13º Domingo do Tempo Comum: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus!”

LEITURAS: 1Rs 19,16b.19-21 / Sl 62 / Gl 5,1.13-18 / Lc 9,51-62

O evangelista Lucas compôs o Evangelho e os Atos dos Apóstolos apresentando Jesus e a Igreja em caminho. No texto de hoje, São Lucas inicia a narração da viagem de Jesus até Jerusalém, onde acontecerá sua paixão, morte, ressurreição e ascensão para junto do Pai. Passando pela Samaria, região entre Galileia e Judeia, Jesus foi rejeitado. A razão era porque Ele ia a Jerusalém, cidade que condenava os samaritanos como não merecedores da misericórdia de Deus.

Percorrendo o caminho, Jesus ensina os seus seguidores que é preciso fidelidade à vontade de Deus e total dedicação na construção do seu Reino. O primeiro ensinamento é que o cristão precisa ser misericordioso e não vingativo, ter amor e não ódio. Por isso Jesus repreendeu os discípulos que queriam destruir os samaritanos. Um dos discípulos declarou que seguiria Jesus para onde fosse. Aí Jesus começou a apresentar as exigências do discipulado e a necessidade de renúncia: “o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. Outro pediu para esperar enterrar o seu pai. Jesus ensina a urgência do Reino de Deus que precisa ser anunciado e construído agora e não depois. Outro quer apenas “despedir-se” de seus familiares, mas Jesus ensina que é preciso amá-los e renunciar certos costumes. Nada deve impedir a proclamação e a construção do Reino, nem os próprios laços familiares.

Jesus faz como que uma preparação dos discípulos que Ele escolheu para que sejam testemunhas de sua vida, sua missão e seu Evangelho. Devem viver na liberdade do Espírito, como pede São Paulo aos gálatas na segunda leitura. Uma liberdade que leva ao amor verdadeiro uns pelos outros, sem interesses ou vantagens, sem querer satisfazer as cobiças. Discípulos livres “segundo o Espírito” para instaurar o Reino de amor, de justiça, de solidariedade, de partilha e de misericórdia. Isto significa que eles deveriam continuar a missão de Jesus que seria interrompida com a morte de cruz.

Os cristãos de hoje recebem também uma missão, como Eliseu recebeu de Elias na primeira leitura, como os discípulos recebem de Jesus para anunciar o Reino. Jesus é categórico: “mas você, vai e anuncia o Reino de Deus”. É a missão dada que não pode esperar, pois os reinos deste mundo estão sempre ameaçando e destruindo a dignidade humana e a vida.

Frei Valmir Ramos, OFM

12º Domingo do Tempo Comum: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me!”

LEITURAS: Zc 12,10-11.13,1 / Sl 62 / Gl 3,26-29 / Lc 9,18-24

Jesus, estando em oração, pergunta aos discípulos sobre o que dizem as multidões a respeito d’Ele. Depois sobre quem os discípulos pensam que Ele seja. Pedro reponde por todos: “o Cristo de Deus”. Esta resposta vai além da visão das multidões, que viam Jesus como um grande profeta. Jesus, porém, proíbe os discípulos de anunciá-lo como o Cristo, o Messias. Este é o chamado “segredo messiânico” que parece ser usado como estratégia para não confundir o povo.

Jesus é visto como profeta, mas não á apenas profeta. É o Ungido, o Messias, o Cristo, é Deus mesmo que assumiu a condição humana e por isso se diz “Filho do Homem”. Jesus é Aquele anunciado pelos profetas e também por Zacarias, como vemos na primeira leitura. Acontece que Ele revela que vai passar pelo sofrimento, pela morte e pela ressurreição que não eram compreensíveis aos discípulos. Ao mesmo tempo, Ele convida os seus seguidores a abraçar o mesmo projeto, seguir o mesmo caminho, tomar a mesma cruz e depois ressuscitar com Ele: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

Certamente os discípulos só entenderam esta afirmação depois da ressurreição de Jesus e da vinda do Espírito Santo, pois eles mesmos não queriam que Jesus morresse. Por isso vemos na carta de São Paulo aos gálatas a expressão “batizados em Cristo”, que carrega o sentido de que com Cristo vivemos, por Ele morremos e por Ele nos salvamos.

Hoje Jesus nos interpela para que, como discípulos missionários, sejamos capazes de nos doarmos completamente, e este é o significado de “abraçar a cruz” e de servirmos a humanidade como cristãos e como Igreja. Pelo batismo nos tornamos também iguais aos olhos de Deus, por isso a necessidade de viver a solidariedade com os mais pobres e sofredores. São Francisco de Assis, irmão universal, deu testemunho com a sua vida que somos “todos filhos de Deus” por isso o seu olhar é de misericórdia e de ternura, que condena a violência e chama à conversão que reparte o amor, a veste e o pão.

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade da Santíssima Trindade: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora!”

LEITURAS: Pr 8,22-31 / Sl 8 / Rm 5,1-5 / Jo 16,12-15

Jesus revelou aos seus discípulos que Deus é trino e único. Este é o mistério que a Igreja celebra neste Domingo, pois ela acredita e experimenta a presença da Santíssima Trindade na sua história, na história do povo de Deus.

No Evangelho de hoje Jesus está finalizando o seu ensinamento durante a última ceia e fala do Espírito da verdade. Trata-se do Espírito Santo que iluminaria os discípulos para que pudessem interpretar os significados de todos os acontecimentos que estavam para vivenciar com Jesus, inclusive sua paixão, morte e ressurreição. Celebramos Pentecostes Domingo passado e vimos como, de fato, Jesus cumpriu sua promessa de enviar o Espírito Santo que é a força criadora de Deus. No Antigo Testamento a palavra “espírito” tem muitos significados, mas sempre relacionados com significado principal que é espírito, vento, hálito, vigor, força que vem de dentro, força criadora. Na língua hebraica é um substantivo feminino, entendido como algo que vem de dentro do ser de Deus, por isso dá vida.

A primeira leitura fala da “Sabedoria de Deus” que existe desde a eternidade e a coloca como personagem que expressa a sua presença durante a criação do mundo. Com imagens de alguém que se deleita com as belezas criadas, o autor apresenta a Sabedoria como “mestre-de-obras”. No entanto, a Sabedoria de Deus não é entendida apenas como quem assiste os acontecimentos, mas como aquela força que cria e governa o mundo. E mais, no Novo Testamento Jesus mesmo será reconhecido como Sabedoria de Deus (cf. 1Cor 1,24.30) e aqueles que permanecem unidos a Cristo participam da Sabedoria.

Se no mundo nem sempre as ações humanas parecem brotar da Sabedoria, é preciso agir com sabedoria e ter esperança, pois “a esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado pelo Espírito Santo que foi dado” aos cristãos.

Em nossos dias é necessário dar testemunho com a vida, numa fé trinitária, fértil no meio de um mundo sempre mais materialista, individualista e desumanizante. Mesmo que nossas palavras não consigam explicar o grande mistério da Santíssima Trindade, nossa fé deve ser como aquela de São Francisco de Assis: simples, profunda, capaz de ver os sinais do Pai criador em todas as pessoas e todas as criaturas, do Filho redentor em todas os sofredores e crucificados que encontramos e do Espírito Santo em todas as ações de defesa da vida, de fraternidade e solidariedade, de efetivação da justiça e de construção da paz.  

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade de Pentecostes: “Recebei o Espírito Santo!”

LEITURAS: At 2,1-11 / Sl 103 / 1Cor 12,3b-7.12-13 / Jo 20,19-23

Recebei o Espírito Santo!”. A promessa que Jesus fez de enviar o Espírito Santo aos seus discípulos agora se cumpre. É o único Espírito que procede do Pai e do próprio Jesus como força criadora de Deus. Já no livro do Gêneses lemos que “o Espírito de Deus pairava sobre as águas”. No Antigo Testamento a palavra “espírito” tem muitos significados, mas sempre relacionados com significado principal que é espírito, vento, hálito, vigor, força que vem de dentro, força criadora. Na língua hebraica é um substantivo feminino, entendido como algo que vem de dentro do ser de Deus e que dá vida. É assim que vemos a atuação de Deus ao criar todas as coisas e ao capacitar os seus mensageiros, desde Moisés até o próprio Jesus e seus discípulos e discípulas.

A festa de Pentecostes é a festa do Espírito Santo, tão importante como o Natal e a Páscoa, pois com a vinda do Espírito Santo os discípulos de Jesus tiveram a força de Deus para espalhar o Evangelho pelo mundo inteiro. A 1ª leitura diz que eles estavam em Jerusalém quando receberam o Espírito. Os estrangeiros ouviam a pregação na própria língua, o que indica a universalidade do Evangelho destinado a todos os povos. Lucas fala de uma “forte ventania” que, como no Antigo Testamento, indica a presença do Espírito de Deus. Também fala de “línguas como de fogo” que também, no Antigo Testamento, indicam a presença de Deus. Assim, a festa de Pentecostes é transformada de festa da colheita para os judeus em festa do Espírito Santo para os cristãos. Será o início da missão messiânica da Igreja que, recebendo o batismo do Espírito, deve anunciar a nova criação para todos os povos.

Todos os batizados recebem o dom do Espírito Santo para serem mensageiros da salvação de Deus que continua presente “realizando todas as coisas em todos”, como nos diz São Paulo na carta aos Coríntios. É São Paulo também que afirma que “todos somos batizados num único Espírito” e “formamos um só corpo” que é a nova família de Jesus, a Igreja. Contudo, o dom recebido não é destinado ao proveito próprio, mas é dom colocado a serviço dos outros. “Há uma diversidade de dons, mas um mesmo é o Espírito” e esta será a riqueza da Igreja: se os dons forem repartidos, quer dizer, se todos colocarem-se a serviço uns dos outros.

Celebrar a festa de Pentecostes hoje significa reconhecer que o Espírito Santo é a força da Igreja e que este mesmo Espírito interpela todos os cristãos para continuarem a missão de Jesus no mundo. Quanto maiores os desafios, mais os batizados devem ouvir os apelos do Espírito e agir com a força de Deus para defender a vida e a dignidade das pessoas e construir a paz verdadeira em todos os cantos do mundo.

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade da Ascensão do Senhor: “Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu!”

LEITURAS: At 1,1-11 / Sl 46 / Ef 1,17-23 / Lc 24,46-53

Jesus ressuscitado está ainda fisicamente com os discípulos e mostra que todo o acontecido com sua paixão, morte e ressurreição, cumpriu as Escrituras. Agora vai iniciar um tempo em que sua presença não será física, mas através da força do Espírito Santo que Ele enviará a seus discípulos e discípulas. Assim começa a missão da Igreja. São Lucas finaliza o seu Evangelho e continua escrevendo os Atos dos Apóstolos onde narra a missão dos discípulos e discípulas. É no livro dos Atos dos Apóstolos que ele narra a Ascensão de Jesus.

A ascensão de Jesus indica sua vitória definitiva sobre a morte e suas causas. Ele, “sentado à direita do Pai”, tem todo poder, com vemos na 2ª leitura. Seus discípulos e discípulas precisam ficar unidos e continuar sua missão neste mundo que ainda ameaça a vida e está longe de viver plenamente o amor. Será o Espírito Santo a fortalecê-los a ponto de terem coragem de anunciar a verdade de Jesus e enfrentar as perseguições e a própria morte. Começa a clarear para eles que morrendo com Cristo, serão ressuscitados com Ele (cf Rm 6,8s).

Na primeira leitura, os discípulos aparecem “olhando para o céu”, talvez atônitos, talvez saudosos da presença física de Jesus, talvez esperando sua volta, mas eles precisam abraçar a missão deixada por Jesus e olhar para a terra. É na terra que estão os destinatários do Evangelho, do Reino de Deus, aqueles aos quais Jesus tinha predileção: doentes, perseguidos, discriminados, excluídos da sociedade e da comunidade, pecadores e injustiçados.

Hoje os discípulos e discípulas de Jesus que formam a Igreja precisam continuar a missão de Jesus, anunciando que Ele é o único Salvador e proclamando o seu Evangelho com ações práticas como Ele fez. Mesmo que esta missão possa sujar as mãos e ferir o corpo como acontece com a Igreja preferida pelo Papa Francisco. Todos precisamos agir com a força do Espírito Santo que nos foi dado.

É o compromisso com o Ressuscitado que faz a Igreja ser discípula missionária para acolher, curar, acompanhar, dar de comer, defender na fragilidade e na ameaça aos direitos, ir ao encontro das pessoas distantes e promover a vida como bem maior.

Frei Valmir Ramos, OFM

6º Domingo da Páscoa: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada!”

LEITURAS: At 15,1-2.22-29 / Sl 66 / Ap 21,10-14.22-23 / Jo 14,23-29

O amor verdadeiro a Jesus está vinculado à observância de sua Palavra, do seu Evangelho. Para São João, Jesus é a Palavra do Pai que se encarnou e “fala” com sua vida, seu ensinamento e suas ações. Observar a Palavra de Jesus será o sinal mais autêntico do amor por Ele. É confortante, maravilhoso saber que através do amor a Jesus chegamos ao Pai, pois Ele é o caminho que nos leva ao Pai. Ainda mais confortante é saber que quem ama, observa a Palavra de Jesus, torna-se morada de Deus: “viremos e faremos nele a nossa morada”. Esta é uma referência clara do Espírito Santo “que o Pai enviará”. Que dignidade Deus nos concede!

São João coloca este ensinamento de Jesus no contexto de sua despedida, quando Ele estava reunido com os discípulos para a última ceia. Antes de deixar o seu mandamento, que é o mandamento do amor, Jesus lavou os pés dos discípulos num gesto concreto que indica amor verdadeiro. Ao mesmo tempo Ele anuncia que deve ser traído, preso, morto. Os discípulos estão meio confusos. Aí ele anuncia: “A minha paz vos dou”. No idioma de Jesus “paz” significa vida em abundância, saúde, gosto pela vida, serenidade, paz interior e exterior. É uma expressão que indica a salvação messiânica quando o Deus da vida está com o seu povo para derrotar todos os mecanismos de morte e ameaças contra vida e a dignidade humana.

Os discípulos entenderam bem este ensinamento somente mais tarde e tiveram que aprender durante a missão que o Espírito Santo está guiando a Igreja. Por isso, vemos na primeira leitura que tiveram que reunir-se para decidir sobre a acolhida dos irmãos que não eram judeus. Entenderam que deveriam deixar as tradições e exigências do judaísmo daquele tempo para abraçar o Evangelho de Jesus. E ainda mais porque o Espírito Santo era enviado a todos, judeus e estrangeiros considerados pagãos. Somente assim abriram-se os horizontes dos discípulos até o autor do Apocalipse anunciar a sua visão da Igreja como “Nova Jerusalém” com doze colunas e doze portas. As colunas representam os Apóstolos que deveriam anunciar Jesus e seu Evangelho para todos os povos. As portas em todas as direções indicam a abertura da Igreja para todos os povos.

Hoje os cristãos todos são chamados a observar a Palavra e a colocar-se a serviço dentro das sociedades para que as pessoas, morada de Deus, possam ser mais respeitadas e possam viver em paz.

Frei Valmir Ramos, OFM

5º Domingo da Páscoa: “Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros!”

LEITURAS: At 14,21b-27 / Sl 144 / Ap 21,1-5a / Jo 13,31-33a.34-35

As palavras de Jesus deste Evangelho são ditas no contexto da última ceia: Jesus lavou os pés dos discípulos, anunciou a traição e imediatamente a glorificação do Filho do Homem, isto é, de Jesus encarnado e nascido de uma mulher. É a introdução de um longo discurso de despedida que Jesus faz aos seus discípulos em que o evangelista concentra uma série de ensinamentos de d’Ele.

Depois de indicar que o amor se vive concretamente através do serviço, Jesus deixa o seu novo mandamento: “amai-vos uns aos outros”. O mandamento é novo por se tratar de uma atitude sempre nova, uma vez que o verdadeiro amor é vivo. E Jesus indica o tamanho do amor que Ele pede: “como eu vos amei, amai-vos uns aos outros”. A ação concreta do maior amor de Jesus que os discípulos conheciam é a de entregar a própria vida. Mas mesmo antes disso, Jesus tinha expresso seu amor por todas as pessoas, a começar pelos doentes, pelos excluídos, pelas mulheres discriminadas, pelas crianças, pelos pecadores, pelos pobres, pelos famintos, pelos pagãos… seu amor era preferencialmente pelos mais frágeis da sociedade de seu tempo.

Como Jesus sabe que logo não estará mais fisicamente com os seus discípulos, pede a eles que vivam o amor. A expressão usada pelo evangelista é clara: “conhecerão que sois meus discípulos se tiverdes amor uns aos outros”. Isto significa que para ser cristão não basta ser batizado ou ser consagrado ou ser padre. É preciso viver o amor concretamente como Jesus viveu. O seu gesto de lavar os pés pode ter deixado os discípulos que pensavam em privilégios meio confusos, como também hoje pode deixar confusos os que buscam privilégios na Igreja e através dela. Porém foi o gesto que revelou o amor desinteressado e abriu caminho para que os discípulos compreendessem o novo mandamento.

A leitura do Apocalipse fala de “um novo céu e uma nova terra”. Esta também é uma palavra atual, pois num mundo em que as pessoas estão perdidas entre falsos valores e falsas notícias, entre corrida pelo poder e pelos privilégios, Jesus ressuscitado chama os cristãos para viver concretamente o amor pelas pessoas sem engano e servindo aos mais frágeis das sociedades. O novo só acontecerá se houver amor verdadeiro e serviço desinteressado.

Frei Valmir Ramos, OFM

4º Domingo da Páscoa: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem!”

LEITURAS: At 13,14.43-52 / Sl 99 / Ap 7,9.14b-17 / Jo 10,27-30

No Evangelho de João, Jesus tinha acabado de dizer “eu sou o bom pastor” (cf. Jo 10,11) e agora diz “as minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem”. É bom recordar que na Bíblia, a imagem do pastor era utilizada para indicar os chefes do povo, aqueles que tinham a missão de cuidar e proteger o povo. Acontece que eram negligentes e interesseiros. Jesus se distingue como o “Bom Pastor” por que não é mercenário, não abandona suas ovelhas, nem olha para os seus próprios interesses. Ao contrário, dá sua vida por elas.

Jesus reúne suas “ovelhas” num único “rebanho”, e como único pastor as conduz para junto do Pai que ama a todos os seus filhos e filhas de todas as raças e nações. Escutar a voz de Jesus significa acolhê-lo como Filho de Deus, enviado para salvar a todos, e colocar seus ensinamentos em prática. Quando Jesus diz “eu as conheço” é porque as “ovelhas” estão vigilantes e realizando o seu projeto, como vemos no Evangelho de Mateus (cf. Mt 25,12). O seguimento de Jesus então significa adesão a Ele e à sua Palavra para fazer a vontade do Pai.

A leitura do Apocalipse apresenta a visão do autor que contempla Jesus ressuscitado com todo o seu rebanho de “gente de todas as nações” que formava “uma multidão imensa”. É a visão da glória de Jesus partilhada com seus seguidores, sendo muitos deles martirizados porque foram fiéis ao Evangelho. Lavar as vestes no “sangue do cordeiro” é uma imagem de purificação através do sacrifício da própria vida por causa de Jesus e do seu Evangelho. Aí aparece mais uma vez a imagem do pastor que conduz suas ovelhas às “fontes de água viva”, que indica a vida eterna.

Os cristãos hoje precisam abrir bem os ouvidos para escutar o que Jesus está dizendo em nossos dias, para viver e anunciar a palavra exigente do Evangelho. Paulo e Barnabé o fizeram de modo audacioso, dentro das sinagogas, onde os poderosos mantinham os seus interesses. Eles instigaram as poderosas da sociedade para caluniarem e perseguirem os missionários do Evangelho. Hoje também os cristãos precisam ser audaciosos, pois se buscarem somente os aplausos da sociedade e dos poderosos não serão “luz para as nações”. Para afugentar o medo, nenhum seguidor ou seguidora de Jesus pode esquecer-se que o amor do Pai conserva a união do rebanho e lhe garante a vida eterna mesmo passando pelo martírio.

Frei Valmir Ramos, OFM

3º Domingo da Páscoa: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo!”

LEITURAS: At 5,27b-32.40b-41 / Sl 29 / Ap 5,11-14 / Jo 21,1-19

Jesus ressuscitado aparece mais uma vez aos discípulos que ainda estão crescendo na fé. Este capítulo do Evangelho segundo João é um acréscimo à obra que pode ter sido inserido pelo próprio autor ou por um discípulo dele. É mais uma página maravilhosa do Evangelho mostrando a presença de Jesus com os seus e a missão universal que Ele ressuscitado dá aos discípulos.

A construção do Reino de Deus interrompida na cruz não pode parar. No Evangelho de João, Jesus tinha aparecido a Maria Madalena, aos discípulos reunidos com medo dos judeus, e agora aparece aos discípulos que tinham retomado a vida de antes e estavam trabalhando. Talvez Pedro não tivesse bem claro que Jesus o tinha chamado para ser “pescador de homens” (cf. Mc 1,17). As imagens do texto são significativas: a pesca com redes significa a vinda do Reino, significa também a missão dos Apóstolos; a barca é símbolo da Igreja; lançar as redes significa evangelizar pelo mundo; a abundância de peixes relembra a multiplicação dos pães, a água viva, a plenitude do Espírito dado por Jesus; a “pesca milagrosa” é sinal da presença de Jesus na missão que, sem Ele ao centro, não dá frutos; o convite de Jesus “vinde comer” e o seu gesto de distribuir o pão e o peixe é uma referência à ceia eucarística e também expressão d’Aquele que não admite que uma pessoa sofra de fome; “apascentar o rebanho” significa a missão dada a Pedro de conduzir a Igreja dos seguidores de Jesus.

Pedro e os demais discípulos assumiram a missão e anunciavam Jesus ressuscitado com vemos na primeira leitura. Este anúncio parece subversivo, pois vai contra a vontade dos poderosos da religião e da política. Daí a perseguição, os açoites, a proibição de falar d’Aquele que era anunciado como “Guia Supremo e Salvador”. Aí neste período os discípulos entenderam bem o significado do convite de Jesus: “segue-me”, pois do mesmo modo que Jesus foi perseguido, agora eles sofrem perseguição.

Para os cristãos de hoje o Ressuscitado pergunta: “tu me amas?” e continua dizendo: “apascenta as minhas ovelhas”. É a urgência de continuar construindo o Reino de Deus onde ainda prevalece o egoísmo, a violência, a fome, a exclusão de irmãos e irmãs ameaçados em sua dignidade, onde a sede de poder permite matar, arruinar a vida, onde a mentira parece ter vantagem diante da verdade. A missão dada por Jesus, a quem é atribuído “o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre”, exige mais solidariedade dos cristãos.

Frei Valmir Ramos, OFM

2º Domingo da Páscoa: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio!”

LEITURAS: At 5,12-16 / Sl 117 / Ap 1,9-11a.12-13.17-19 / Jo 20,19-31

“A paz esteja convosco!”. O Deus da paz, nascido “príncipe da paz”, agora ressuscitado saúda seus discípulos desejando a paz com o sentido de “salvação”, de vitória sobre o mundo, sobre a injustiça, sobre a morte. A vitória de Jesus revela o poder do “Deus dos vivos, não dos mortos” (Mc 12,27), que é o Senhor da vida.

Já ressuscitado, o seu corpo não tem mais os limites da vida terrena. Os discípulos estavam fechados e o Ressuscitado apareceu no meio deles. Sua presença será constante e em todos os lugares onde estiverem seus seguidores. Foi difícil para os discípulos entenderem o que estava acontecendo. O final do Evangelho de Marcos traz uma síntese das aparições de Jesus ressuscitado dizendo que apareceu a Maria Madalena, a dois discípulos que iam para o campo e depois aos onze (cf Mc 16,9-14). Ainda assim Tomé quer ver as chagas de Jesus de Nazaré. Ele, como os demais discípulos, percorreu um caminho de crescimento na fé para chegar ao reconhecimento de Jesus ressuscitado como “meu Senhor e meu Deus”.

Jesus ressuscitado cumpre a promessa feita aos discípulos de que enviaria o Espírito. A narração deste trecho do Evangelho segundo João indica que foi no mesmo dia da ressurreição que Jesus “soprou” sobre os discípulos. É o “sopro” de Deus, a força criadora de Deus, o Espírito Santo. De fato, a compreensão bíblica do Espírito de Deus parte da palavra que significa “sopro”, um vento que dá vida. O gesto de Jesus transforma a vida dos discípulos e faz nascer a sua nova família, a Igreja, que vai se fortalecer e continuar a missão que Jesus recebeu do Pai: “como o Pai me enviou, eu também vos envio”. De fato, os discípulos iniciaram a missão de anunciar o Evangelho de Cristo, que é Ele mesmo, sua vida e seus ensinamentos. A Igreja recebe e a missão que Jesus recebeu do Pai: dar vida e defender a vida ameaçada.

Na leitura dos Atos dos Apóstolos vemos os discípulos atuando em nome do Ressuscitado e realizando “muitos sinais e maravilhas”, curando os doentes e libertando os “atormentados por maus espíritos”. A missão que estão realizando é sustentada pelo poder do Espírito Santo dado por Jesus vivo para sempre.

O autor do Apocalipse “vê” o Ressuscitado que afirma ser “o Primeiro e o Último, aquele que vive”. Ele recebe assim a revelação do Deus da vida que fez de seu Filho o vencedor sobre a morte e garantiu a vida para toda a humanidade.

Aos seguidores de Jesus nos dias de hoje compete continuar a missão interrompida na cruz. O Ressuscitado mesmo será a força da Igreja que precisa sair do medo, ir ao encontro das pessoas, enfrentar as ameaças e defender a vida e a dignidade de todos. Nesta missão o Espírito Santo será sempre a sua força.

Frei Valmir Ramos, OFM