28º Domingo do Tempo Comum: “Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!”

LEITURAS: Sb 7,7-11 / Sl 89 / Hb 4,12-13 / Mc 10,17-30

Vai, vende o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu”. Jesus deixou aquele homem e os seus discípulos desconsertados. No Antigo Testamento e na tradição dos judeus a riqueza era interpretada como sinal de bênção de Deus. Jesus, no entanto, alerta que a riqueza almejada por muitos não passa de uma falsa segurança e pode chegar a uma idolatria.

No Evangelho vemos alguém perguntando o que fazer para ganhar a vida eterna. Aquele que pergunta é alguém que observa as leis e mandamentos, mas ainda está preso às coisas materiais, por isso foi embora cheio de tristeza. É fácil notar que o problema não está nas coisas materiais, mas no apego a elas e na ganância do quanto mais posses tem mais quer ter. O ser humano se ilude e ao mesmo tempo gosta do poder e do prestígio que as posses oferecem. Mas Jesus é categórico em dizer que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Mesmo se considerarmos esta “agulha” como sendo uma brecha da muralha que era usada como alternativa de fuga no caso de uma invasão na cidade fortificada, um camelo não passa, pois só passavam pessoas se arrastando.

O seguimento de Jesus é exigente. O ensinamento deste Evangelho mostra como é necessário colocar a confiança em Deus e não nas coisas, partilhar e não juntar sempre mais posses, ser solidários com os pobres, buscar a sabedoria de espírito que enobrece a pessoa. A primeira leitura mostra exatamente a grandeza e o valor da sabedoria que é superior ao fato de ser rei, de ter posses em ouro e prata comparados com a areia e a lama. Nos Evangelhos Jesus revela-se como sendo a sabedoria. Daí o convite que Ele faz: “vinde a mim” … “quem vem a mim não terá mais fome” … “não terá mais sede”… (cf Mt 11,28ss; Jo 4,14; 6,35). Os Apóstolos compreenderam depois que Jesus era mesmo a “sabedoria de Deus” (cf 1Cor 1,24.30; Col 1,25ss).

No Evangelho os discípulos querem saber qual recompensa terão por eles terem deixado tudo para seguir Jesus. A resposta é clara: “cem vezes mais agora… e no mundo futuro, a vida eterna”. Os discípulos estavam assustados e ficaram ainda mais perturbados, pois receberiam também “perseguições”. Mais uma vez fica claro que o seguimento de Jesus é exigente, especialmente por ter que enfrentar poderes e sistemas que escravizam e criam injustiças.

Hoje os cristãos precisam fazer um pouco de silêncio e refletir se de fato estão livres da cobiça dos bens materiais que provoca tantas injustiças, do poder, dos privilégios, e se são capazes de partilhar com os sofredores e lutar para erradicar um dos grandes males do mundo de hoje que é a idolatria do dinheiro e do poder.

Frei Valmir Ramos, OFM

27º Domingo do Tempo Comum: “Portanto, o que Deus uniu o homem não separe!”

LEITURAS: Gn 2,18-24 / Sl 127 / Hb 2,9-11 / Mc 10,2-16

Desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher”. Com estas palavras Jesus revela a compreensão mais profunda da dignidade da mulher. O contexto do Evangelho deste Domingo é a Judeia com a presença de muitas pessoas e dos fariseus. Estes querem desmoralizar Jesus e dizer que Ele não observa os mandamentos de Deus revelados a Moisés. Por isso querem colocá-lo à prova perguntando sobre o divórcio. Jesus vai à Sagrada Escritura, supondo que os fariseus conheciam bem, mas eram muito machistas e discriminavam as mulheres. Eles retrucam que Moisés permitiu dar carta de divórcio. Aí a resposta de Jesus é categórica: “foi por causa da dureza do vosso coração… no entanto, desde o começo da criação Deus os fez homem e mulher”. Jesus se refere ao livro do Gênese na primeira narrativa da criação (Gn 1,27) onde homem e mulher são imagem e semelhança de Deus.

Na primeira leitura vemos a segunda narrativa da criação do homem e da mulher em que Deus faz a mulher como “semelhante” ao homem. As palavras em hebraico parecem exprimir melhor o sentido: ‘ish (homem) e ‘ishah (mulher). Não quer dizer que um é superior ao outro, mas dá a ideia de complementariedade. Por isso o homem não está autorizado a agir como superior, considerar a mulher como uma posse ou objeto. Este era o pecado dos fariseus machistas que perguntavam a Jesus sobre a carta de divórcio. Eles não aceitavam que Jesus tratasse as mulheres e os homens da mesma maneira, fazendo-se irmão de todos, amando e indicando o caminho da salvação.

Na carta aos hebreus vemos uma declaração sublime do amor de Jesus pela humanidade a ponto de assumir a condição humana e abraçar a morte. O autor da carta fala que Ele está “coroado de glória e honra” e que “pela graça de Deus em favor de todos, Ele provou a morte”. Jesus mostra aos fariseus e aos discípulos de ontem e de hoje que as mulheres e crianças, ambas discriminadas e não contadas na sociedade e no templo, têm a mesma dignidade dos homens adultos. E mais, mostra que as crianças indicam que os caminhos de Deus passam pelos pequeninos, marginalizados e descartados e quem quiser entrar no Reino deve fazer-se pequeno e humilde.

Hoje todos os cristãos precisam avaliar o modo de ver e considerar os irmãos e irmãs, especialmente nos ambientes machistas em que homens e também mulheres pensam que elas podem sofrer abuso, violência, discriminação, serem tratadas como coisa a ser possuída, ficarem longe das decisões e por fim precisarem jornadas duplas de trabalho porque são mulheres.

É tempo da Igreja católica também repensar o papel das mulheres na evangelização, nos vários ministérios e nas esferas das decisões. De modo especial as mulheres consagradas precisam ser reconhecidas e assumir cargos de decisão, além de possibilidades de estudos superiores e formação teológica.

Frei Valmir Ramos, OFM


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26º Domingo do Tempo Comum: “Quem não é contra nós é a nosso favor!”

LEITURAS: Nm 11,25-29 / Sl 18 / Tg 5,1-6 / Mc 9,38-43.45.47-48

Quem não é contra nós é a nosso favor”. Esta foi a resposta de Jesus quando os discípulos estavam enciumados e queriam que Jesus proibisse a ação de alguém de fora do grupo deles. Não mudou nada da época da primeira leitura quando vemos Josué querendo proibir os profetas de agirem em nome de Deus. Moisés respondeu chamando a atenção para não ter ciúmes da ação de Deus, o que significa não tomar posse da ação e da vontade de Deus.

Os discípulos de Jesus queriam ser os patrões, os donos do Evangelho e do Reino. Queriam controlar a vontade de Deus e a vontade de Jesus. Assim como Jesus, Moisés abriu os horizontes para a compreensão de que não se pode aprisionar a vontade de Deus e de que todos os que fazem a sua vontade são autorizados a agir em seu nome.

Os discípulos de Jesus queriam ser os únicos depositários de sua missão que era instaurar o Reino de Deus, que é Reino de Justiça, de Paz e de Vida plena. Por sua vez, Jesus mostra que o critério para distinguir seus seguidores é não ser contra o Evangelho e contra o próprio Jesus. No fundo, é a vivência do amor verdadeiro que distingue quem faz a vontade de Deus, quem é seguidor de Cristo, e não apenas o nome do grupo ou da Igreja.

Jesus ainda aproveita para orientar os seus seguidores a não escandalizarem nenhum “desses pequeninos que creem”. Escandalizar significa fazer distanciar do Evangelho, distanciar de Deus. Jesus faz referência a todos os responsáveis por anunciar o Evangelho e construir o Reino diante daqueles que seguem o Evangelho. Aí usa imagens fortes que dá impressão de haver necessidade de mutilação. Na verdade ele ensina que se deve deixar as ações que não condizem com a vontade de Deus: a mão que rouba ou que não partilha, o pé de conduz para caminhos injustos e não para perto dos sofredores, o olho que cobiça e não enxerga a imagem de Deus nos irmãos… Tudo chama à conversão para viver o verdadeiro amor que identifica os seguidores de Jesus.

São Tiago na segunda leitura faz duras críticas aos apegados à riqueza que não conseguem colocar a confiança em Deus e realizar a partilha com os trabalhadores, com os justos e os que passam fome. O poder das riquezas seduzia e ainda seduz os cristãos afastando-os do verdadeiro amor a Deus e ao próximo.

Hoje os cristãos correm os mesmos riscos: o de pensarem que são donos do anúncio do Evangelho e de serem os únicos autorizados a falar em nome de Jesus e aquele de armazenarem coisas pensando que lhes darão segurança e salvação.

Frei Valmir Ramos, OFM


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25º Domingo do Tempo Comum: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”

LEITURAS: Sb 2,12.17-20 / Sl 53 / Tg 3,16-4,3 / Mc 9,30-37

Jesus iniciou a sua missão com os discípulos anunciando a Boa Nova com ensinamentos e sinais do Reino através dos milagres. Os discípulos estão admirados, entusiasmados e, ao mesmo tempo meio confusos, pois ainda não compreenderam bem que tipo de Messias eles estão seguindo. Jesus viaja a pé pelos vilarejos e vai formando os discípulos. No trecho do Evangelho de hoje, Ele anuncia que deverá entregar a vida porque será perseguido pelos poderosos deste mundo. Mas não ficará morto, pois ressuscitará. Este anúncio é feito aos discípulos que deverão continuar a missão interrompida pela morte na cruz.

Os discípulos não compreendem Jesus e ainda discutem entre eles sobre questões bem distantes dos ensinamentos do Mestre. Na prática eles estão preocupados com o prestígio de cada um, tentando cada qual pegar a maior fatia do poder, uma vez que são seguidores de um Mestre que faz bem todas as coisas e impressiona as multidões. Discutir quem é o maior entre eles é permanecer na lógica do mundo onde as pessoas só pensam em dominar os outros e tirar proveito das situações. Jesus é categórico em dizer “quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos”. A sabedoria de Deus não está em ser o primeiro, o maior, mas em ser justo e servir os pequenos.

Na primeira leitura vemos como o justo incomoda aqueles que são ímpios e transgressores da lei de Deus, por isso é perseguido e expulso do meio deles. Com Jesus não será diferente.

Na segunda leitura São Tiago proclama que “a sabedoria vem do alto” e os cristãos são chamados a abraçá-la sem inveja ou rivalidade, mas com atitude de quem tem o coração puro, pacífico, misericordioso, justo e sempre empenhado em produzir bons frutos de justiça.

Como os discípulos e também os cristãos demoram para entender a lógica de Deus, no Evangelho Jesus abraça uma criança e anuncia: “quem acolher uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo”. A criança aí indica todos os pequenos e pobres que são vulneráveis nas mais diversas situações. Jesus então está dizendo aos discípulos e aos cristãos que são estas pessoas que precisam ser servidas e protegidas.

Na Igreja e nas comunidades cristãs também existem aquelas pessoas que querem poder e privilégios, mas Jesus continua insistindo que seus seguidores sejam servos, sejam justos, coloquem-se do lado dos pequenos e nunca se vangloriem dos cargos ou ministérios, pois o Mestre e Senhor se fez servo de todos e entregou a própria vida.

Frei Valmir Ramos, OFM


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24º Domingo do Tempo Comum: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga!”

LEITURAS: Is 50, 5-9a / Sl 114 / Tg 2, 14-18 / Mc 8, 27-35

Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. Este é o ensinamento de Jesus aos discípulos e à multidão que ia ao encontro dele a fim de ouvir a Palavra de Deus e ser curada de seus males. Esta afirmação vem logo depois do diálogo com os discípulos sobre a identidade de Jesus. Vindos de uma missão, Jesus pergunta sobre quem o povo diz que Ele é, e finalmente sobre quem os discípulos pensam que Ele seja. Pedro reponde por todos: “Tu és o Messias”, que quer dizer Cristo, aquele que salva. Apesar desta afirmação, Pedro não tinha entendido bem a missão de Jesus. Isto foi a causa da resposta dura de Jesus, que tem o sentido de exortação para que Pedro fosse para trás de Jesus, para segui-lo em tudo, e não ser uma pedra de tropeço e obstáculo ao seu projeto.

Aí compreendemos a revelação de Jesus que é enviado pelo Pai para Salvar a todos. Ele é visto como profeta, mas não á apenas profeta. É o Ungido, o Messias, o Cristo, é Deus mesmo que assumiu a condição humana e por isso se diz “Filho do Homem”. A reação de Pedro diante do anúncio da condenação e morte por parte dos chefes religiosos pode ser interpretada como aquela de alguém que ainda não entendeu que o Cristo é senhor da vida e vencedor da morte. Na verdade, os seus seguidores são convidados a abraçar o mesmo projeto, seguir o mesmo caminho, tomar a mesma cruz e depois ressuscitar com Ele.

Na primeira leitura, o profeta Isaías mostra o servo sofredor que não volta atrás diante das ameaças. Ele tem uma missão a cumprir e sabe que será perseguido e torturado, mas sabe também que “o Senhor Deus é o seu auxiliador”, por isso segue fiel a quem o enviou.

Na segunda leitura, o Apóstolo Tiago afirma que “a fé se não se traduz em obras, por si só é morta”. Isto significa que a fé é viva e deve ser anunciada e revelada pelas obras e não apenas pelo testemunho de discursos. Os seguidores de Jesus nas comunidades primitivas estavam se esquecendo que o amor a Deus se revela no amor aos irmãos e irmãs, especialmente àqueles mais sofredores que têm a vida ameaçada pela fome ou pelo frio.

Hoje os cristãos precisam colocar-se no caminho de Jesus, tomar a cruz que significa abraçar o seu projeto de construção do Reino de Deus e defesa da vida, mesmo que isto custe perseguição e morte. Por outra parte, não podem ser impedimento à construção do Reino de justiça e paz.

Frei Valmir Ramos, OFM


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23º Domingo do Tempo Comum: “Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar!”

LEITURAS: Is 35,4-7a / Sl 145 / Tg 2,1-5 / Mc 7,31-37

Quando João Batista mandou perguntar a Jesus se Ele era o Messias, a resposta foi que “os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5). Isto significa que Deus cumpriu sua promessa de acudir os sofredores e marginalizados de seu povo e enviou Jesus como Messias, Salvador. É Jesus o libertador das situações desumanizantes que os pobres precisam enfrentar.

No Evangelho de hoje Jesus está cumprindo a sua missão fora da Galileia. Isto indica que Ele veio salvar a todos e não apenas um grupo. Sua ação narrada no Evangelho é a de devolver a dignidade ao surdo-mudo. É bom lembrar que as pessoas com alguma necessidade especial eram tidas como pecadoras ou possuídas por um espírito impuro. Ou então eram filhas de pais pecadores e, por isso mesmo, eram discriminadas e marginalizadas na sociedade e no culto. Por isso, vemos nos Evangelhos que os cegos, os surdos-mudos, os aleijados precisam pedir esmolas para não morrerem de fome. Quando Jesus cura o surdo-mudo está indicando que a profecia de Isaías, que ouvimos na 1ª leitura, já se cumpriu. É Ele o enviado por Deus para perdoar os pecados, curar as enfermidades, devolver a dignidade e evangelizar os pobres.

Na interpretação dos judeus (fariseus, saduceus e mestres da Lei), Jesus é um charlatão. Eles não aceitam que Deus tenha se encarnado e que sobreponha a lei do amor aos preceitos religiosos criados ao longo dos séculos. De fato, quando Jesus cura o surdo-mudo, tido como pecador, Ele está dizendo que aquele surdo-mudo está perdoado ou não tem pecado. Isto para os judeus é um escândalo. Mas Jesus não faz diferença entre as pessoas e acolhe todas: mulheres, crianças, pobres, doentes, pecadores e estrangeiros.

São Tiago na 2ª leitura dá um puxão de orelha na comunidade cristã que começou a fazer distinção entre as pessoas ricas e pobres. Já naquele tempo o “prestígio” do mundo queria ser mantido na comunidade religiosa. Mas, Jesus havia dito aos discípulos “vós todos sois irmãos” e indicava assim que a sua nova família seria de pessoas com os mesmos direitos e deveres, sem maiores ou menores, e todos com a mesma dignidade e importância.

Hoje nós precisamos continuar a missão de Jesus de restituir a dignidade a quem a teve tirada ou roubada, de “curar” os surdos-mudos, os cegos, os doentes, os aleijados. A forma para fazê-lo é inseri-los na sociedade de modo que vivam integrados e dignamente, mesmo com necessidades especiais. Em nossas comunidades não podem subsistir os “sobrenomes” em detrimento à dignidade e importância dos pobres.

Frei Valmir Ramos, OFM


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22º Domingo do Tempo Comum: “O que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior!”

LEITURAS: Dt 4,1-2.6-8 / Sl 14 / Tg 1,17-18.21b-22.27 / Mc 7,1-8.14-15.21-23

Jesus inaugura uma nova forma de viver a religiosidade, superando o ritualismo e vivenciando a vontade do Pai na prática. O ritual da purificação (feita com aspersão de água) era uma maneira de livrar-se de tudo que impedia a pessoa de aproximar-se daquilo que era sagrado. Acontece que os fariseus e mestres da Lei queriam observar o rito de lavar-se apenas fisicamente, exteriormente. De fato, as leis de purificação surgiram a partir da classificação das coisas impuras, incluindo pessoas doentes, mulheres durante a menstruação e animais como o porco e o camelo. Daí surgiram as leis e os ritos de purificação a serem observados antes das orações e das refeições.

Jesus mostra aos fariseus que nada vale a purificação externa e sim aquela interna, com a superação do pecado e a vivência do amor para realizar a vontade do Pai. Os discípulos de Jesus estavam já superando aquele ritualismo. Enquanto os fariseus e mestres da Lei insistem na purificação, Jesus quer a realização do Reino de Deus através das obras concretas, como diz São Tiago na segunda leitura: “sede praticantes da Palavra e não meros ouvintes”. E São Tiago continua: “a religião pura é assistir os órfãos e as viúvas em suas tribulações e não deixar-se contaminar pelo mundo”. Esta é a forma de guardar os mandamentos de Deus que vemos na primeira leitura, isto é, viver concretamente o amor para com as pessoas que mais sofrem. Órfãos e viúvas representam as pessoas mais vulneráveis, pois naquele tempo uma pessoa sem família estava fadada a morrer de fome. O “mundo” quer dizer o conjunto de falsos valores e injustiças praticadas por causa do egoísmo, da ganância, do ódio, da discriminação e da falta de respeito pelo outro.

Esta Palavra é atual e chega a todos os cristãos para que não vivam a sua fé em ritualismos estéreis. De fato, o que Jesus ensina é que a fé exige obras. Por isso, o mesmo São Tiago vai insistir nas obras para revelar a fé e a fidelidade dos cristãos. Jesus dá uma orientação clara em relação ao culto que precisa estar ligado à vida e à prática do amor. Aos fariseus ele cita a própria Sagrada Escritura dizendo “de nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos”. Isto também é atual para os cristãos, uma vez que é costume usar muita solenidade em certas celebrações mas sem importar-se e nem ouvir o grito dos “órfãos e viúvas” de hoje.

Frei Valmir Ramos, OFM

21º Domingo do Tempo Comum: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!”

LEITURAS: Js 24,1-2a.15-17.18b / Sl 33 / Ef 5,21-32 / Jo 6,60-69

A quem iremos Senhor? Tu tens palavra de vida eterna!” Esta é a declaração de São Pedro que ainda não entende completamente o que Jesus está dizendo e fazendo, mas vê nele a esperança da vida eterna. No final do capítulo 6 do Evangelho segundo São João vemos os discípulos assustados com a verdade de Jesus. Significa que estão vacilantes na fé e ainda não conseguem ver que Jesus é “espírito e vida”, que o seu Reino não é material, que segui-lo exige uma escolha decidida pela vida e pelos mais pobres e sofredores.

Todo o capítulo 6 de São João é a revelação de Deus que assumiu a humanidade e veio saciar o seu povo de vida plena. Para isso Jesus se doa como alimento da alma. Ele contrapõe carne e espírito, vida material e vida espiritual. Na Sagrada Escritura carne significa morte, porque é limitada e corruptível. Quando Jesus diz que suas “palavras são espírito e vida” indica uma dimensão espiritual que o ser humano é chamado a desenvolver para participar da vida de Deus.

Jesus afirma que Ele é “o pão que desceu do céu” e que a sua “carne é verdadeira comida” e seu “sangue verdadeira bebida”. Muitos ouvintes de Jesus não acreditam n’Ele, pois não conseguem imaginar que Deus pudesse assumir a carne humana, viver entre eles e entregar a própria vida para que outros pudessem havê-la em abundância. Muitos discípulos também reagiram dizendo “esta palavra é dura” e abandonam o seguimento de Jesus, por ser exigente a ponto de dar a vida por amor.

O profeta Josué na primeira leitura mostra como o povo está resistente em seguir os mandamentos de Deus. Queriam vive-los de acordo com a própria concepção, ignorando a necessidade de amar os irmãos. Por isso, o profeta diz ao povo: “escolhei hoje a quem quereis servir”. Muitos estavam na idolatria dos deuses estrangeiros e viviam uma religião voltada para o próprio interesse.

Para entender a segunda leitura é preciso evitar os equívocos de um tempo. Seu autor (esta carta é apenas atribuída a São Paulo) é fruto de uma sociedade machista que submetia a mulher. Jesus mostrou que a mulher tem a mesma dignidade do homem. Os dois formam uma só carne e por isso ambos vivem uma mesma vida de amor e respeito. Na mesma leitura o autor fala de como Cristo alimenta e cuida da sua Igreja, entendida como esposa. De fato, todos os cristãos são alimentados pelo Cristo que se doa e permite a comunhão de todos com Ele. Esta comunhão exige dos cristãos o compromisso com a sua missão de garantir vida plena para todos.

Frei Valmir Ramos, OFM


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Solenidade da Assunção de Nossa Senhora: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador!”

LEITURA: Ap 11,19a;12,1-3.6a.10ab / Sl 44 / 1Cor 15,20-27a / Lc 1,39-56

Lucas faz de Maria a profetiza que anuncia com seu cântico as maravilhas que Deus faz para o seu povo. No cântico que lemos no Evangelho, Maria personifica o seu povo que canta a grandeza de Deus salvador. Maria foi ajudar a sua prima Izabel que estava nos últimos meses de gravidez e lá ocorre o primeiro encontro entre Jesus e João Batista, ambos nos úteros de suas mães.

Maria proclama que Deus “olhou para a humildade de sua serva”. Isto significa que Deus não se esquece de seus filhos e filhas em sua fragilidade humana. Ela proclama que Deus “mostrou a sua força” e “derrubou do trono os poderosos”. Esta é uma referência clara de que Deus não quer a submissão de nenhum povo, pois com a submissão vem a falta de liberdade, as injustiças e a fome. Por isso, Ele “encheu de bens os famintos”. Este cântico da jovem Maria traz o cumprimento das promessas bíblicas com a ação concreta de Deus que salva o seu povo. Não foi apenas uma vez que o povo de Jesus precisou enfrentar a opressão e a morte. Porém, com a vinda de Jesus, o “último inimigo a ser destruído é a morte” diz São Paulo na segunda leitura.

Na primeira leitura vemos uma imagem da Igreja na figura de uma mulher. A liturgia faz a interpretação como sendo Maria, aquela que está grávida e é ameaçada pelo dragão. O autor do livro do Apocalipse fala da Igreja que é perseguida, carrega consigo Jesus ressuscitado, anuncia o seu Evangelho, o Reino de Deus, mas o Império Romano quer destruí-la. O dragão é o Império que não permite o culto ao Deus verdadeiro. É legítimo atribuir esta leitura à festa da Assunção, pois Maria, mãe de Jesus e mãe de Igreja, é aquela que trouxe ao mundo Jesus. Através d’Ele veio a ressurreição dos mortos, diz São Paulo na segunda leitura. Maria é a portadora do Deus verdadeiro que não admite a opressão do Império Romano e de nenhum outro império ou imperador.

Ao celebrar a Assunção de Maria, todos os seguidores de Jesus são convidados a abraçar profeticamente a missão de anunciar a santidade de Deus e sua presença libertadora no meio de seus filhos e filhas ameaçados pela morte prematura. Também são convidados a abraçar as ações de defesa da vida das pessoas e do planeta criado pelo Deus da vida. Maria mereceu ser levada para junto de Deus porque aceitou cumprir a missão de mãe, de profetiza, de serva obediente ao projeto de Deus. Seu amor foi grande a ponto de colocar-se nas mãos de Deus para que suas promessas se cumprissem para toda a humanidade.

Frei Valmir Ramos, OFM


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19º Domingo do Tempo Comum: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente!”

LEITURAS: 1Rs 19,4-8 / Sl 33 / Ef 4,30-5,2 / Jo 6,41-51

Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”. Esta é a revelação de Jesus que São João coloca no ápice de sua narração do capítulo 6 de seu Evangelho. Este pão é a Palavra de Deus encarnada, por isso os judeus que ouviam o discurso de Jesus murmuravam numa atitude de incredulidade, pois eles conheciam Jesus como o filho de José carpinteiro e não como o enviado de Deus que assumiu a condição humana.

Jesus insiste e se apresenta como sendo a Palavra na qual a humanidade precisa acreditar. Como Palavra encarnada, Ele se oferece em sacrifício como alimento para a vida eterna. Esta é uma referência à Eucaristia que dará aos seus seguidores a possibilidade de permanecer em comunhão de vida com Ele. Daí a necessidade de desenvolver a fé para enxergá-lo presente na simplicidade do pão material, como Ele mesmo está visível aos seus discípulos e aos judeus.

São Francisco tinha especial reverência à Eucaristia pois reconhecia a presença de Jesus vivo, como também estava presente nos irmãos e irmãs sofredores.

Já no Antigo Testamento Deus tinha revelado ao seu povo que é o Deus da vida, por isso, providencia o pão para seus filhos e filhas. Com a vinda de Jesus, cumpre-se a vontade do Pai de saciar a fome neste mundo e levar todos à vida que não tem fim.

Na primeira leitura vemos que Elias no deserto estava por morrer de fome. Na prática ele não queria continuar a sua dura missão como profeta. Deus, que o escolheu, providenciou o pão que lhe era necessário para continuar a missão. O anjo é o mensageiro de Deus que diz a ele “levanta e come”. Isto quer dizer que ele não pode esquivar-se da missão. Ele precisa pensar no povo de Deus, seus irmãos e irmãs.

O autor da Carta aos irmãos de Éfeso exorta para viver no amor como Cristo viveu e entregou-se por nós. Esta mensagem é atual, pois a vivência do amor faz superar todas as mesquinharias humanas, o egoísmo, a indiferença, e coloca o cristão atendo à fome do próximo e à necessidade de manter-se em comunhão com Jesus. É esta comunhão com Ele que dá sentido às ações de caridade e doação para que todos tenham vida em abundância. Por outro lado, a comunhão com Jesus exige compromisso com a sua missão de construir o Reino de Deus neste mundo.

Frei Valmir Ramos, OFM