uma experiência de profunda dor e inconformidade e sua dor é acrescida por grande aflição no momento em que vai ao túmulo de madrugada e encontra-o vazio (v. 1). Diante do túmulo violado, ao perceber que o corpo de Jesus não estava lá, aflita, sai correndo para dar a notícia aos discípulos, retornando com eles ao local. Após constatarem o ocorrido, os discípulos retornam para suas casas e ela permanece junto ao túmulo, chorando (v. 10.11). E não tardou, seus olhos contemplam “quem à tarde fora sepultado e de manhã ressurgiu”: o Mestre (v. 16). Quanta alegria após tantos momentos de profunda dor, angústia e aflição! Ficando com ela a incumbência de levar a notícia, célebre é seu anúncio aos discípulos: “Eu vi o Senhor” (v. 18).

Na realidade contemporânea vivenciamos ou presenciamos de forma intensa, dor, luto, angústia e inconformidade pela morte de nossos parentes, amigos e por sabermos que milhares de pessoas de diferentes nacionalidades morrem sem condições dignas de atendimento, principalmente no Brasil. O momento é de sofrimento, mas nossa fé e esperança garantem-nos: manhãs de alegria virão. O crucificado ressuscitou, está entre nós e sabe de nossas dores e sofrimento, não nos abandona.

Irmãs e irmãos da Conferência da Família Franciscana do Brasil, ao celebrarmos a Páscoa possamos anunciar: Cristo Ressuscitou, está vivo entre nós! Não podemos vê-lo como Maria Madalena (Jo 20, 18) nem tocá-Lo como os discípulos (Jo 20, 20), mas podemos tocá-Lo através da experiência da fé que professamos e do acolhimento e cuidado para com os frágeis de nossas famílias, fraternidades e da sociedade, principalmente nossos irmãos e irmãs cada vez mais pobres e sofredores. Que se abram nossos olhos para reconhecê-Lo e, nossos ouvidos, para ouvi-Lo a dizer-nos: “A paz esteja com vocês” (Jo 20, 19-21).

Na alegria da Páscoa do Senhor, em Francisco e Clara, fraterno abraço.

Brasília, 02 de abril de 2021
Sexta-feira da Paixão do Senhor da Páscoa

Irmã Cleusa Aparecida Neves, CFA
Presidente da CFFB

Fonte: CFFB

Sexta-Feira Santa: “A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores”

LEITURAS: Is 52,13-53,12 / Sl 30 / Hb 4,14-16; 5,7-9 / Jo 18,1-19-42

São João Evangelista narra a paixão e a morte de Jesus com detalhes de uma testemunha e afirma categoricamente a identidade de Jesus: Filho de Deus, Rei do universo, Salvador da humanidade. Jesus se entrega aos que o procuravam durante a noite no Jardim das Oliveiras: “sou eu”. Ele não foge diante do perigo de morte, nem abre mão do projeto do Pai que é instaurar o Reino de amor.

O Filho de Deus é reconhecido como aquele “Servo” anunciado pelo profeta Isaías que é humilhado, mas não renuncia à sua missão. O profeta anunciava: “a verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores”. Por um amor infinito é que o Filho de Deus se fez servo e o profeta anunciava que Ele “resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores”. E não só para salvar dos pecados o Filho de Deus se fez Servo, mas também para implantar o Reino de Deus neste mundo. No texto do Evangelho desta Sexta-feira santa vemos aparecer 8 vezes a palavra “rei” e mais 4 vezes a palavra Reino. “O meu Reino não é deste mundo”, diz Jesus, pois Pilatos pensava só no reino de poder e domínio, e Jesus atua para construir um Reino de justiça, de paz, de vida em abundância para todos. Por isso Ele é “Jesus” Nazareno, palavra que significa “Deus Salva”. O Evangelista usa a palavra Jesus bem 55 vezes nesta narrativa da paixão.

Pilatos era governador da Província romana da Judeia. A sua figura mingua diante de Jesus que cresce sempre mais como Rei. São João é o único a dizer que ele queria liberar Jesus, mas os sumos sacerdotes impuseram-lhe a pena de morte por causa da afirmação que era o “Filho de Deus”. Esta é a verdade de Jesus que os judeus não aceitaram e recorreram ao governador para a sentença de morte. O governador fez a escolha do poder e do prestígio diante do imperador César. A cruz era a pior forma de condenação dos malfeitores. Para Jesus, no entanto, ela torna-se o trono do Reino de serviço.

Os discípulos de Jesus foram formados neste caminho de serviço, pois o Mestre não recusou a cruz, a própria morte, e “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” como vemos na carta aos Hebreus.

São João também é o único a narrar as palavras de Jesus à sua mãe que estava ao pé da cruz com um discípulo e outras discípulas: “este é o teu filho… esta é a tua mãe”. Para o evangelista a morte de cruz cumpre as Escrituras que falavam do Filho de Deus e inicia o tempo do Reino de Deus neste mundo contando com os seguidores de Jesus.

De fato, os discípulos entenderam o mistério da cruz quando Jesus apareceu-lhes ressuscitado e enviou-lhes ao mundo para anunciá-lo e construir o seu Reino. Eis porque a cruz tornou-se sinal de salvação. Hoje os cristãos são chamados a viver a solidariedade com todos que são crucificados com Jesus e lutar juntos para a libertação das amarras e dos sistemas que levam à morte.

Frei Valmir Ramos, OFM

Quinta-Feira Santa: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei!”

LEITURAS: Ex 12,1-8.11-14 / Sl 117 / 1Cor 11,23-26 / Jo 13,1-15

O livro do Êxodo traz a narração da celebração da festa da Páscoa que dá início a uma longa tradição judaica que, por sua vez, dá um novo sentido a esta festa. O que antes era uma festa familiar realizada no início da primavera com a imolação de um animal jovem para pedir as bênçãos sobre todo o rebanho, torna-se a celebração da libertação do cativeiro e da escravidão no Egito. Moisés institui que cada família imole um cordeiro, mas deve acontecer a partilha entre as famílias e todas devem usar o sangue como sinal de pertença ao povo hebreu.

Jesus quer comemorar a Páscoa com os seus discípulos, mas não tem um cordeiro para imolar. A preparação é feita em uma casa de família com apenas pão e vinho. Jesus dá graças ao Pai pelo alimento, sinal do seu amor eterno pela humanidade, e Ele mesmo se torna o pão da vida eterna. São Paulo escreve aos Coríntios o que desde o início os discípulos celebravam para tornar presente o que Jesus havia feito naquela noite: através do pão e do vinho Ele se fez o cordeiro e doou-se como alimento aos seus discípulos. O seu corpo e o seu sangue como sinal da “nova e eterna aliança”.

O que Jesus realiza é uma entrega total por amor. É por amor à humanidade que Ele vai a Jerusalém sabendo que encontrará a condenação à morte. Na ceia, que seria a última, Ele realiza a Páscoa da nova e eterna aliança. Sua presença no meio do seu povo será constante na forma do alimento espiritual.

O evangelista João narra a ação de Jesus lavando os pés dos discípulos. É uma ação carregada de significado, pois sem mencionar a Eucaristia, João apresenta o serviço do Mestre e Senhor. É o novo memorial que a Igreja celebrará para sempre como serviço, doação, partilha, alimento, vida. De fato, na Eucaristia está a presença viva de Jesus na história da humanidade. Aqueles que enxergam este memorial com fé têm suas vidas transformadas, pois da Eucaristia brota a comunhão com Deus e a caridade.

Sempre que celebramos a instituição da Eucaristia somos convidados por Cristo a retomar nosso empenho com o projeto de Deus. Faz parte da nova aliança: Deus continua empenhando-se com cada um dos seus filhos e filhas; nós nos empenhamos com Deus através do serviço aos irmãos.

Frei Valmir Ramos, OFM

Papa Francisco: a força da vitória de Cristo vence o mal e nos liberta do maligno

Papa Francisco durante a Missa do Crisma nesta Quinta-Feira Santa

Vatican News

O Papa Francisco presidiu a Missa do Crisma, com os sacerdotes de Roma, na Basílica de São Pedro, na manhã desta Quinta-feira Santa (01/04).

“No Evangelho, vemos uma mudança de sentimentos nas pessoas que escutavam o Senhor. É uma mudança dramática que nos mostra quão ligadas estão a perseguição e a cruz ao anúncio do Evangelho. Uma frase que alguém murmurou em voz baixa tornou-se insidiosamente «viral»: «Não é este o filho de José?»”, disse o Pontífice em sua homilia.

Segundo o Papa, “trata-se de uma daquelas frases ambíguas que se dizem por dizer. Uma pessoa pode usá-la para exprimir alegria: «Que maravilha ver alguém de origens tão humildes falar com esta autoridade!» Mas outra pode usá-la com desdém: «E isto, donde lhe veio? Que pensa ser?» Se notarmos bem, o caso repete-se quando os Apóstolos, no dia de Pentecostes, cheios do Espírito Santo, começam a pregar o Evangelho. Alguém disse: «Esses que estão a falar, não são todos galileus?» E enquanto alguns acolheram a Palavra, outros os consideraram bêbados. Formalmente, parecia que se deixava em aberto uma escolha; mas, se considerarmos os frutos, naquele contexto concreto tais palavras continham um germe de violência que se desencadeou contra Jesus“.

Como sempre faz, o Senhor não dialoga com o espírito maligno; responde apenas com a Sagrada Escritura. Nem mesmo os profetas Elias e Eliseu foram aceitos pelos seus compatriotas, mas foram-no por uma viúva fenícia e um sírio leproso: dois estrangeiros, duas pessoas doutra religião. Os fatos são contundentes e provocam o efeito que profetizara aquele idoso carismático, o Simeão: Jesus seria «sinal de contradição».

A luz suave da Palavra gera clareza nos corações bem-dispostos

“A palavra de Jesus tem o poder de trazer à luz aquilo que uma pessoa guarda no coração, sendo habitualmente uma mistura de coisas como o joio e o trigo. E isto provoca luta espiritual”, sublinhou Francisco.

“A rapidez com que se desencadeou a fúria e a brutalidade do encarniçamento, capaz de matar o Senhor naquele preciso momento, nos mostra que é sempre a hora”, disse o Papa aos sacerdotes, ressaltando que “andam juntas a hora do anúncio jubiloso e a hora da perseguição e da cruz”. “A proclamação do Evangelho está sempre ligada ao abraço duma cruz concreta. A luz suave da Palavra gera clareza nos corações bem-dispostos, e confusão e rejeição naqueles que o não estão. Vemos isto constantemente no Evangelho”, frisou o Papa.

A cruz não depende das circunstâncias

“Ora, a fim de «tirar algum proveito» para a nossa vida sacerdotal, que reflexão poderemos fazer ao contemplar esta presença precoce da cruz (da incompreensão, da rejeição, da perseguição) no início e no meio da pregação evangélica? Vêm-me à mente duas reflexões“, disse ainda Francisco.

A primeira: não nos deve maravilhar a constatação de estar presente a cruz na vida do Senhor no início de seu ministério, pois estava já antes do seu nascimento: já está presente no primeiro turbamento de Maria ao ouvir o anúncio do Anjo; está presente nas insónias de José, sentindo-se obrigado a abandonar a sua esposa prometida; está presente na perseguição de Herodes e nas agruras sofridas pela Sagrada Família, iguais às de tantas famílias que têm de exilar-se da sua pátria.”

Esta realidade nos abre ao mistério da cruz experimentada antes. Faz-nos compreender que a cruz não é um fato indutivo, ocasional produzido por uma conjuntura na vida do Senhor. É verdade que todos os crucificadores da história fazem aparecer a cruz como um dano colateral, mas não é assim: a cruz não depende das circunstâncias.

Triunfo de Deus

“Por que o Senhor abraçou a cruz em toda a sua integridade? Por que Jesus abraçou a paixão inteira: abraçou a traição e o abandono dos seus amigos já desde a Última Ceia, aceitou a prisão ilegal, o julgamento sumário, a sentença desproporcionada, a malvadez sem motivo das bofetadas e cuspidelas? perguntou o Papa. “Se as circunstâncias determinassem o poder salvífico da cruz, o Senhor não teria abraçado tudo. Mas quando chegou a sua hora, abraçou a cruz inteira. Porque a cruz não tolera ambiguidade; com a cruz, não se regateia!”, disse ele.

A segunda reflexão do Papa diz o seguinte: “É verdade que há algo na cruz que é parte integrante da nossa condição humana, com os seus limites e fragilidades. Mas é verdade também que, daquilo que acontece na cruz, há algo que não é inerente à nossa fragilidade, mas é a mordida da serpente que, vendo o Crucificado indefeso, morde-O e tenta envenenar e desacreditar toda a sua obra. Mordida, que procura escandalizar, está é uma época de escândalo! Mordida que procura imobilizar e tornar estéril e insignificante todo o serviço e sacrifício de amor pelos outros. É o veneno do maligno que continua a insistir: salva-te a ti mesmo. Nesta mordida, cruel e dolorosa, que pretende ser mortal, aparece finalmente o triunfo de Deus.”

Cristo vence o mal e nos liberta do maligno

“Peçamos ao Senhor a graça de tirar proveito destes ensinamentos: é verdade que, no anúncio do Evangelho, há cruz; mas é uma cruz que salva. Pacificada com o Sangue de Jesus, é uma cruz com a força da vitória de Cristo que vence o mal e nos liberta do maligno. Abraçá-la com Jesus e como Ele, nos permite discernir e repelir o veneno do escândalo com que o demônio procurará envenenar-nos quando chegar inesperadamente uma cruz na nossa vida”, frisou o Pontífice.

“Nós, porém, não somos daqueles que cedem, é o conselho que ele nos dá: Não nos escandalizamos, porque Jesus não Se escandalizou ao ver que o seu jubiloso anúncio de salvação aos pobres não ressoava puro, mas no meio dos gritos e ameaças de quem não queria ouvir a sua Palavra ou queriam reduzi-las a legalismos, moralismos, clericalismos e essas coisas”, disse ainda o Santo Padre.

A graça do Senhor segundo à sua maneira divina

O Papa concluiu sua homilia, partilhando uma lembrança de momento muito escuro de sua vida. Eu pedia ao Senhor a graça de me libertar daquela situação dura e difícil. Uma vez, fui pregar o Retiro a algumas religiosas, que, no último dia – como era costume então –, se confessaram. Veio uma irmã muito idosa, com olhos límpidos, mesmo luminosos. Era uma mulher de Deus. No fim, senti vontade de lhe pedir que rezasse por mim, dizendo-lhe: «Irmã, como penitência reze por mim, porque preciso duma graça. Peça ao Senhor. Se for a Irmã a pedi-la, com certeza o Senhor me la dará». Ela parou um pouco, como se estivesse rezando, me olhou e depois me disse: «Certamente o Senhor lhe concederá a graça, mas não se engane: ele a dará segundo o seu modo divino». Isto fez-me muito bem: ouvir que o Senhor nos dá sempre o que lhe pedimos, mas o faz à sua maneira divina. Esta maneira envolve a cruz. Não por masoquismo, mas por amor, por amor até o fim”.

Fonte: Vatican News

Domingo de Ramos: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!”

Terminada a Quaresma, iniciamos a Semana Santa com a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém e o seu julgamento seguido de sua paixão e morte. A decisão de Jesus de ir para Jerusalém revela a sua plena obediência ao Pai como vemos na segunda leitura. Mesmo sabendo do risco que corria indo para o centro do poder religioso, político e econômico, Jesus não renuncia à construção do Reino e ao anúncio da verdade e da Boa Nova.

O processo contra Jesus é único, pois ocorre durante a noite no Sinédrio e pela manhã diante de Pilatos que não tem jurisdição sobre um galileu. Não segue o procedimento dos romanos, nem dos judeus. Ambos os lados seguem seus interesses e são cegados pela covardia de não aceitar a verdade.

Diante dos poderosos Jesus tem apenas a verdade para se defender. Mas foi porque sempre disse a verdade que os chefes judeus o perseguiram. Agora os chefes manipulam o povo que está em Jerusalém para que condene Jesus à morte. No fundo os poderosos estavam com medo, talvez de perder o poder ou o prestígio por defender a observância da lei ao pé da letra, mesmo sem viver o amor.

Jesus por sua vez, não é uma vítima do acaso ou mártir da situação de um povo subjugado pelo Império Romano. Ele é o “servo obediente” que entrega a sua vida para salvar a humanidade mesquinha, vingativa e autodestruidora. Diante das ameaças, Jesus confia no Pai que é seu auxílio e nunca abandona seus filhos e filhas. Vemos na primeira leitura do profeta Isaías como o servo sábio exprime sua confiança no Deus auxiliador que acompanha os pequenos e humilhados. Jesus sofre angustiado, carrega a cruz, deixa que o crucifiquem e morre. Sua última palavra é de confiança e pede ao Pai para não abandoná-lo.

Quem abandonou Jesus foram os discípulos, todos amedrontados e desiludidos pelo trágico fim daquele Mestre que anunciou o Reino e revelou-se “Deus conosco”. As multidões que viram o que ele fazia agora está dispersa e confusa.

O Rei que entrou em Jerusalém montado em um jumentinho é mais do que alguém que tem poder temporal. É aquele que ama a ponto de dar a sua vida pelos outros. A Semana Santa convida todos os cristãos ao seguimento de Cristo, isto é, abraçar o projeto de Deus para construir o seu Reino e defender a vida. Para isso é necessário agir construindo a paz em casa e na sociedade, estendendo a mão ao próximo caído ou necessitado, amando a ponto de entregar a vida sem egoísmos.

Frei Valmir Ramos, OFM

As celebrações de Francisco na Semana Santa

Um momento da Via-Sacra do Papa no átrio de São Pedro (2020) | Vatican Media

Alessandro De Carolis (Vatican News)

Doze meses depois, as liturgias centrais do ano ainda devem fazer as contas com uma pandemia que atinge todas as partes do mundo, e até mesmo o coração do catolicismo. Também a Semana Santa de Francisco terá tempos e ritmos modelados nas exigências que a Covid impõe, antes de tudo a ausência dos milhares de fiéis que normalmente se fazem presentes nos compromissos desde o Domingo de Ramos até a Páscoa.

Missa do Crisma e Quinta-feira Santa

Ao comunicar os detalhes dos eventos papais a Sala de Imprensa vaticana especificou que cada um deles será realizado com uma presença “limitada” de fiéis no “respeito das medidas sanitárias previstas”. A série de compromissos anunciados tem início com a Missa do Domingo de Ramos, marcada para às 10h30 (5h30 – hora de Brasília) no Altar da Cátedra, na Basílica de São Pedro. A Missa do Crisma na quinta-feira, 1º de abril, às 10 horas (5h da manhã no Brasil), também será no altar da Cátedra, presidida pelo Papa, cuja presença, ao invés, não está prevista para às 18 horas (13h Brasília) para a celebração in Coena Domini, (Missa do Lava-pés) que neste caso será presidida pelo cardeal decano do Colégio cardinalício, Giovanni Battista Re.

A Via Sacra no átrio da Basílica

Os outros dois compromissos de Francisco para a Sexta-feira Santa estão programados para às 18h (13h no Brasil) com a celebração da Paixão na Basílica de São Pedro e três horas depois, às 21h00 (16h no Brasil), a Via Sacra, em mundo-visão, mais uma vez privada do cenário do Coliseu, mas montada sobre o átrio da Basílica vaticana. Este ano, informou em um comunicado o diretor da Sala de Imprensa vaticana, Matteo Bruni, a preparação das meditações foi confiada ao Grupo Escoteiro Agesci “Foligno I” (da Úmbria) e à paróquia romana dos Santos Mártires de Uganda. Especiais serão as imagens que acompanharão as diversas Estações: os desenhos foram feitos por crianças e jovens da Casa Família “Mater Divini Amoris” e da Casa Família “Tetto Casal Fattoria”, ambas de Roma: a primeira dirigida pelas Filhas de Nossa Senhora do Divino Amor, a segunda fundada por uma associação de voluntários.

Às 19h30 (14h30) do Sábado Santo, 3 de abril, o Papa retorna ao Altar da Cátedra para a Mãe de todas as vigílias; depois, no Domingo às 10h (5h no Brasil), na Basílica vaticana, será celebrada a Missa da Páscoa. Na conclusão da Santa Missa, a tradicional Mensagem e Bênção Urbi et Orbi. No dia seguinte, Lunedì dell’Angelus, (Segunda-feira do Angelus – 7h Brasília), a primeira recitação do Regina Coeli na Biblioteca do Palácio Apostólico.

Fonte: Vatican News