3º Domingo do Tempo Comum: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!”

Jonas é um personagem criado para mostrar a ação de Deus na história da humanidade. Como profeta judeu, ele não quer nem ouvir falar de Nínive, que era uma cidade opressora do seu povo. Por isso Jonas reluta e não quer assumir a sua missão de profeta e anunciar o castigo de Deus para aquela cidade se o povo não se convertesse. Como Jonas não conseguiu fugir de Deus, foi a Nínive começou a pregar o caminho da conversão e viu o povo fazer penitência. O profeta pensava como os seres humanos e não queria que Deus perdoasse os ninivitas. Mas a misericórdia de Deus é para todos os povos e o seu Reino de amor, justiça e paz também. Então, “vendo Deus que os ninivitas se afastaram do mau caminho, compadeceu-se”.

São Marcos apresenta Jesus iniciando a sua missão na Galileia, uma região ao norte da Judeia, que era tida como impura e de onde os mestres da Lei diziam que não sairia nada. Os chefes de Jerusalém menosprezavam os galileus e afirmavam que nada de bom poderia vir da Galileia. Jesus, o galileu, começa a sua missão anunciando que “o tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo”. O tempo é aquele da realização da promessa de Deus, que quer salvar o seu povo, e que São Paulo diz que “está abreviado”. De fato, com a vinda de Jesus, cumpre-se vontade do Pai e Ele se torna o Salvador da humanidade que revela o rosto misericordioso do Pai. 

João Batista tinha iniciado a sua missão pregando a conversão e batizando o povo para a purificação dos pecados. Agora ele está preso, pois os poderosos não suportaram a verdade e não se arrependeram. Jesus continua suplicando pela conversão do povo, pois sem o amor verdadeiro e a justiça não seria possível a presença do Reino de Deus. Isto significa basear a vida na nova lei do amor e não apenas nos preceitos humanos que às vezes discrimina, exclui, marginaliza e não cuida dos irmãos e irmãs mais frágeis.

Para construir o Reino de Deus Jesus chama trabalhadores da Galileia, iniciando por aqueles que eram pescadores. Simão, André, Tiago e João deixam as redes e seguem Jesus para uma nova missão: devem ajudar na construção do Reino de Deus. Este Reino será uma realidade quando as injustiças, a violência, o desrespeito pelos outros, o egoísmo e os sistemas que levam à morte forem vencidos. Os discípulos ainda não sabiam disso, mas acreditaram em Jesus e viram durante a sua vida como ele agiu e venceu os reinos deste mundo passando pela morte e ressuscitando. 

Hoje os cristãos são chamados a comprometerem-se na construção do Reino de Deus, que não será apenas uma realidade em nosso coração, mas no mundo onde as pessoas vivem, amam, sofrem e morrem. Aceitar a vontade de Deus e empenhar-se na construção do seu Reino neste mundo com ações concretas de amor ao próximo será sempre um caminho de conversão.

Frei Valmir Ramos, OFM

2º Domingo do Tempo Comum: “Eis o Cordeiro de Deus!”

 

Os primeiros discípulos de Jesus eram discípulos de João Batista que, reconhecendo Jesus como Messias, retira-se para dar lugar àquele que veio para salvar a humanidade.

A liturgia nos oferece o início da vida pública de Jesus logo depois de seu batismo. E é o próprio João Batista que indica Jesus como sendo o “Cordeiro de Deus”. Esta expressão tem um significado profundo construído durante a história da religião hebraica e depois pelos cristãos. O ponto de partida é a ideia do cordeiro pascal, que os hebreus escravizados no Egito deveriam sacrificar na celebração da Páscoa que se torna a celebração da libertação do Egito. É pelo sangue do cordeiro que o povo hebreu ganha a libertação. Os cristãos viram em Jesus o verdadeiro Cordeiro que entregou-se até a morte para libertar a humanidade do pecado e da própria morte.

João Batista indicou Jesus aos seus discípulos. Nesta narração, os primeiros a encontrar Jesus são André e João evangelista. Para este o primeiro encontro com Jesus ficou marcado em sua memória e ele diz “era por volta das 4 da tarde”. Eles vivenciaram uma experiência concreta de encontro. Quando perguntaram “Mestre onde moras?”, queriam permanecer com Jesus para escutá-lo.

No Evangelho de João, André é quem chama Pedro para conhecer Jesus que eles já tinham reconhecido como Messias. Ele diz “encontramos o Messias”, o que indica a dimensão comunitária do encontro com Deus. Mesmo sendo encontro personalizado, nunca deixa de referir-se à comunidade. Assim é o chamado de Jesus a todos os seus discípulos. A Pedro Ele constitui o líder dos Apóstolos e primeiro responsável pela Igreja. A cada um dos discípulos e discípulas Ele chama e envia para “pregar a Boa Nova a todas as criaturas”.

Na Carta aos Coríntios, São Paulo deixa bem claro esta compreensão comunitária da Igreja. Ele faz referência a ela como corpo em que todos os discípulos e discípulas de Jesus são membros. Por isso mesmo, nenhum deles é chamado para satisfazer os seus próprios interesses, mas para servir toda a comunidade.

Numa página preciosa do primeiro Livro de Samuel, na primeira leitura ouvimos como Deus chama Samuel para servir o seu povo. A atitude de Samuel é aquela de quem está a serviço. Primeiramente ouve o chamado e corre para apresentar-se a Eli. Depois entende que o chamado não vem de Eli, mas de Deus. Então responde convicto: “fala, que teu servo escuta”.

Hoje Deus continua chamando seus filhos e filhas ao seu serviço. Cada um de nós precisa estar atento a este chamado, pois num mundo dilacerado pelo egoísmo, pela falta de respeito pela vida, pelas injustiças, pela violência, Jesus continua construindo o Reino de Deus através das mãos de seus discípulos e discípulas.

Frei Valmir Ramos, OFM

33º Domingo do Tempo Comum: “Ser sóbrios na fé significa não permitir que a verdade do Evangelho seja ofuscada!”

 

A parábola do Evangelho está no contexto do anúncio da realização plena do Reino de Deus com a vinda gloriosa de Jesus. Reflete o momento em que a comunidade cristã esperava a segunda vinda de Jesus, a chamada “parusia”. Como sabemos, a parábola é um recurso para transmitir um ensinamento. Jesus usa termos conhecidos, porém o significado vai muito além do que parecia.

A ausência física daquele homem que viajou pode ser entendida como a ausência física de Jesus mesmo que permanece sempre com seus discípulos de outro modo. Os discípulos são convidados a “não dormir” mas serem “sóbrios” porque chegará o “dia do Senhor”, como vemos o alerta à comunidade de Tessalônica na 2ª leitura. Isto significa vivenciar a fé ativamente, mesmo dormindo as horas necessárias para o descanso cotidiano. Ser sóbrio na fé significa não permitir que a verdade do Evangelho seja ofuscada por doutrinas ou ideologias.

O talento era uma moeda de grande valor e é usado no Evangelho para indicar os “dons” recebidos de Deus. Na parábola os “servos” indicam os cristãos que devem fazer o Reino de Deus frutificar. Por isso, a “administração” significa ter uma participação ativa na construção do Reino de Deus. Isto é cobrado de cada seguidor de Jesus. Aquele “servo” que enterrou o talento agiu como se a fé fosse algo a ser guardada num cofre e reservada para si de modo egoísta. Jesus então ensina que a fé é vida que se manifesta nas ações concretas de amor para com os outros. Isto é multiplicar os dons.

Na 1ª leitura temos o louvor à mulher que, além de trabalhar, “estende a mão ao pobre e ajuda o indigente”, “que teme a Deus”. Esta mulher é aquela que multiplica os talentos. Aí o livro da Sabedoria, escrito numa sociedade machista, reconhece a grande dignidade da mulher os olhos de Deus.

Hoje todos nós cristãos somos chamados a vivenciar nossa fé de modo que o Evangelho continue brilhando no mundo: “vocês são filhos da luz, filhos do dia” diz São Paulo na 2ª leitura. De fato, o amor verdadeiro vivenciado em as ações concretas e corajosas dos cristãos mostram a presença viva de Jesus no mundo. Além disso revela a verdade sobre Deus que é Amor e não castigo e severidade de quem os filhos e filhas devem ter medo.

Frei Valmir Ramos, OFM

32º Domingo do Tempo Comum: “O pedido de Jesus é que toda a comunidade esteja vigilante!”

 

No ensinamento de Jesus através da parábola vemos a utilização simples do costume daquele povo na época: na noite antes do casamento o noivo ia até a casa da família da noiva com seus amigos “padrinhos”. Lá era recebido pela noiva com suas damas “madrinhas”. O evangelista escreve a partir do contexto da Igreja primitiva que esperava a secunda vinda de Jesus glorioso. Então os que tinham sido fiéis à sua Palavra entrariam com Ele no Reino, aqui simbolizado pelas “núpcias eternas”. Como podemos ver, na parábola não aparece a noiva, que pode ser entendida de imediato como a própria comunidade eclesial. Na 2ª leitura vemos a carta endereçada à comunidade de Tessalônica que reaviva a esperança na ressurreição, que no Evangelho é simbolizada pelas núpcias do banquete eterno.

O pedido de Jesus é que toda a comunidade esteja vigilante. Significa pedir que esteja vivenciando na prática o ser cristão e não apenas dizer-se cristão. Podemos então entender que as virgens prudentes são semelhantes àquele homem prudente, sábio, sensato, que construiu a sua casa sobre a rocha, como diz Jesus em Mt 7,24: “quem ouve estas minhas palavras e as pões em prática é como o homem sensato”. Significa alguém que usa a sabedoria que vem de Deus, que é o próprio Deus, como vemos na 1ª leitura, para viver com Ele e agir de acordo com a sua vontade.

As virgens prudentes são pessoas que pensam em Jesus dia e noite e querem participar de sua vida mantendo-se unidas a Ele. Isto significa manter acesa a luz de sua Palavra e ter atitude que condiz com o nome de cristão. Ter o nome e agir de modo contrário ao Evangelho é arriscar ouvir uma resposta dura: “na verdade eu não vos conheço”.

Para a nossa comunidade cristã de hoje, o Evangelho faz o apelo para não descuidar da “luz do mundo” que ilumina o caminho da humanidade na direção da vida, da paz, da harmonia entre as pessoas e entre as nações. Ao mesmo tempo interpela os cristãos a uma atitude coerente com o Evangelho agindo em prol dos sofredores nos quais Jesus continua sofrendo a sua paixão. Tudo isso significa manter-se unidos a Jesus, esposo da Igreja, amigo dos pobres, marginalizados e sofredores, para ser reconhecidos por Ele nas núpcias do banquete eterno.

Frei Valmir Ramos, OFM

30º Domingo do Tempo Comum: “O amor a Deus está vinculado com o amor ao próximo!”

Jesus é chamado de Mestre por um doutor de Lei. Por parte dos fariseus isto seria uma ironia em relação a Jesus que não era doutor da Lei, mas estava ensinando nas sinagogas e no templo de Jerusalém. No Evangelho deste Domingo o doutor lhe pergunta sobre “o maior mandamento da Lei”. Ele estava se referindo à Lei de Deus, partindo do decálogo que Deus revelou a Moisés. Em poucas palavras Jesus resume toda a Lei e os profetas: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento… e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O maior mandamento se resume no amor.

O amor na Sagrada Escritura é uma força que faz sair de si mesmo e agir para o bem do outro. São João diz que “Deus é amor” (cf 1Jo 4,8). A sua experiência de Deus que vive em comunhão com o Filho Jesus e o Espírito Santo e está presente no meio da comunidade agindo como Pai, Mãe, Pastor, Guia, Luz, Força e Vida, o fez chegar a esta definição, pois o mistério da ação gratuita de Deus pelos seus filhos e filhas não se explica com palavras humanas. De fato, na Sagrada Escritura, a aliança de Deus com o seu povo é um compromisso de amor em que Deus se empenha, cuida, zela por seu povo e espera uma resposta de gratidão e reconhecimento. Ao mesmo tempo, Deus espera o empenho de cada filho e filha com o seu semelhante. É o que vemos expresso na primeira leitura onde aparece o mandamento do amor ao próximo em atitude de “não prejudicar o estrangeiro, nem oprimir, nem maltratar, nem explorar com juros, nem confiscar o necessário do pobre”.
O amor a Deus está vinculado com o amor ao próximo, isto é viver a caridade. O amor a Deus deve ser incondicional, com todo o ser, “coração, alma e entendimento” repete Jesus (cf Dt 6,5) e o amor ao próximo como se ama “a si mesmo” (cf Lv 19,18). Os primeiros cristãos entenderam, mas tinham dificuldades como os fariseus. São João foi categórico escrevendo às comunidades: “quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). Jesus faz entender a relação profunda entre os dois amores que, na prática não podem estar desvinculados para não cair na aridez do racionalismo ou da hipocrisia.
Os cristãos são amados por Deus, por Jesus que é a revelação do grande amor do Pai e que, por sua vez, viveu o amor até as últimas consequências abraçando a morte de cruz, e pelo Espírito Santo que é dom e força criadora de Deus. Cabe a cada um corresponder a este amor infinito de Deus amando-o e amando o próximo desinteressadamente como si mesmo. A caridade nos faz colocar-nos na pele dos sofredores deste mundo e agir impulsionados pelo amor gratuito.

Frei Valmir Ramos, OFM

29º Domingo do Tempo Comum: “O Ensinamento de Jesus é para que os seus seguidores sejam livres da dependência d poder econômico e do poder político!”

Jesus revela aos judeus, tantos fariseus que eram muito nacionalistas, quanto herodianos que colaboravam com o Império romano, que existe um único Deus poderoso. O profeta Isaías já havia anunciado, como vemos na primeira leitura: “Eu sou o Senhor, não existe outro”. Acontece que os judeus estavam enganados pelo poder do dinheiro e do imperador romano. Eles pensavam que poderiam confiar no imperador que se autodenominava deus. E não foi apenas um dos imperadores romanos que pensava assim. Por isso, no território do Império que se estendia pela Ásia Menor, construíam os templos para adorar o imperador. Daí que no Apocalipse encontramos a expressão “trono de satanás” (cf. Ap 2,13) fazendo referência a um desses templos.

Quando os fariseus, ofendidos pelo ensinamento de Jesus, fazem uma aliança com os herodianos, aparece claramente a intenção de liquidar com Jesus, pois o veem como inimigo maior. Jesus, conhecendo suas intenções, impõe uma grande derrota a eles justamente através da palavra com a qual queriam condená-lo. Isto é bem claro no diálogo transmitido pelos evangelistas: os fariseus falam em “pagar” a César e Jesus fala em “devolver” ao imperador o que é dele e a Deus o que é de Deus.

Não foi a primeira nem a única vez que as pessoas colocaram a confiança no dinheiro e nos poderosos desse mundo. A história dos povos e a nossa de hoje indicam que o ser humano precisa crescer na confiança no único e verdadeiro Deus. Jesus ensina que a confiança no dinheiro é idolatria. Ele mostra que nenhum poderoso deste mundo é Deus. De fato, todos que colocaram a sua confiança no dinheiro e nos poderosos desse mundo caíram por terra.

Hoje é importante compreender que não se trata simplesmente de diferenciar as duas dimensões: a política e a religiosa. O ensinamento de Jesus é para que o seus seguidores sejam livres da dependência do poder econômico e do poder político, pois estes poderes exploram, oprimem e matam outros seres humanos. No Reino de Deus todos têm vida em abundância (cf. Jo 10,10) e existe paz porque todos se respeitam e são solidários. Devolver a Deus o que é dEle é empenhar-se concretamente para defender a vida de todos e construir o seu Reino neste mundo.

Na segunda leitura, São Paulo faz menção às virtudes cristãs: fé, esperança e caridade. Ele elogia os cristãos de Tessalônica por terem deixado os ídolos e abraçado Jesus Cristo para “servir o Deus vivo e verdadeiro”. Este serviço implica a construção do Reino com fé, esperança e caridade.

Os cristãos de hoje são chamados a enxergar a presença de Deus na história e discernir a sua ação para defender seus filhos e filhas das garras dos enganadores deste mundo. O Espírito Santo é a força dos cristãos e de todos aqueles que defendem a vida dos seres humanos e da natureza.

Frei Valmir Ramos, OFM

 

28° Domingo do Tempo Comum: “O Reino é dom gratuito que Deus oferece aos seus filhos e filhas!”

A imagem do banquete era usada já no Antigo Testamento para indicar o “dia da salvação” ou, como vemos na primeira leitura, o dia em que Deus “enxugaria todas as lágrimas… faria desaparecer toda desonra sobre o povo”. Deste banquete participaria todos os povos que, no Evangelho deste Domingo, são aqueles que aceitaram o convite e se vestiram adequadamente, isto é, se revestiram das obras do Reino. O Reino é dom gratuito que Deus oferece aos seus filhos e filhas, contudo, cada um deve responder a esta graça com atitude de coração pobre, de criança que confia, de alguém de busca primeiro o Reino e a sua justiça e faz a vontade do Pai.

Alguns elementos se destacam na parábola de Jesus sobre o banquete: os primeiros convidados não responderam ao convite, pois estavam ocupados com seus compromissos e negócios, ou pior, maltrataram e mataram os mensageiros do Rei (esta é uma menção do que aconteceu com os profetas enviados por Deus e com os primeiros cristãos, perseguidos e mortos pelos judeus e pelos romanos); o Rei “enviou seus exércitos e incendiou a cidade” (menção à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.); todos os outros convidados, “bons e maus” encheram a sala (é menção aos que abraçaram a fé cristã, pobres, doentes e pecadores que se encontravam pelas margens da sociedade); “um homem que não estava vestido com o traje nupcial” (menção daqueles cristãos que pretendem o Reino sem praticar a justiça, o amor e a misericórdia).

O texto completo de Mateus se conclui com a máxima: “muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”. Na Bíblia a eleição ou escolha é um ato gratuito de Deus para constituir um povo santo, consagrado a Ele (cf Dt 26,19). Este povo deveria colocar-se a serviço de Deus que o elegeu e o consagrou. Caso contrário, é possível ver uma “rejeição” no momento do julgamento: “não vos conheço” (cf Mt 25,12), pois os que tinham sido eleitos não praticaram a justiça do Reino e não acudiram aos necessitados.

Para nós cristãos de hoje ressoa o convite de Jesus para participarmos do seu banquete revestidos das obras do Reino. Para isto é preciso despojarmo-nos de qualquer privilégio, da arrogância, da pretensão de sermos justo, da sede de poder e do egoísmo que nos faz pensar somente em satisfazer os nossos próprios interesses.

Frei Valmir Ramos, OFM

27º Domingo do Tempo Comum: “Deus continua vigilante sobre a sua vinha e espera bons frutos!”

Imagem ilustrativa (Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição – OFM)

Jesus usa uma imagem muito conhecida pelos discípulos e pelo povo de seu tempo. É a imagem da vinha usada pelo profeta Isaías na primeira leitura. O profeta fala da vinha como sendo o povo da aliança, o povo de Israel que foi tirado da escravidão do Egito, conduzido pelo deserto até chegar na terra prometida. Deus foi fiel ao empenho assumido na aliança: “eu serei o seu Deus”, mas o povo desviou-se do compromisso de tê-lo como Deus e agir de acordo com a sua vontade. Por isso não produziu uvas boas, frutos bons, que quer dizer, não foi fiel a Deus, foi injusto com o semelhante, usou de violência, foi vingativo, atentou contra a vida dos outros e adorava deuses falsos. O profeta lia a destruição do povo de Israel como consequência de sua infidelidade.

Jesus contextualiza a imagem da vinha para a realização plena da promessa de Deus de enviar o Salvador. Aconteceu que aquele povo não aceitou o empenho de produzir frutos para o Reino de Deus. E, pior ainda, foi egoísta e quis tomar posse da vinha, por isso perseguiu e matou os profetas, mensageiros do dono da vinha. Por fim matou o próprio Filho do dono.

Esta parábola foi contada aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. Quer dizer que Jesus estava diante daqueles que tinham a responsabilidade de guiar o povo para a fidelidade a Deus, para a construção do Reino e para a aceitação de Jesus como o Salvador. Nada disso estava acontecendo e, por isso mesmo, a vinha não seria mais o povo de Israel, mas a nova família de Jesus formada por judeus e estrangeiros que acreditavam Nele e se empenhavam na construção do Reino de Deus.

Esta consequência não pode ser entendida como vingança de Deus, pois Ele sempre espera a conversão de seu povo. Deus continua vigilante sobre a sua vinha e espera pelos bons frutos. Ele continua enviando operários para que a vinha produza bons frutos para o Reino.

Acontece que hoje muitos sinais indicam frutos amargos, gestos egoístas e desprezo pela vida. Podemos constatar isso desde a violência doméstica até ataques contra inocentes em situações de guerra, terroristas ou ainda negligentes que deixam outros morrerem sem cuidados. Ninguém pode dizer que esta é vontade de Deus ou que Ele não intervém. Acontece que Deus deu a vida para todos e deu inteligência para que todos pudessem se amar, se respeitar e, juntos, viver a justiça e construir o Reino onde todos tivessem vida plena em paz e harmonia.

Usar à inteligência para destruir a vida é ser infiel a Deus e aos princípios da humanidade. Por isso, nós cristãos precisamos agir em defesa da vida com empenho constante. Por exemplo, só votar em um político que defende a vida em todos as suas etapas, que é contra a liberação de armas, que defende território aos indígenas, aos quilombolas, aos pobres… pois os políticos fazem as leis que às vezes não defendem a vida mais vulnerável. Deus conta com cada um de nós para que a sua vinha continue produzindo bons frutos e o Reino dele seja uma realidade na vida de todos os povos.

Frei Valmir Ramos, OFM

26° Domingo do Tempo Comum: “O amor de Deus é gratuito e espera de seus filhos e filhas a obediência à sua vontade!”

Imagem ilustrativa (Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição – OFM)

Os evangelistas apresentam uma série de controvérsias de Jesus com os líderes religiosos dos judeus. Normalmente são diálogos em que Jesus propõe uma pergunta e eles respondem contra si mesmos. No texto do Evangelho deste Domingo, Mateus apresenta uma parábola de Jesus sobre a necessidade de conversão para entrar no Reino de Deus, isto é, fazer a vontade de Deus. Citando três personagens, um pai e dois filhos, Jesus mostra um que inicialmente resiste à vontade do Pai e depois a cumpre; outro que é incoerente, pois aparentemente aceita a vontade do Pai, mas não a põe em prática.

O texto é simples e bem claro, fazendo entender que a vinha é o Reino de Deus no qual todos devem trabalhar no “caminho da justiça” ensinado por João Batista. O primeiro filho representa todos os considerados pecadores públicos como é o caso dos “cobradores de impostos (publicanos) e as prostitutas”. O segundo são os líderes religiosos judeus, incluindo “fariseus, saduceus, escribas e mestres da lei”, que conheciam a Palavra, mas não a colocavam em prática, pois ficavam no discurso e perdidos em disputas estéreis. Jesus provocou a ira dos judeus, pois afirmou que os mais desprezados da sociedade os precederia no Reino. Na prática, os judeus não aceitaram que Deus pudesse usar de misericórdia e que os pecadores pudessem mudar de vida. Eles se consideravam “justos” aos olhos de Deus, mas estavam longe de praticar a justiça divina.
O profeta Ezequiel já havia denunciado a pretensão de alguns que chegavam a dizer que “a maneira de proceder do Senhor não é justa”. Eles pensavam a partir da lógica humana que classifica como justo somente aquele que segue a lei, mesmo que fira os mais sagrados direitos das pessoas. O profeta é claro em anunciar a voz de Deus que espera a conversão do pecador para se “afastar do mal e praticar o direito e a justiça”. O amor de Deus é gratuito e espera de seus filhos e filhas a obediência à sua vontade.
O Mestre Jesus é o grande sinal de obediência à vontade do Pai. Na carta aos Filipenses temos o testemunho: “Jesus que era de condição divina… assumiu a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens… humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz”. O Pai não queria a morte de Jesus, mas os homens não entenderam o seu projeto e usaram a lei para condená-lo à morte. Com a ressurreição, porém, Jesus saiu vencedor da morte, da violência e de toda forma de aniquilamento da vida.
Os cristãos de hoje são chamados a espelhar-se no Mestre, ouvir e colocar em prática a vontade de Deus, realizando a palavra de São Pedro: “obedecer a Deus antes que aos homens” (cf At 5,29) e tomando sempre o caminho da conversão constante.

Frei Valmir Ramos, OFM

25° Domingo do Tempo Comum: “A lógica de Deus é a aquela da Justiça Misericordiosa!”

Imagem ilustrativa (Fonte: Agrosaber)

A parábola do Evangelho deste Domingo indica a lógica do Reino de Deus. De fato, Deus pensa diferente dos seres humanos. Ouvimos isto na primeira leitura tirada do livro do profeta Isaías: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos… meus pensamentos estão acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra”. A lógica de Deus é aquela da justiça misericordiosa que olha para cada filho e cada filha com suas necessidades, enquanto a nossa lógica é aquela da retribuição.

Além disso, nós consideramos que somos mais merecedores que os outros e, às vezes, somos tomados pela inveja.Nesta parábola dos trabalhadores da vinha, Jesus usa um exemplo do cotidiano para indicar ao menos três realidades do próprio Deus. Primeiro indica que Deus é justo e misericordioso, isto é, Ele está sempre presente na vida de seus filhos e filhas e não admite a miserabilidade; depois que Deus não faz distinção de pessoas e chama a todos para a sua vinha, isto é, chama a todos para a construção do seu Reino neste mundo; finalmente, que Deus age com o coração, isto é, retribui a cada um não de acordo com o merecimento, mas de acordo com sua misericórdia.

A parábola termina com o versículo 15, mas o evangelista acrescentou o 16: “os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”. Este acréscimo insere a parábola no contexto da nova família de Jesus, a Igreja, que acolhe a revelação do Filho de Deus feito homem para salvar a humanidade. Os judeus foram os primeiros a receber a revelação, mas os cristãos acolheram-na por primeiro. Com a morte e ressurreição de Jesus, são seus discípulos que deverão continuar construindo o Reino neste mundo para participar dele na eternidade. Por isso lemos na segunda leitura: “para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Aqueles que se empenham na construção do Reino sabem que a morte não será o fim, mas o início da vida eterna com Deus.

Para os cristãos de hoje, esta parábola é um apelo para agir com os outros com justiça e misericórdia. Por exemplo, aceitar que quem está desempregado, mesmo trabalhando apenas a “última hora da jornada” receba uma diária, pois ele precisa comprar o pão para si e para os filhos. Aceitar que os pobres possam usufruir dos mesmos meios e recursos tecnológicos da área da saúde quando estiverem doentes. Em âmbito mais restrito da comunidade cristã, divulgar todo bem e todos os elogios ao bem que se faz e não apenas o malfeito. Finalmente, aceitar que Deus é justo e misericordioso com cada filho e cada filha.

Frei Valmir Ramos, OFM