12 de outubro: Uma prece pelas mulheres e crianças à negra Mariama de Aparecida!

Imagem (Fonte): Acervo – Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Frei Jacir de Freitas Faria [1]

A cada 12 de outubro, o Brasil católico celebra o dia sua padroeira, Nossa Senhora Conceição Aparecida, e dia das Crianças. Mãe e crianças estão no mesmo patamar. A experiência de Deus como mãe já começa no útero materno. Não vemos o seu rosto, mas Ele/Ela está ali nos alimentando e nos protegendo. A vida pueril uterina é tão boa que a criança nem quer sair dele. Por isso, o nascimento de uma criança é marcado pelo choro de medo, de pavor diante do mundo desconhecido e violento que a espera. Quem irá interceder por ela?

Na Bíblia há vários textos que fazem referência ao ser de Maria como mãe de seu Filho Jesus. Ressalto os textos de Jo 2,1-11 e o de Ap 12. No primeiro, Maria inaugura, segundo a comunidade Joanina, a vida pública de Jesus com o milagre das bodas de Caná com a sua intercessão por vinho para todos. No texto de Apocalipse temos a imagem de uma mulher vestida de sol que gera uma criança que é perseguida por um Dragão, a Besta do Apocalipse. Que relação existe entre esses relatos com a o nosso tempo presente?  Interceder a Maria ou é ela que intercede por nós?

Estamos diante de dois acontecimentos semelhantes: o das bodas de Caná e o de Aparecida do Norte. Ambos têm em comum, na sua origem, uma festa. Jo 2,1-11 relata o terceiro dia de uma festa de casamento que durava sete dias, na pequena Caná da Galileia. Jesus e Maria eram convidados. O vinho tinha acabado. Jesus, a pedido de sua mãe, transforma a água em vinho, de modo que a festa pudesse continuar. No milagre de Aparecida, trata-se de uma festa que os donos de fazendas do vale do Paraíba queriam oferecer para o futuro governador das capitanias de São Paulo e Minas de ouro, Dom Pedro Miguel de Almeida Portugal, que estaria de passagem pela região, naquele então mês de outubro do Brasil Colônia. Os senhores fazendeiros da região exigiram e ordenaram a três pobres pescadores, Filipe Pedroso, Domingos Garcia e João Alves, que pescassem todos os peixes possíveis no rio Paraíba do Sul para serem oferecidos na festa. Era o ano de 1717. Uma noite inteira de pesca, e nada. No fim da noite, uma imagem quebrada de Nossa Senhora da Conceição é pescada por João Alves em dois momentos: primeiro, o corpo e, depois, a cabeça. Logo em seguida, quando a rede é lançada novamente, ocorre o primeiro milagre: uma rede abarrotada de peixes que garantiria a festa no povoado e livraria os pescadores de castigos.

A Nossa Senhora da Conceição Aparecida realizou outros quatro milagres: o das velas da sua capela que se apagam e se acendem sem intervenção humana; o das correntes do escravo fugitivo que se abrem; o das patas de um cavalo que grudam nas escadarias da igreja, quando seu cavaleiro queria desafiar a santa, entrando no recinto sagrado; e o da menina cega que foi curada.

Com o evento de Aparecida, Maria passou a ser presença na história do Brasil. Foi a Princesa Isabel que ofereceu, de presente, manto e a coroa para a imagem de Aparecida. Já o Papa Pio XI, em julho de 1930, a condecorou com o título de rainha e padroeira do Brasil.

O que importa aqui não são os milagres, nem o de Caná e tampouco o de Aparecida, mas o significado deles. Caná inaugurou uma nova etapa na vida do filho adulto por causa da intercessão da mãe. Em Aparecida, a mãe Aparecida trouxe vida para os negros e pobres pescadores. Ela lhes devolveu a possibilidade de continuarem a festa da vida com a abundância de peixes, isto é, a sobrevivência em tempos de escravidão. Os senhores fazendeiros continuaram com a escravidão, mas a Senhora de Aparecida estava ali para ampará-los e ajudá-los na resistência.

Ainda hoje, os romeiros que vão ao Santuário de Aparecida clamam a sua intercessão junto a Deus não para ele, mas o parente, o filho, para todos. Na saudosa memória do profeta e pastor, Dom Helder Câmara (1909-1999), peço a Nossa Senhora Aparecida, fazendo uso de suas palavras poéticas e proféticas: “Mariama, Nossa Senhora, mãe de Cristo e Mãe dos homens! Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra. Pede ao teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver. Mariama, Mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos. Mariama, Senhora Nossa, Mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias. Nem pobre nem rico. Nada de escravo de hoje ser senhor de escravo de amanhã. Basta de escravos. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos.”

Permita-me, Dom Helder, sem ser ousado, acrescentar à sua oração uma prece pelas mulheres e crianças: Negra Mariama de Aparecida, converta a nossa Igreja. Que ela saiba valorizar a presença das mulheres como rosto materno de Deus. Sem elas, a Igreja nada seria, mas é triste ver “homens de batina” subjugando-as aos seus caprichos do altar e da discriminação. Que todos possamos entender que o ser mulher não é somente o feminino, mas é a vida que gera vida em abundância. Basta de misoginia, de machismo e de feminicídio. Negra Mariama de Aparecida, ajude-nos a libertar dos Dragões do nosso tempo, sobretudo os que são capazes de usar, em seus comícios, uma criança fardada de trajes militares apontando armas para defender o seu projeto político genocida. E como o senhor, Dom Helder, profetizou, repito suas palavras: “que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é paz.” E permita-me ainda acrescentar: que as nossas crianças cresçam em sabedoria, no aconchego do amor e da ternura do ser mãe de homens e mulheres. Livre-as dos pedófilos de Igreja e fora dela que roubam a inocência de suas infâncias. Mariama, interceda a Deus pelo nosso Papa Francisco que, em relação aos menores vítimas abusos sexuais cometidos por padres e religiosos, na França, disse estar muito triste pelas feridas causadas e grato com as vítimas que tiveram coragem de denunciar. Negra Mariama de Aparecida, livre nossas crianças também da violência das armas que ronda as nossas cidades e vilas, do Oiapoque ao Chuí, nas “Brasílias” que rodam nas estradas do Brasil. Cubra-nos com teu manto de Mãe. Amém!

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil


[1]Doutor em Teologia Bíblica pela Faje (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apocrifos – Canal – Frei Jacir

Cardeal Odilo: Uma experiência de sinodalidade

Cardeal Odilo Pedro Scherer – Arcebispo metropolitano de São Paulo

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo (SP)

No domingo, 10 de outubro, o Papa Francisco abre em Roma o processo de preparação da próxima assembleia ordinária do Sínodo dos Bispos. É a primeira vez que o Papa convoca a Igreja inteira a participar da preparação de uma assembleia do Sínodo, que vai ser realizada só daqui a dois anos, em outubro de 2023.

O tema, já definido para aquela assembleia, é a própria sinodalidade da Igreja, ou seja, um jeito de ser da Igreja e de interagir e se relacionar internamente. Muitas vezes, o Papa Francisco tem criticado o clericalismo, como sendo um grande mal na Igreja. Num certo tipo de clericalismo, toda a vida da Igreja fica concentrada no clero, e a própria Igreja é identificada com o clero. Outra forma de clericalismo é quando o povo fica passivo na Igreja e se considera apenas como beneficiado da Igreja. Ambas as formas de clericalismo tiram a vitalidade e o dinamismo da Igreja. Com a sinodalidade, o Papa está propondo o contrário do clericalismo.

A sinodalidade é uma maneira de ser e de agir da Igreja, na qual se entende que somos todos, antes de tudo, o povo que Deus Pai reúne mediante o envio do Filho ao mundo e a ação do Espírito Santo. Na Igreja, todos são imensamente agraciados pelo amor misericordioso de Deus. A Igreja, povo de Deus e comunidade de discípulos de Jesus, é chamada a viver a alegria do Evangelho, testemunhando a vida nova que o Espírito Santo suscita na comunidade dos fiéis. Também o clero é parte do povo de Deus, ao qual é chamado a servir em nome de Jesus Cristo. E cada membro da Igreja contribui para a vida e a missão dela com seu próprio dom. Não têm todos o mesmo dom, nem fazem todos a mesma coisa. O dom e a participação de cada um na Igreja são importantes, e ninguém deve ficar simplesmente passivo e desinteressado.

Deseja o Papa que a preparação da próxima assembleia do Sínodo conte com a participação de toda a Igreja. O tema completo do Sínodo – “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” – traz três dimensões importantes de uma Igreja sinodal. A comunhão é marca irrenunciável da Igreja, que precisa ser cultivada e promovida entre seus membros e, também, com os que não fazem plenamente parte dela. Sem a comunhão, a Igreja não seria aquela que Jesus Cristo desejou. Ninguém está na Igreja apenas para se autopromover, ou para assegurar vantagens individuais para si. Na comunhão eclesial está um dos segredos da força e da eficácia do testemunho da Igreja.

A participação decorre da comum dignidade dos batizados, membros da Igreja, e da diversidade dos dons e carismas recebidos no Batismo e na Crisma. Todos têm o direito de receber os benefícios da vida e ação da Igreja, e todos têm o dever de participar, cada um à sua maneira, da vida e missão dela. E a missão da Igreja envolve todos os batizados, e não apenas alguns. Somos um povo de discípulos missionários de Jesus Cristo e testemunhas do seu Evangelho no mundo. A missão da Igreja pode ser assumida e desempenhada de múltiplas maneiras pelos batizados.

A missa do Papa Francisco, em Roma, contará com a participação de uma representação da Igreja de cada continente. Simbolicamente, esses participantes serão enviados “a todas as nações”, para que o processo sinodal seja feito em cada país, nas comunidades e múltiplas expressões da vida eclesial. Há um roteiro para essa participação, já disponibilizado para todas as dioceses, que deverão desencadear o processo sinodal em suas comunidades, que já começa no dia 17 de outubro: em cada diocese do mundo, o bispo celebra com seu povo e dá expressão concreta a esse processo sinodal.

Das dioceses, o trabalho passa para as Conferências Episcopais a partir da Páscoa de 2022. Em seguida, o processo sinodal passa às organizações continentais da Igreja. Ainda em 2022, a Secretaria do Sínodo dos Bispos, em Roma, receberá o fruto desse processo sinodal e o encaminhará à assembleia do Sínodo dos Bispos, de 2023. É uma experiência eclesial nova que, com certeza, trará bons frutos. O Espírito Santo continua a agir, “renovando a face da terra”.

Fonte: Vatican News