Uma ferida de amor

Imagem Ilustrativa (Fonte): Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Lá vai ela, a vida, lá vai ela passando, sem pedir  nossa anuência, Ela nos carrega no seu bojo. Eu e a vida. A vida em mim. Passamos,  como ela passa.  Deixamos traços e marcas nas areias dos tempos que percorremos, ao longo das estações que nos metamorfoseiam. Lágrimas que vertemos, sorrisos que iluminaram nossos rostos, braços que nos seguraram, palavras carinhosas que foram sussurradas aos nossos ouvidos, dores e arrependimentos.  Tudo faz parte de nossa vida.

Nas voltas e esquinas da caminhada andamos tentando  colocar-nos à escuta de uma Voz que vinha lá de dentro de nós ou de alhures. Uma Voz que falava sem palavras.  Andamos querendo ser do Mistério. Quisemos ou queremos que o Senhor  possa marcar nossos dias, colorir nossos sonhos, dar-nos a mão para viver.  Continuamos a buscá-lo sentando-nos  num canto da sala, estirados na grama, folheando as páginas dos evangelhos. Queremos que ele, esse do Coração aberto,  nos persiga. Ou  que nunca deixemos de andar à sua procura.

Quem é esse  Altíssimo e Bom Senhor? Deus em Jesus se tornou um recém-nascido deitado numa manjedoura, um pequerrucho de olhos fechados, chorando, pedindo o peito da mãe, incomodado por ter deixado o ninho quente onde estava antes.  Um Deus que, aos poucos, abre os olhos, vê pessoas à sua volta, que aprende a sorrir, que se encanta com uma bola em seu berço. Um Deus tão pertinho. Deus num recém-nascido.

Fomos entendendo que Deus quis ser nosso companheiro de estrada e que em Jesus  andou  mostrando  um pouco do seu Mistério. Não falou  tanto de onipotência e de poder, mas de coisas mais simples, uma presença próxima.  Querendo estar perto,  sempre mais perto.  Misturando sua vida com  nossa vida.  Colorindo nossos dias.

Aos poucos, seus gestos e suas falas, suas posturas e suas revoltas, seu olhar e seus gestos  foram nos encantando.  Em Jesus,  Deus se tornou próximo de nós e foi dando viço  à nossa vida e andamos e continuamos a contemplar um  Deus que ama. Francisco de Assis  se extasiava diante do  Menino das Palhas: “Quero evocar a lembrança do Menino que nasceu em Belém e todos os incômodos  que sofreu desde a sua infância;  quero vê-lo tal qual era deitado numa manjedoura  e dormindo sobre o feno entre um boi e um burro” (2Celano 84).

Um dia, bem mais tarde, elevado  entre o céu e a terra, já tendo dado a vida ,  Jesus teve o lado, seu peito aberto. O Menino das  Palhas, no alto a cruz,  haveria de ter uma fenda no Coração.  Uma ferida de amor.

Frei  Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

“Sem sede, somos dominados pela apatia”

Imagem Ilustrativa (Fonte): Museu de Arte Sacra da Bahia

Sim, somos seres de desejo. Não podemos não ser seres de desejo. Às vezes damos a impressão de termos dessedentados não nossa sede de água, mas a de viver densamente. Na verdade nada está pronto, tudo está inacabado, precisa ser retomado. Em muitos momentos irrompe dentro de nós a certeza do amor do Senhor. Por vezes, quando nos sentimos meio paralisados interiormente, relemos a Paixão de Jesus e agarramo-nos nos braços do discípulos de Emaús até o momento em que eles entraram na estalagem e o Senhor partiu o pão. Ora, cada primeira sexta-feira do mês, para nós, é uma chamada, um despertar: “Vejam se existe um amor igual ao meu”, nos diz o Senhor.

Esta reflexão se baseia em José Tolentino Mendonça (Elogio da Sede, p. 55-57). Sede de descobrir mais densamente o Deus que se revela no olhar, nos gestos, nos silêncios, nas parábolas, nas reações de Jesus. Não ficar apenas na religião do Creio em Deus Pai todo poderoso… Sede de vislumbrar meios e modos de esvaziar-nos de nossos pequenos interesses. Sede de saber a razão pela qual fomos inventados e quais as trilhas mais acertadas a serem percorridas para satisfazer essa urgência de amar e ser amado. Sede de viver para… Não podemos ser dominados pela apatia.

A contemplação do peito aberto do Senhor deve nos curar de certo tipo de depressão. Kierkegaard escreve em seu diário: “Estranha inquietação essa que me aprisiona. Parece que a vida que vivo não seja a minha, mas corresponda ponto por ponto a uma outra pessoa sem que eu possa fazer o que quer que seja para impedi-lo… Não tenho vontade de nada. Não me apetece caminhar, pois isso cansa-me; não me apetece deitar-me porque ou deverei passar muito tempo deitado e não me convém; ou levantar-me depressa e isso aborrece-me; e nem pensar em cavalgar, é um exercício duro demais para minha apatia”.

“Quando desistimos de desejar, de achar sabor nos encontros, nas conversas partilhadas, nas trocas, na saída de nós mesmos, nos projetos, na própria oração. Quando diminui a nossa curiosidade pelo outro, a nossa abertura ao inédito e tudo nos soa um requentado déjà-vu que advertimos como um peso inútil, incongruente e absurdo que nos esmaga. Parece então que passamos a viver com uma tabuleta na frente que diz: “Não estou, ou não quero estar, ou não consigo estar com ninguém”.

Jesus, no alto da cruz, teve sede. Sede de água. Sede da atenção cordial das pessoas. Que nos tenhamos sede dos borbotões de vida que jorram do mais belos dos homens e que esta água nos arranque da apatia.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Sem lágrimas endurecemos o coração

Imagem (Fonte): Piero Casentini

Os evangelhos nos falam de três momentos em que Jesus chorou: diante do empedernimento de Jerusalém, junto ao túmulo de Lázaro e no Jardim das Oliveiras. Deus chora pelas lágrimas de Jesus. Nos três casos estamos diante de lágrimas que exprimem uma dor interior muito forte. Há muitas lágrimas que são sinais de dor e outras que expressam um grato acontecimento ou um agradável surpresa. Estas são lágrimas de alegria. Francisco de Assis chora diante do amor do Senhor na cruz e lamenta aos prantos por todos os cantos: “O amor não é amado”.

Um autor diz que Deus recolhe nossas lágrimas e as junta ao seu coração. Quantas lágrimas em toda a face da terra: nos leitos dos hospitais, nos cárceres e nos asilos de idosos, nas salas de espera de médicos e nos campos de guerra. Lágrimas, tristezas, dores lancinantes e outras menos violentas mas que não passam. Casamentos desfeitos, seres em depressão, crianças violentadas, lágrimas. Quem as verá e quem poderá enxugá-las?

“De todas as expressões da emoção humana no léxico da vida, chorar pode ser a mais funcional, a mais profundamente versátil. As lágrimas que choramos nos mostram nossos selves (eu) mais profundos, necessitados e íntimos. Nossas lágrimas nos expõem. Nos desnudam tanto para os outros quanto para nós mesmos. O que nos faz chorar é aquilo com que nos importamos. As coisas para as quais não temos lágrimas endurecem o coração” (Joan Chittister).

Lágrimas de Jesus, nossas lágrimas. Há momentos em nossa vida em que tomamos consciência de um conjunto de ações e de um pano de fundo de vida tal em que ignoramos a proximidade do Senhor. Fizemos de conta que não ouvíamos os seus passos. Buscamos nossos caminhos ao nosso jeito. Essa consciência de estarmos desperdiçando o tempo da vida, a dor de termos deixado de lado os jogados à beira da estrada sem um carinho, sem lhes dar um pedaço do tempo de nossa vida, a ingratidão para com Aquele que sempre dizia nos amar pode e deve nos levar ao arrependimento a ao pranto. Benditas lágrimas. Nossa vida pode, então, ser um perpétuo “molhado” e belo ato de contrição. As lágrimas limpam os nossos olhos e passamos a enxergar.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

O Coração, lugar de mistério e comunicação

Imagem ilustrativa (Fonte): Catholic Pictures (https://www.cathopic.com/)

As reflexões das primeiras sextas-feiras de cada mês sempre nos reconduzem ao mistério de Cristo Jesus. Como é bom pensar nele, partilhar a vida com ele, deixar que sua Palavra nos ensope e que seu Pão nos nutra, olhar o mundo a partir de seu jeito de olhar e, sobretudo, nunca perder o senso de assombro diante de seu Coração aberto. O nosso coração se encanta com seu Coração.

O coração humano é, ao mesmo tempo, centro pessoal e espaço de Presença, lugar de mistério e de comunicação. Entrar em nosso coração, uma interioridade habitada, significa fazer espaço para um Alguém, esse Outro. Entrar no coração é penetrar no santuário do relacionamento e da intimidade amorosa com a Alteridade mais radical, com sua vida que se derrama em nossas entranhas e em todo o nosso ser.

“Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Esse encontro, esse olhar, essa palavra silenciosa dita ao coração, transforma-nos radicalmente. A interioridade se torna um acontecimento da graça. Um autor afirma: quem está nessa dimensão do interior pode perfurar a realidade, as coisas, as pessoas, os relacionamentos tal como Deus os vê. Os que sabem viver escondidamente sob o olhar do Pai a todos têm como irmãos.

Esse penetrar no mais profundo não acontece com o mera ação de nossas potencialidades. Nem se trata de querer alcançar um especialmente elevado nível de consciência. Depende de abrir caminho. Não pensar-se a si mesmo como merecedor de favores. Sem atos de humildade mentirosos; é questão de ser ter consciência diante de Deus de nossa situação de mendicância. Mendigos, no entanto, com seu mistério pessoal visitado pela graça. Mendigos amados pelo Senhor.

Convém lembrar que esse movimento de interioridade é inseparável da saída, saída pelos caminhos, tendo nos olhos o brilho das visitas do Amado. Sair, sair em missão e para a missão. Isto se torna urgente quando o apelo vem do Coração e atinge nosso coração. Um autor diz que Jesus vive por dentro e por fora. Não somos seres fechados numa interioridade narcisista. Os homens que deixam seu interior ser visitado pelo amor são os melhores missionários.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Viemos do amor e para o amor nos dirigimos

Fonte (Imagem): El Greco (Wikimedia Commons)

Quando tentamos compreender a Deus (compreender o incompreensível!), vemo-lo como fonte de todo o ser e, ao mesmo tempo, aquele que ama com paixão. Bento XVI, na Deus caritas est, quando começa a dissertar sobre o Mistério de Deus escreve: “…por um lado, nos encontramos diante de uma imagem estritamente metafísica de Deus: Deus é absolutamente a fonte originária de todo ser; mas esse princípio criador de todas as coisas, o Logos, a razão primordial – e, ao mesmo tempo um amante com toda paixão de um verdadeiro amor” (Deus caritas est, n.10).

Somos buscadores do Mistério, peregrinos do Altíssimo, gente que tem perguntas a arder no peito. Triste quando acabam as perguntas que queimam a garganta e ficam apenas respostas secas, frias e mortas, sempre soluções do momento, provisórias. E a gente se acostuma com as respostas que se coloca em caixinhas fechadas. Não há mais surpresas. O problema da religião está resolvido. Não se fala mais. Vai assim e pronto.

Os homens e mulheres de todos os tempos sempre sentiram saudade de Deus. As Escrituras falam dessa presença do Deus amor. Oseias nos leva para o deserto, somos a esposa que o Esposo atrai. Ele quer falar ao nosso interior. Núpcias de amor. E amam os que fazem delicadamente a sua vontade. Buscar a Deus, viver com Deus é escrever a dois e a muitos uma história de amor.

“Como te abandonarei, ó Efraim? Entregar-te-ei, ó Israel? O meu coração dá voltas dentro de mim, comove-se a minha compaixão. Não desafogarei o furor de minha cólera, não destruirei Efraim; porque sou Deus e não um ser humano, sou o santo no meio de ti” (Os 11, 8-9).

Viemos do amor e para o amor nos dirigimos. O Deus belo que procuramos no silêncio das grutas, na límpida e persistente leitura das Escrituras, o Deus que resolveu ter carne, ser gente, beber de nossas fontes e sonhar nossos sonhos, nasce e é colocado numa estrebaria. Vive falando do Pai, falando com amor sem controle. Morre na cruz. Que mais poderia ter feito? Quer saber a razão de uma certa e grande indiferença de nossa parte.

O segredo de uma vida profundamente feliz só é possível quando se consegue entabular um diálogo com aquele cujo coração dá voltas dentro do peito.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

O Senhor não está nas grandiloquências

Imagem: A gruta do presépio em Greccio

Sempre de novo Cristo, Cristo Jesus, o Verbo feito carne, a imagem de Deus, aquele que entrega sua vida para a vida do mundo, a encarnação da bondade, que tem o peito tocado pela lança do soldado que abre uma fresta no seu íntimo mais íntimo. Aquele que queremos seguir.

Deus… muitas vezes o imaginamos em termos de grandeza. Ele é infinito, onipotente, omnisciente, aquele que controla os passos e volteios do homem. Quando lemos o episódio de Elias na gruta do Horeb vemos o contrário. O Senhor não está no vento impetuoso, no terremoto, mas na brisa suave. Certamente, ele é o inefável, o infalível, o portentoso, o criador, mas aparece diante de nós, em Cristo Jesus, sem grandiloquências e para Francisco de Assis um Deus que fez belamente pobre. Vamos ver como David de Azevedo (São Francisco, Fé e Vida, Ed. Franciscana de Braga, p. 74-65) encara o tema:

“Há uma alteza mais sublime na nobreza da alma, do que na imponência de um imperador rodeado de fausto e de cortesãos. A glória da verdade está em sua nudez indefesa. Quando a pretexto de defender a verdade, se faz recurso à propaganda, à pressão e à força – venha de onde vier – do medo, do prestigio, do dinheiro -, a verdade perdeu a sua glória. A glória que era dela, só dela”.

Estamos acostumados sempre a atribuir a Deus predicados no superlativo e em outras áreas. “Para nós teria mais valor que São Francisco curasse o leproso da doença do que chegasse como chegou, ao gesto de o beijar. Seria mais impressionante que Maximiliano Kolbe libertasse todos os prisioneiros de Auschwitz, que desse, como deu a sua vida em troca de um deles. Somos mais sensíveis ao milagre ou a outra manifestação do poder de Deus do que à gloria do seu amor”.

E agora os argumentos definitivos em prol da “fragilidade” de Deus. “O poder de Deus é muito mais assombroso no presépio de Belém do que na criação do universo. A glória do Senhor é muito maior no acontecimento do Calvário do que na imensidade e harmonia das galáxias. A Eucaristia é um prodígio infinitamente maior do que a ressureição de Lázaro. E nestes mistérios, concretiza-se o amor e a ternura de Deus”.

Podemos encontrar Deus pelo caminho da razão, mas há um outro “caminho mais prometedor: a candura da criança, a ternura do coração materno, a bondade humilde da enfermeira, o sorriso de um canceroso desenganado pelos médicos e, sobretudo, a dignidade, a bondade, o amor e a inocência de Jesus.”

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Fazer da morte a derradeira oferta

Imagem ilustrativa (Fonte: Catholic Pictures)

Não gostamos muito de ouvir falar e ou de escrever sobre o tema da morte. A palavra nos assusta. A morte de familiares e amigos costuma levar consigo um pedaço de nós mesmos. Nossa sociedade prefere ocultar sua realidade. O homem parece ter vergonha de ainda não vencer a tarefa desta teimosa inimiga. Nossos doentes, sobretudo os mais idosos, são internados, por vezes intubados e, quando morrem, há rápidos velórios. As imagens dos mortos durante a pandemia estão vivas dentro de nós. Cada primeira sexta-feira é, para nós, ocasião de contemplar o peito aberto de Jesus pela lança do soldado. Nunca perdemos de vista que a morte de Jesus nos redimiu, nos deu vida.

A morte de Jesus, segundo o quarto evangelista, tem entre outras características ser cumprimento de amor que já fora profetizado no gesto de deposição das vestes para inclinar-se diante de seus discípulos e lavar os pés deles. João tinha introduzido a cena do lava-pés com estas palavras: “Sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora de passar desse mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). A cruz aponta para uma vida doada até o fim, até o ponto de não haver retorno. Jesus doa a vida por seus amigos mas também por seu inimigo que continua no meio dos apóstolos e que já tem em mente a traição (cf. Luciano Manicardi, O humano sofrer, CNBB, p. 131-132).

Não somos pessoas que paramos na morte do Senhor. Somos seres novos, ressuscitados. Reunimo-nos muitas vezes para celebrar a presença do Ressuscitado entre nós. Há um júbilo em nosso interior quando participamos da Eucaristia e ouvimos o relato do corpo dado e do sangue derramado. Fica bem, no entanto, que acerquemos carinhosamente da morte/entrega do Senhor para sempre ter consciência do quanto valemos aos olhos do Senhor.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

“Escutar com o coração”

Imagem ilustrativa (Fonte: Canva)

Jacques Leclerc, sacerdote francês, exerceu seu ministério presbiteral, ao menos por um tempo, na Catedral de Notre Dame de Paris infelizmente seriamente prejudicada por terrível incêndio. Assim, Leclerc fala do tema do encontro, da experiência de estar na Catedral e de ouvir os rumores das “velhas pedras”.

“Desde que exerço meu ministério de padre em Notre Dame de Paris, dou o testemunho de que nossa catedral é privilegiado local de encontro. Desde então, me dei conta que basta um coração ávido para ouvir o rumor das velhas pedras, suas confidências e declarações. Para tanto necessário chegar ao silêncio puro que existe em nós, para além do tempo, talvez um instante fugidio, proporcionado à consciência em que cada um se descobre com suas chagas, seus impulsos, seu desejo, seus acertos e desacertos, cada um com seu pecado secreto. Entrando será fundamental tirar as máscaras, e ter no côncavo das duas mãos sua verdade como uma chama frágil. Preciso será calar e fazer com que o silêncio pessoal venha a se confundir com este vasto silêncio que é a presença unânime e a consciência de uma catedral” (Jacques Leclerc, Debout sur le soleil, Seuil, Paris, p.75-76).

Catedral, templo, lugar encontro, de encontro consigo e com sua verdade, tirando maquiagens, adereços, tirando as sandálias dos pés. Nossa verdade como uma chama bem frágil. O silêncio, aqueles mistérios, as alturas, os vitrôs com incandescentes e suaves matizes, os sons do órgão com um suave adágio de Albinoni. Vamos escutando os sons de nosso eu mais profundo, do coração. As batidas do coração parecem se acelerar. Silêncio, olhos fechados.

Nosso silêncio se mistura com o silêncio imenso do espaço. As pedras querem falar… de tantos de perto e de longe que ali entraram, carregados de dores e revoltas, de chagas e feridas que resistiam a se fechar, de cânticos de louvor e de queixumes, de melodias natalinas e de lamentos da sexta-feira das dores. De missas solenes e simples eucaristias celebradas nas capelas laterais. Dar tempo ao tempo. Deixar que as velhas pedras… falem… Deus reflete-se em tudo. Talvez ainda um derradeiro olhar para o Crucificado, parábola viva do amor de Deus: “Eu te quero bem…vai em paz!” E, quem sabe, não podendo controlar uma lágrima com tudo o que ouviu das velhas pedras.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil