Sete de setembro: mentira e verdade se encontram na parábola da vida

Imagem ilustrativa (Fonte): Canva (www.canva.com/pt_br/modelos)

Frei Jacir de Freitas Faria [1]

Neste 7 de setembro tão importante para a nação brasileira, me vem à mente uma parábola, uma história, criada no século XIX, mas atualíssima. Trata-se do encontro da verdade com a mentira.

A história é a seguinte: um belo dia a verdade e a mentira se encontraram. A Mentira disse à Verdade: “Hoje o dia está maravilhoso!” A Verdade olhou para os céus e suspirou, pois o dia estava realmente lindo. Elas passearam muito tempo juntas, chegando finalmente ao lado de um poço. A mentira disse à verdade: “A água está muito boa, vamos tomar um banho juntas!” A verdade, mais uma vez, desconfiada, testou a água e descobriu que realmente a água estava muito boa. Elas se despiram e começaram a tomar banho. De repente, a Mentira saiu da água, vestiu as roupas da Verdade e fugiu. A Verdade, furiosa, saiu do poço e correu para encontrar a Mentira e pegar suas roupas de volta. As pessoas, vendo a verdade nua, desviavam o olhar, com desprezo e raiva. A pobre Verdade, depois de muito tempo procurar, voltou ao poço e desapareceu para sempre, escondendo nele a sua vergonha.

Desde então, a Mentira viaja ao redor do mundo, vestida como a Verdade, satisfazendo as necessidades da sociedade, porque percebeu, em todo caso, que Mundo não nutre nenhum desejo de encontrar a Verdade nua e crua, prefere a Mentira com as roupas da verdade.

Outro final dessa história diz que a verdade, quando voltou ao poço, recusou-se a vestir a roupas da mentira e, sem ter que se envergonhar, a verdade saiu nua a caminhar pelas ruas e cidades. Por isso, desde então, para muita gente é mais fácil aceitar a mentira com a roupa da verdade, do que aceitar a verdade nua e crua.

Gostou? Jean-Léon Gérôme, em 1896, eternizou essa parábola com sua pintura: “A Verdade saindo do poço”. E agora eu lhe pergunto: não está na hora de sairmos desse poço de águas enlameadas pelo genocídio, agressões aos poderes estabelecidos, injustiça, fome e miséria? Sair com roupa ou sem roupa? Sair para apoiar a mentira ou a verdade? A mentira que roubou as nossas roupas anda por aí vestida de verde e amarelo. E o que é pior, manipulando a verdade do evangelho que diz: “Conhecereis a verdade, e ela vos libertará” (Jo 8,32).

Aonde chegamos? Um Brasil de impávido colosso às margens de sectarismos, fascismos, radicalismos e tantos ismos de intolerância política e religiosa. Até quando a mentira ficará solta, transvertida de verdade, vivendo nos palácios construídos nos planaltos e sobre a miséria, a fome de 20 milhões de brasileiros, nas planícies de um gigante pela própria natureza, que exclui, dizima, seus filhos da primeira hora, os indígenas. A escolha é sua! Como pede-nos o presidente da CNBB, Dom Walmor: “não se deixe convencer por quem agride os Poderes Legislativo e Judiciário. Independentemente de suas convicções político-partidárias, não aceite agressões às instituições que sustentam a democracia”. Você prefere a mentira com a roupa da verdade ou a verdade nua e crua? Pare, pense e reflita.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil


[1]Doutor em Teologia Bíblica pela Faje (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Último livro: O Medo do Inferno e arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apocrifos. Canal – Frei Jacir

Vida em primeiro lugar: Grito do Excluídos chega à 27ª edição

Nesta terça-feira (7), no Dia da Independência, manifestações acontecerão em diversas cidades brasileiras, em mais um Grito dos Excluídos e das Excluídas. Nestes 27 anos de história, o Grito mudou a cara do 7 de Setembro e da Semana da Pátria, chamando o povo para descer das arquibancadas dos desfiles cívicos e militares e participar, ativamente, na luta por seus direitos, nas ruas e praças, nos centros e nas periferias de todo o Brasil. Para ecoar seus gritos de denúncia e de anúncio de um projeto de país mais justo e igualitário, na defesa da dignidade da vida em primeiro lugar.

Em 2021, na sua 27ª edição, o Grito dos Excluídos e das Excluídas tem como lema: “Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda, já!”.

“Estar nas ruas é um ato democrático e, na Semana da Pátria, é um tempo favorável para seguirmos firmes nessa defesa”, anuncia a coordenação do Grito.

“O Grito dos Excluídos e das Excluídas é um processo de construção coletiva, é muito mais que um ato. Por isso, nossa luta não se encerra no dia 7 de Setembro. Nossa luta é uma maratona, não é uma corrida de 100 metros. O Grito é uma manifestação popular carregada de simbolismo, espaço de animação e profecia, sempre aberto e plural de pessoas, grupos, entidades, igrejas e movimentos sociais comprometidos com as causas da população mais vulnerável”, acrescenta o comunicado da coordenação.

Em Manaus, o Grito está sendo organizado pelas Pastorais Sociais da Arquidiocese de Manaus e a Caritas Arquidiocesana de Manaus. Nesta quinta-feira 2 de setembro, o Grito foi apresentado em coletiva de imprensa, com a presença da mídia local.

“Nos últimos anos, temos visto a importância de termos dentro da nossa sociedade uma manifestação para que as pessoas excluídas tenham de novo vez”, afirmou Dom Leonardo Steiner na apresentação do Grito dos Excluídos e Excluídas. Segundo o arcebispo de Manaus ao falarmos de excluídos, estamos pensando em exclusão da educação, do emprego, lembrando que o Brasil está hoje com 14 milhões de desempregados, junto com aqueles que tem um emprego informal, algo muito presente em Manaus, onde é grande o número de pessoas vendendo água ou café na rua.

Dom Leonardo também se referiu à exclusão da democracia, exclusão política, o que demanda “uma participação maior da sociedade nas decisões políticas”. Nesse ponto criticou as decisões do Congresso Nacional, “que não pensa no povo”, demandando a necessidade de voltarmos a discutir política. O arcebispo falou dos excluídos economicamente, algo que vai além do desemprego, denunciando que “com a venda das estatais vamos percebendo cada vez mais o quanto nós estamos sendo delapidados”, afirmando que “as estatais existem para as políticas públicas”.

O arcebispo colocou entre os excluídos “os nossos irmãos indígenas”, criticando como está se acabando com sua cultura, além de suas terras, e afirmando que “estão sendo excluídos desde o início do que se chama Brasil”. Junto com os indígenas, dom Leonardo Steiner falou de outros grupos excluídos, como os ribeirinhos, os quilombolas, as pessoas que não tem vez dentro da nossa sociedade, relatando que está crescendo o número de pessoas que vivem na rua. Ele lembrou as palavras de Madre Teresa de Calcutá, que falava deles como “aqueles que o Estado e a sociedade não querem”.

Lembrando as palavras da Laudato si´ e da Querida Amazónia, dom Leonardo definiu a devastação da Amazônia como outra forma de exclusão. De fato, “a destruição da natureza faz com que tenhamos cada vez mais excluídos”, segundo o arcebispo. Outras questões que mostram a exclusão são a falta de saneamento básico, de acesso à cultura, de falta de saúde, denunciando o desmonte do SUS, da falta de acesso à educação, apontando a tentativa do governo brasileiro de excluir do sistema educativo a pessoas com deficiências. Também lembrou a exclusão que acontece em torno à moradia, uma realidade muito presente em Manaus.

Tudo isso mostra a necessidade de um Grito, de fazer ecoar a necessidade do cuidado com a vida na sua totalidade, segundo o arcebispo de Manaus. Lembrando os sonhos do Papa Francisco em Querida Amazónia, dom Leonardo Steiner vê isso como “um grito para que a nossa humanidade acorde e possa viver uma vida mais digna, mais justa, mais fraterna, mais irmã”.

Dom Leonardo Steiner insistiu em que “é muito importante nos movimentarmos em busca de um Brasil melhor, em busca de um Brasil justo, em busca de um Brasil onde todos e todas possam se sentir à vontade”. O arcebispo insistiu em “termos uma sociedade mais equânime, mais equilibrada, mais fraterna, mais justa”, denunciando a difícil situação que vive o país em relação ao emprego, aos povos indígenas, ao meio ambiente. O objetivo é ajudar a sociedade a perceber que “nós, todos juntos, podemos oferecer uma outra situação ao Brasil”, enfatizando que “sem a participação da sociedade, as coisas não mudarão”.

O QUE NOS MOTIVA A GRITAR EM 2021?

– As quase 580 mil mortes pela COVID-19, muitas das quais poderiam ter sido evitadas;
– A corrupção na negociação de compra e distribuição das vacinas contra a COVID-19 (CPI);
– O desmonte da saúde pública (SUS);
– A carestia e a fome que voltaram com tudo e assolam as camadas empobrecidas da população;
– O desemprego;
– O desvio do dinheiro público, através do orçamento federal, para o pagamento de juros da dívida pública, ao invés de investir em políticas sociais;
– A falta de moradia, que se agrava com os despejos criminosos;
= A não demarcação das terras indígenas e o grito profético dos povos indígenas dizendo “Não ao Marco temporal”;
– A denúncia contra o tratamento dado aos povos em situação de rua, sejam de qualquer origem, migrantes e refugiados ou deslocados internos, que lutam e resistem por dignidade e cidadania universal no Brasil;
– A cultura do ódio disseminada pelo governo federal e seus aliados que ataca e retira os direitos humanos de mulheres, LGBTQIA+, negros/as, dos povos originários – Indígenas e Quilombolas, das pessoas portadoras de deficiência, do/as trabalhadores/as, dos setores excluídos da sociedade.

Haverá atos e manifestações conjuntas, do 27º Grito dos Excluídos e das Excluídas com a Campanha Fora Bolsonaro, em todo o Brasil, de forma presencial, onde for possível, e de forma virtual pelas redes sociais.

ORIENTAÇÕES SANITÁRIAS E DE SEGURANÇA DURANTE AS MANIFESTAÇÕES:

♦ Manter o distanciamento social recomendado pela OMS e o uso de máscaras e álcool gel;
♦ Carregar sempre água suficiente para se hidratar durante os atos;
♦ Não responder às provocações de grupos bolsonaristas;
♦ Estar sempre em grupos, sobretudo na chegada e na dispersão dos atos;
♦ Evitar o confronto direto e indireto, manter o foco no tema e lema do Grito;
♦ Pensar e organizar a segurança durante o processo de construção e realização das atividades (criar grupos de coletivos de advogados/as com o objetivo de garantir proteção jurídica para os/as militantes nas ruas);
♦ Em caso de abordagem policial, manter a passividade para evitar confronto direto, informando que o ato é pacífico e democrático;
♦ Em casos de violência, se possível, aproxime-se de pessoas que possam filmar ou fotografar o ocorrido, para servir de prova testemunhal.

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil


Acesse ao “Mapa do Grito” e saiba onde participar:

Mensagem do presidente da CNBB para o Dia da Pátria: somos todos irmãos!

O arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Walmor Oliveira de Azevedo divulgou nesta sexta-feira, 3 de setembro, um vídeo por ocasião do próximo Dia da Pátria, 7 de setembro. De acordo com o presidente da CNBB, a data deve inspirar em cada brasileiro o reconhecimento de que todos são irmãos, inclusive daqueles com quem não se concorda.

Essa verdade, segundo do Walmor, precisa ser contemplada e ajudar no reconfiguramento da interioridade de cada um frente a um contexto no qual o Brasil está sendo contaminado pela raiva e pela intolerância. De acordo com o arcebispo de Belo Horizonte, em nome de ideologias muitos dedicam-se à ofensas, chegando ao absurdo de defender o armamento da população.

“Quem se diz cristão ou cristã deve ser agente da Paz e a paz não se constrói com armas. Somos todos irmãos. Esta verdade é sublinhada pelo Papa Francisco na carta encíclica Fratelli Tutti”, disse.

Os ensinamentos da Fratelli Tutti, aponta dom Walmor, devem também inspirar cuidados com os que sofrem. “A fome é realidade de quase 20 milhões de brasileiros. Aquele pai que não tem alimento a oferecer para o próprio filho é seu irmão. Nosso irmão. Do mesmo modo, a criança e a mulher feridas pela miséria são suas irmãs, nossos irmãos e irmãs”, afirmou no vídeo.

De acordo com o presidente da CNBB, os católicos e cristãos não podem ficar indiferentes à realidade que mistura desemprego e alta inflação, num contexto agravado pela pandemia, situação que acentua as exclusões sociais. A saída, de acordo com o arcebispo, está na urgência em implementar políticas públicas para a retomada da economia e a inclusão dos mais pobres no mercado de trabalho.

Povos originários e a Casa Comum

“Nossa pátria não começa com a colonização europeia. Nossas raízes estão nas matas e florestas, num sinal claro nos ensinando que a nossa relação com planeta deve ser pautada pela harmonia. Os povos indígenas, historicamente perseguidos e dizimados, enfrentam graves ameaças do poder econômico extrativista  e ganancioso que tudo faz para exaurir nossos recursos naturais”, disse.O presidente da CNBB afirma que os olhares precisam voltar-se para os povos que estão mais sofrendo, como os indígenas, povos originários.

O presidente da CNBB dedica um parte da mensagem ao cuidado com a Casa Comum (meio ambiente). Dom Walmor reforça o alerta dos cientistas brasileiros sobre a gradativa queda nos mananciais de água potável no Brasil. “A exploração desmedida e irracional do solo, com a derrubada de florestas, está levando à escassez de água em nossas torneiras. Não podemos deixar que o Brasil, reconhecimento internacionalmente por ser rico em recursos naturais, seja devastado e torne-se uma terra arrasada”, exortou.

Exercício da cidadania e superação da crise

Dom Walmor enalteceu a importância do dia 7 de Setembro como caminho para contribuir para o exercício qualificado da cidadania. Na mensagem, o arcebispo defende que a participação cidadã na política, reivindicando direitos, com liberdade, está diretamente relacionada com o fortalecimento das instituições que sustentam a Democracia.

“Não se deixe convencer por quem agride os poderes Legislativo e Judiciário. A existência de três poderes impede a existência de totalitarismos”, disse. Dom Walmor defende que não é possível aceitar, independentemente das convicções político-partidárias de cada um, agressões aos pilares que sustentam a democracia. Agredir, eliminar, hostilizar, ignorar ou excluir, segundo o arcebispo, são verbos que não combinam com um sistema democrático.

No próximo 7 de setembro, dom Walmor fez um pedido aos brasileiros: “respeite a vida e a de seu semelhante. (…) a intolerância nos distância da Justiça e da Paz e afasta-nos de Deus. Somos todos irmãos. No dia da Pátria, 7 de setembro, rezemos para que o Brasil encontre um caminho para superar as suas crises. Rezemos também pelas vítimas da Covid-19 “, reforçou.

Dom Walmor encerra o vídeo recordando o trecho de uma mensagem do Papa Francisco: “O bem não é conquista mas uma construção permanente, demandando a nossa dedicação a cada dia”.

Fonte: CNBB


Conheça a íntegra da mensagem no vídeo abaixo:

Tempo da Criação: uma casa para todos, seguindo o exemplo do Padre Dall’Oglio

Giada Aquilino (Vatican News)

A hospitalidade como uma missão de diálogo, como um compromisso para construir um abrigo para o próximo, “para fazer a nossa parte agora e fazê-la juntos”. Assim Cecilia Dall’Oglio, diretora associada dos programas europeus do Movimento Laudato si’, resume o significado do Tempo da Criação 2021, um tempo de cura e esperança ao qual participam todos os anos os cristãos de todas as confissões: recordando a experiência de vida e de fé de seu irmão, padre Paolo Dall’Oglio, que está desaparecido desde 2013, e o compromisso do jesuíta em refundar o mosteiro de Mar Musa na Síria.

Tema e símbolo, um pensamento para o padre Paolo

A partir de amanhã, 1º de setembro, Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, até 4 de outubro, festa de São Francisco de Assis, os fiéis de todo o mundo estarão se mobilizando para renovar sua relação com o Criador e toda a criação através da celebração, da conversão e do compromisso concreto. O tema deste ano é: “Uma casa para todos? Renovar o oikos de Deus”, explica a representante do Comitê Diretor Ecumênico Mundial para o Tempo da Criação, que também aponta a Tenda de Abraão como o símbolo cardeal de todos os eventos. “Penso que padre Paolo, meu irmão, ficaria muito feliz em ver tantas Tendas de Abraão instaladas em todas as comunidades do mundo, nos lugares simbólicos de todos os continentes, tantas declarações de compromisso dos cristãos do mundo inteiro em construir uma casa para todos, em renovar os oikos de Deus, para que a hospitalidade, que é o carisma, um dos pilares da comunidade de Mar Musa, possa ser uma linha na qual todos nós nos movamos: hospitalidade é também abrir espaços, apertar outras mãos”.

O padre jesuíta Paolo Dall’Oglio

Na sua última entrevista em árabe, Cecilia Dall’Oglio recorda: “Padre Paolo disse ‘o que não fizermos agora, vai levar muito tempo para ser feito’: sinto – acrescenta a irmã – este pedido para que sejamos ousados agora, não pararmos dizendo ‘sempre foi feito assim’. Este Tempo da Criação é verdadeiramente a maior oportunidade para dar este testemunho. Nisto sinto claramente a proximidade do meu irmão, que não queria perder aquele momento oportuno até o dom total de si mesmo”.

Como São Francisco

Focalizando a questão “Uma casa para todos?” do tema central, Cecilia Dall’Oglio destaca o quanto é urgente “iniciar um processo de conversão ecológica”: é necessário, explica, que “nossas comunidades parem e reflitam: que rezem ao Senhor para dar-lhes o dom da sabedoria, da razão, do discernimento para entender se estão realmente, como comunidade, construindo uma casa para todos”. “’Renovar os oikos de Deus’ vem de tomar consciência- acrescenta – de que a terra é do Senhor, como tudo o que está nela. Esta terra, esta casa comum, como o Papa Francisco a chama na Laudato si’, este oikos é feito de relações: sabemos que o Criador deu ao homem uma vocação especial para custodiar, cuidar da sua casa, por isso somos chamados juntos para apoiar as corretas relações ecológicas, sociais, econômicas e políticas”.

Cecilia Dall’Oglio com os jovens de Agesci

Portanto, até 4 de outubro, o Tempo da Criação será “uma oportunidade que não se pode perder para reparar esta casa, como São Francisco foi chamado a fazer. A pandemia, que no momento não está afetando as pessoas da mesma maneira, trazendo à tona desigualdades ainda maiores, nos mostrou mais uma vez como esta casa, nossa casa, está em ruínas”. Foi o que recordou o Papa Francisco mais uma vez, no Angelus do passado domingo, sublinhando como o grito da Terra e o grito dos pobres se “tornam cada vez mais graves e alarmantes”, conforme evidenciado na Encíclica Laudato si ‘de 2015, e exigem “uma ação decisiva e urgente para transformar esta crise em oportunidade”. Por isso é necessário urgentemente como definiram os bispos italianos – em sua Mensagem para o 16º Dia Nacional da Custódia da Criação, também amanhã – “uma transição que transforme profundamente nosso modo de vida”.

O Tempo da Criação encoraja a renovar a relação com Deus e tudo o que nos rodeia

Christina Leaño, diretora associada e co-fundadora do Movimento Laudato si’, também ressalta que este é um compromisso que une os cristãos de todo o mundo. Nos últimos sete anos”, afirma, “trabalhamos lado a lado com parcerias ecumênicas, o Conselho Mundial de Igrejas, representantes da Comunhão Ortodoxa, a Igreja Anglicana, os Luteranos e outros, para nos unirmos como seguidores de Cristo no cuidado de nosso planeta”. O resultado foi uma “motivação mais forte para uma colaboração ecumênica” que se traduziu em ações concretas, “desde peregrinações ao longo de rios locais no Canadá até congregações religiosas empenhadas em reduzir o consumo de carne”, de participações a mobilizações pelo clima de jovens de todo o mundo até a inclusão de temas relativos à criação “nas liturgias dominicais na América Latina”.

A carta de Dom Duffé

No sexto aniversário da encíclica “Laudato si”, em 24 de maio passado, Dom Bruno-Marie Duffé, secretário do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, em uma carta convidou todos os fiéis a promover o Tempo da Criação nas paróquias e comunidades locais, incentivando todas as realidades eclesiais a difundir seu espírito, “ajudando os fiéis a serem conscientes de que viver a vocação de ser guardiães da obra de Deus é parte essencial de uma existência virtuosa, não algo opcional ou mesmo um aspecto secundário da experiência cristã”, como afirmou o Pontífice na encíclica (217). O Tempo da Criação, destacou Dom Duffé, é também “um momento fundamental para os católicos elevarem a voz dos mais vulneráveis e se mobilizarem a seu favor em vista das duas importantes cúpulas da ONU”: a Conferência da das Nações Unidas sobre Biodiversidade (Cop15), programada de 11 a 24 de outubro na China, e a Conferência sobre Mudança Climática (Cop26), em Glasgow, de 31 de outubro a 12 de novembro. O secretário do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral também exortou os fiéis a aderirem a “iniciativas de mobilização como a petição ‘Planeta Saudável, Povo Saudável‘, apelando fortemente para uma ação corajosa para proteger a criação”.

O objetivo da petição, acrescenta Cecília Dall’Oglio é “pedir planos ousados aos governos para tornar realidade as promessas do Acordo de Paris”. Nossos Animadores Laudato si’, presentes em todo o mundo, estão treinando para se tornarem promotores de petições, para que em cada evento realizado para o Tempo da Criação, possam ser coletadas muitas assinaturas e assim serem cada vez mais numerosos ao exigir políticas diferentes”.

Crise e deslocamento climático

Foi o Papa Francisco em seu prefácio às Diretrizes Pastorais sobre o Deslocamento Climático, quem indicou que não sairemos da crise como a do clima ou a crise da Covid “fechando-nos no individualismo, mas somente estando juntos, através do encontro, do diálogo e da cooperação”. O representante do Movimento Laudato si’, que apresentou o documento na Sala de Imprensa da Santa Sé, lembra como ele destaca “a importância de promover campanhas de informação e programas pastorais que ressaltem a gravidade da crise climática e do deslocamento climático, focalizando a face humana da crise e a necessidade de ações urgentes”, combinando assistência humanitária, educação para a reconciliação, proteção dos direitos e da dignidade, oração, liturgia e apoio espiritual e psicológico.

Os jovens de Agesci armaram sua tenda em Assis, diante da Basílica de Santa Clara

A tenda

Entre as iniciativas da edição de 2021 está “Uma tenda para todos”, com um convite para armar barracas em lugares simbólicos. A Agesci, Associação Italiana de Guias e Escoteiros Católicos, o fez na Praça Santa Clara, em Assis. A presidente, Barbara Battilana, recorda que ali mesmo, na Basílica, “está conservado o Crucifixo de São Damião, diante do qual o Pobrezinho de Assis estava rezando quando recebeu o pedido do Senhor para reparar a sua casa”. Para os jovens da Agesci, assegura, “daquele ponto parte um exemplo e uma referência contínua para poder montar as barracas em todos os lugares e transmitir a mensagem de cuidar da nossa casa comum, não como uma empresa individual, mas comunitária”.

“Por outro lado, a Tenda de Abraão”, confirma Cecilia Dall’Oglio, “nos lembra que o Senhor armou sua tenda no meio de nós. Enraizados na fé de Abraão, atravessamos as dificuldades e sabemos como ter uma visão de esperança que nos caracteriza como cristãos. A tenda”, acrescenta, “está aberta em todos os lados porque acolhe, é um espaço de diálogo e é somente no diálogo com todos, inclusive com os não-crentes, que podemos com os outros credos ter sucesso na construção da casa comum. É também o símbolo da essencialidade, da leveza, de uma pegada no chão que não deixa uma marca ecológica pesada para as gerações futuras. A tenda também nos recorda dos que não têm um teto sobre suas cabeças, nos recorda dos refugiados, pensamos em nossos irmãos e irmãs sírios que estão há 10 anos em campos de refugiados no Líbano”, em uma ligação especial que une o Tempo da Criação com o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, em 26 de setembro.

Fonte: Vatican News