2º Domingo da Páscoa: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

LEITURAS: At 4,32-35 / Sl 117 / 1Jo 5,1-6 / Jo 20,19-31

“A paz esteja convosco!”. O Deus da paz, nascido “príncipe da paz”, agora ressuscitado saúda os seus discípulos desejando a paz com o sentido de “salvação”, de vitória sobre o mundo, sobre a injustiça, sobre a morte. A vitória de Jesus revela o poder do “Deus dos vivos, não dos mortos” (Mc 12,27), que é o Senhor da vida.

Agora seu corpo não tem mais os limites da vida terrena. Os discípulos estavam fechados e o Ressuscitado apareceu no meio deles. Sua presença será constante e em todos os lugares onde estiverem seus seguidores. Foi difícil para os discípulos entenderem o que estava acontecendo. O final do Evangelho de Marcos traz uma síntese das aparições de Jesus ressuscitado dizendo que apareceu a Maria Madalena, a dois discípulos que iam para o campo e depois aos onze (cf Mc 16,9-14). Ainda assim Tomé quer ver as chagas de Jesus de Nazaré. Ele, como os demais discípulos, percorreu um caminho de crescimento na fé para chegar ao reconhecimento de Jesus ressuscitado como “meu Senhor e meu Deus” e nem precisou tocá-lo.

Jesus ressuscitado cumpre a promessa feita aos discípulos de que enviaria o Espírito. A narração deste trecho do Evangelho indica que foi no mesmo dia da ressurreição que Jesus “soprou” sobre os discípulos. É o “sopro” de Deus, a força criadora de Deus, o Espírito Santo. De fato, a compreensão bíblica do Espírito de Deus parte da palavra que significa “sopro”, um vento que dá vida. O gesto de Jesus transforma a vida dos discípulos e faz nascer a sua nova família, a Igreja, que vai se fortalecer e continuar missão que Jesus recebeu do Pai: “como o Pai me enviou, eu também vos envio”. De fato, sem medo, os discípulos iniciaram a missão de anunciar o Evangelho de Cristo, que é Ele mesmo, sua vida e seus ensinamentos.

Nos Atos dos Apóstolos vemos como eles acolheram os ensinamentos de Jesus de viver o amor fraterno sem ficar presos aos bens materiais. Viveram uma experiência de responsabilidade uns pelos outros na qual nenhum passava necessidade. Assim brilhava a solidariedade entre os irmãos e irmãs seguidores de Jesus ressuscitado. A missão dos Apóstolos era realizada com o poder do Espírito Santo e o testemunho de vida nova na comunidade cristã.

São João na sua primeira carta anuncia o Cristo ressuscitado como Filho de Deus e faz um apelo para que os cristãos vivam o amor e observem os mandamentos. Este será o sinal do verdadeiro discípulo missionário que vive a solidariedade. Hoje também é assim.

Frei Valmir Ramos, OFM

Domingo da Páscoa: O sepulcro está vazio, Ele vive!

LEITURAS: At 10,34a.37-43 / Sl 117 / Cl 3,1-4 / Jo 20,1-9

A vida venceu a morte!

Os discípulos chegaram ao túmulo vazio “viram e creram”. A passagem do Evangelho de João indica os primeiros movimentos do Domingo da Ressurreição que levam os discípulos à fé na Ressurreição de Jesus.

Ainda estava escuro e Maria Madalena, que é a primeira testemunha ocular da Ressurreição, foi ao túmulo de Jesus. O texto é repleto de movimento dela e dos discípulos. O que à primeira vista parece muito simples, na verdade pode indicar um processo de crescimento dos personagens deste texto. Maria Madalena é uma discípula que vai reverenciar o seu Mestre e prestar suas homenagens. Esta mulher marginalizada torna-se a primeira anunciadora da Ressurreição. Vai correndo aos discípulos porque viu o túmulo vazio. Os discípulos, certamente tristes e desiludidos, ao ouvirem que o túmulo está vazio correm para verificar. Eles ainda não entendiam o que estava acontecendo e não acreditavam, mas veem os lençóis dobrados no chão e na cabeceira. No vazio do sepulcro começaram a perceber a presença do Ressuscitado.

Pedro tornou-se um gigante na fé e coluna da Igreja sustentada por aquele que venceu a morte. Na primeira leitura vemos como Pedro anuncia que mataram Jesus em uma cruz em Jerusalém, “mas Deus o ressuscitou no terceiro dia”. O anúncio dos Apóstolos e dos discípulos e discípulas era acompanhado pela força do Ressuscitado e fez com que multidões se tornassem seguidoras de Jesus. A forma de entrar para a família do Ressuscitado sempre foi através do batismo. Nele morremos com Cristo e ressuscitamos com Cristo. São Paulo na segunda leitura adverte os colossenses e todos os cristãos que é preciso pensar e buscar as coisas do alto. Isto indica que a Ressurreição de Jesus é o núcleo da fé cristã e exige um comportamento de defesa da vida, da paz que preserva a vida, do respeito mútuo que evita todo tipo de violência.

Hoje existem muitos sinais de Ressurreição apesar de tanta violência. É a vida que vence a morte. Os violentos se iludem como os poderosos se iludiram pregando Jesus numa cruz. A Páscoa se repete silenciosamente, pois a vida é mais forte do que a morte.

Frei Valmir Ramos, OFM

Mensagem do Custódio em ocasião da Páscoa

É Páscoa! Aleluia, o Senhor ressuscitou!

“Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo?” (Mc 16, 3). Esta foi a pergunta que as mulheres fizeram entre si nos primeiros raios de sol daquele domingo, que tornara o dia sem ocaso, o Domingo da Ressurreição. Na verdade, não havia mais a pedra obstruindo a entrada ao túmulo porque já não havia mais a morte como castigo. A libertação dos filhos de Deus já estava consumada de uma vez por todas com a Ressurreição do Seu Filho, o Cristo, o Ungido.

Muitas vezes acreditamos que a pedra ainda obstrui a passagem do encontro com Jesus, o Ressuscitado. A pedra já não é empecilho, mas, pela nossa pouca fé e medo, resistimos à entrada ao túmulo. Quem não entra no túmulo da humildade, do perdão, do amor, da conversão, do renovar-se, não contempla a ressurreição. Não ouve o alegre anúncio do Anjo: “Ele ressuscitou. Não está aqui” (Mc 16, 6).

Que pela força do Espírito que o Ressuscitado mesmo nos conferiu, possamos vencer as barreiras que nos impedem desse encontro, tais como: o medo, a incredulidade, o egoísmo, a injustiça, o extremismo, a apatia, a intolerância, o preconceito e falta de caridade. Que a Luz do Cristo ressuscitado ilumine as trevas dos nossos corações e do mundo inteiro e os faça arder do seu amor e da bendita esperança que nos faz mirar ao longe com a certeza da vida que se refaz a cada instante, não obstante, os sinais de morte que nos rodeiam. Que possamos gritar ao mundo com as nossas ações transbordantes da certeza de que a morte foi vencida e a vida sempre prevalecerá porque o Senhor reina para sempre.

“Não vos assusteis. Ele ressuscitou!” (Mc 16, 6)

Feliz Páscoa!

Franca, 03 de abril de 2021

Solenidade da Vigília Pascal

 

Frei Fernando Aparecido dos Santos, OFM

Custódio

Vigília Pascal: “Ele ressuscitou! Não está aqui.”

Cristo ressuscitou, aleluia!

Depois de apresentar os momentos mais importantes da história da salvação em que Deus criou tudo por um amor infinito, a liturgia nos faz reviver a alegria da ressurreição de Jesus. De fato, desde a criação da humanidade, vemos Deus presente com os seus filhos e filhas para dar-lhes vida, para libertá-los da opressão, para garantir-lhes vida plena e para dar-lhes vitória sobre a morte.

No Domingo, as mulheres discípulas de Jesus que tinham acompanhado a sua morte vão ao túmulo para oferecer-lhe a dignidade e a honra ao Mestre que entregou a sua vida pelos seus. O perfume é um sinal de exalação da presença de uma pessoa que depois passou a ser usado no rito fúnebre como testemunho de respeito e amor pelo ente querido que morreu. Acontece que as mulheres não encontraram Jesus, pois quando chegaram ao túmulo viram que a pedra que fechava a sua entrada estava removida e lá dentro tinha “um jovem vestido de branco”. “Muito assustadas”, sem dizer nada, ouvem o anúncio de que “Jesus de Nazaré que foi crucificado” não estava lá, tinha ressuscitado. 

São Marcos apresenta o anúncio daquele “jovem vestido de branco” como realização do que Jesus mesmo tinha dito. Agora o túmulo está vazio, “não está aqui” diz o jovem. Mas Ele quer encontrar os seus discípulos na Galileia, lá onde Ele tinha iniciado a sua missão e de onde os discípulos deverão dar continuidade à construção do Reino de Deus. O anúncio da ressurreição é seguido do envio das mulheres como primeiras testemunhas da vitória da vida sobre a morte. Elas devem dizer aos discípulos de Jesus e a Pedro que o Ressuscitado os espera na Galileia.

A grande vitória da vida sobre a morte deixa o Domingo repleto da alegria da Páscoa cristã. A ressurreição abateu o poder da morte que Jesus venceu passando pela cruz. O testemunho de Paulo na carta aos Romanos é contundente dizendo “sabemos que Cristo ressuscitado dos mortos não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele”. Por isso, aqueles que morrem com Cristo, viverão com Ele. Esta certeza deve encher os cristãos de
alegria como filhos e filhas amados por Deus e enviados ao mundo como testemunhas de que a vida vence a morte.

A Páscoa dos cristãos hoje deve ser repleta de alegria e, ao mesmo tempo, deve ser uma ocasião de envio ao mundo, tão ferido de morte, para testemunhar que a vida tem mais poder, é dom de Deus e precisa ser defendida com amor.

Frei Valmir Ramos, OFM

Mensagem de Páscoa da Irmã Cleusa, presidente da CFFB

Irmã Cleusa Aparecida Neves, CFA (Presidente da CFFB) – Imagem: CFFB

MENSAGEM DE PÁSCOA

“Não temais! O crucificado ressuscitou […]”. “Desapareceu a amarga raiz da cruz, desabrochou a flor da vida com seus frutos”. “Quem jazia na morte ressurgiu na glória.” “De manhã ressurgiu, quem à tarde fora sepultado”, para que se cumprisse a palavra do salmo: “De tarde estaremos em lágrimas, e de manhã em alegria!”
Sermão de Santo Antônio, Páscoa do Senhor (1)

Queridos Irmãos e Irmãs, Feliz e abençoada Páscoa!

Mais um ano vivenciamos a alegria da Páscoa em meio à pandemia provocada pelo Covid-19. Tempo marcado pela angústia e incerteza; pela tristeza causada por tantas vidas ceifadas pela “nossa irmã a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar” (Cnt 12) e pelas mudanças radicais na rotina de nossas vidas. Regada por lágrimas, nossa peregrinação existencial está sendo provada.

Narra o evangelista João (20, 1-18) que, após a morte de Jesus, Maria Madalena faz uma experiência de profunda dor e inconformidade e sua dor é acrescida por grande aflição no momento em que vai ao túmulo de madrugada e encontra-o vazio (v. 1). Diante do túmulo violado, ao perceber que o corpo de Jesus não estava lá, aflita, sai correndo para dar a notícia aos discípulos, retornando com eles ao local. Após constatarem o ocorrido, os discípulos retornam para suas casas e ela permanece junto ao túmulo, chorando (v. 10.11). E não tardou, seus olhos contemplam “quem à tarde fora sepultado e de manhã ressurgiu”: o Mestre (v. 16). Quanta alegria após tantos momentos de profunda dor, angústia e aflição! Ficando com ela a incumbência de levar a notícia, célebre é seu anúncio aos discípulos: “Eu vi o Senhor” (v. 18).

Na realidade contemporânea vivenciamos ou presenciamos de forma intensa, dor, luto, angústia e inconformidade pela morte de nossos parentes, amigos e por sabermos que milhares de pessoas de diferentes nacionalidades morrem sem condições dignas de atendimento, principalmente no Brasil. O momento é de sofrimento, mas nossa fé e esperança garantem-nos: manhãs de alegria virão. O crucificado ressuscitou, está entre nós e sabe de nossas dores e sofrimento, não nos abandona.

Irmãs e irmãos da Conferência da Família Franciscana do Brasil, ao celebrarmos a Páscoa possamos anunciar: Cristo Ressuscitou, está vivo entre nós! Não podemos vê-lo como Maria Madalena (Jo 20, 18) nem tocá-Lo como os discípulos (Jo 20, 20), mas podemos tocá-Lo através da experiência da fé que professamos e do acolhimento e cuidado para com os frágeis de nossas famílias, fraternidades e da sociedade, principalmente nossos irmãos e irmãs cada vez mais pobres e sofredores. Que se abram nossos olhos para reconhecê-Lo e, nossos ouvidos, para ouvi-Lo a dizer-nos: “A paz esteja com vocês” (Jo 20, 19-21).

Na alegria da Páscoa do Senhor, em Francisco e Clara, fraterno abraço.

Brasília, 02 de abril de 2021
Sexta-feira da Paixão do Senhor da Páscoa

Irmã Cleusa Aparecida Neves, CFA
Presidente da CFFB

Fonte: CFFB

Sexta-Feira Santa: “A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores”

LEITURAS: Is 52,13-53,12 / Sl 30 / Hb 4,14-16; 5,7-9 / Jo 18,1-19-42

São João Evangelista narra a paixão e a morte de Jesus com detalhes de uma testemunha e afirma categoricamente a identidade de Jesus: Filho de Deus, Rei do universo, Salvador da humanidade. Jesus se entrega aos que o procuravam durante a noite no Jardim das Oliveiras: “sou eu”. Ele não foge diante do perigo de morte, nem abre mão do projeto do Pai que é instaurar o Reino de amor.

O Filho de Deus é reconhecido como aquele “Servo” anunciado pelo profeta Isaías que é humilhado, mas não renuncia à sua missão. O profeta anunciava: “a verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores”. Por um amor infinito é que o Filho de Deus se fez servo e o profeta anunciava que Ele “resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores”. E não só para salvar dos pecados o Filho de Deus se fez Servo, mas também para implantar o Reino de Deus neste mundo. No texto do Evangelho desta Sexta-feira santa vemos aparecer 8 vezes a palavra “rei” e mais 4 vezes a palavra Reino. “O meu Reino não é deste mundo”, diz Jesus, pois Pilatos pensava só no reino de poder e domínio, e Jesus atua para construir um Reino de justiça, de paz, de vida em abundância para todos. Por isso Ele é “Jesus” Nazareno, palavra que significa “Deus Salva”. O Evangelista usa a palavra Jesus bem 55 vezes nesta narrativa da paixão.

Pilatos era governador da Província romana da Judeia. A sua figura mingua diante de Jesus que cresce sempre mais como Rei. São João é o único a dizer que ele queria liberar Jesus, mas os sumos sacerdotes impuseram-lhe a pena de morte por causa da afirmação que era o “Filho de Deus”. Esta é a verdade de Jesus que os judeus não aceitaram e recorreram ao governador para a sentença de morte. O governador fez a escolha do poder e do prestígio diante do imperador César. A cruz era a pior forma de condenação dos malfeitores. Para Jesus, no entanto, ela torna-se o trono do Reino de serviço.

Os discípulos de Jesus foram formados neste caminho de serviço, pois o Mestre não recusou a cruz, a própria morte, e “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” como vemos na carta aos Hebreus.

São João também é o único a narrar as palavras de Jesus à sua mãe que estava ao pé da cruz com um discípulo e outras discípulas: “este é o teu filho… esta é a tua mãe”. Para o evangelista a morte de cruz cumpre as Escrituras que falavam do Filho de Deus e inicia o tempo do Reino de Deus neste mundo contando com os seguidores de Jesus.

De fato, os discípulos entenderam o mistério da cruz quando Jesus apareceu-lhes ressuscitado e enviou-lhes ao mundo para anunciá-lo e construir o seu Reino. Eis porque a cruz tornou-se sinal de salvação. Hoje os cristãos são chamados a viver a solidariedade com todos que são crucificados com Jesus e lutar juntos para a libertação das amarras e dos sistemas que levam à morte.

Frei Valmir Ramos, OFM

Quinta-Feira Santa: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei!”

LEITURAS: Ex 12,1-8.11-14 / Sl 117 / 1Cor 11,23-26 / Jo 13,1-15

O livro do Êxodo traz a narração da celebração da festa da Páscoa que dá início a uma longa tradição judaica que, por sua vez, dá um novo sentido a esta festa. O que antes era uma festa familiar realizada no início da primavera com a imolação de um animal jovem para pedir as bênçãos sobre todo o rebanho, torna-se a celebração da libertação do cativeiro e da escravidão no Egito. Moisés institui que cada família imole um cordeiro, mas deve acontecer a partilha entre as famílias e todas devem usar o sangue como sinal de pertença ao povo hebreu.

Jesus quer comemorar a Páscoa com os seus discípulos, mas não tem um cordeiro para imolar. A preparação é feita em uma casa de família com apenas pão e vinho. Jesus dá graças ao Pai pelo alimento, sinal do seu amor eterno pela humanidade, e Ele mesmo se torna o pão da vida eterna. São Paulo escreve aos Coríntios o que desde o início os discípulos celebravam para tornar presente o que Jesus havia feito naquela noite: através do pão e do vinho Ele se fez o cordeiro e doou-se como alimento aos seus discípulos. O seu corpo e o seu sangue como sinal da “nova e eterna aliança”.

O que Jesus realiza é uma entrega total por amor. É por amor à humanidade que Ele vai a Jerusalém sabendo que encontrará a condenação à morte. Na ceia, que seria a última, Ele realiza a Páscoa da nova e eterna aliança. Sua presença no meio do seu povo será constante na forma do alimento espiritual.

O evangelista João narra a ação de Jesus lavando os pés dos discípulos. É uma ação carregada de significado, pois sem mencionar a Eucaristia, João apresenta o serviço do Mestre e Senhor. É o novo memorial que a Igreja celebrará para sempre como serviço, doação, partilha, alimento, vida. De fato, na Eucaristia está a presença viva de Jesus na história da humanidade. Aqueles que enxergam este memorial com fé têm suas vidas transformadas, pois da Eucaristia brota a comunhão com Deus e a caridade.

Sempre que celebramos a instituição da Eucaristia somos convidados por Cristo a retomar nosso empenho com o projeto de Deus. Faz parte da nova aliança: Deus continua empenhando-se com cada um dos seus filhos e filhas; nós nos empenhamos com Deus através do serviço aos irmãos.

Frei Valmir Ramos, OFM

“A mensagem do túmulo vazio”, carta do Ministro Geral para a Páscoa

Meus caros irmãos,

Aproveito desta solene ocasião para desejar a cada um de vós uma abençoada santa Páscoa!

Como ouvimos no trecho do Evangelho de João (Cf. Jo 20,1-9), lido no dia da Páscoa, três amigos e seguidores de Jesus tiveram três experiências muito diferentes do evento do túmulo vazio: Maria Madalena, Pedro e o famoso “outro discípulo”, citado por João. No caso de Maria, vemos que ela chega ao túmulo ‘quando ainda é escuro’, um dos temas teológicos centrais, presentes no Evangelho de João: a luta entre a luz (Justiça) e as trevas (tudo o que não é de Deus). Ela é uma mulher sofredora por ter perdido seu Mestre e amigo. Provavelmente é esse o motivo de ela voltar ao túmulo, a fim de chorar a morte de Jesus e procurar respostas para perguntas que atormentam sua mente e seu coração. Contudo, o que vê provoca uma reação mais profunda, reação de medo, o medo de que malintencionados tenham roubado o corpo de Jesus. Talvez seja esse o motivo que a impele de voltar correndo à companhia dos discípulos e informar-lhes o que seus olhos viram.

O “outro discípulo”, “aquele que Jesus amava”, é a segunda pessoa a chegar ao túmulo antes de Pedro. Talvez porque ele era mais jovem, aguarda fora do túmulo, esperando respeitosamente a chegada do companheiro mais idoso. Somente após a chegada de Pedro e seu ingresso no túmulo, esse “outro discípulo” ousa entrar no espaço sagrado. Quando esse “outro discípulo” finalmente adentra o túmulo, algo acontece em sua vida. Acontece o reconhecimento de que Deus está fazendo algo grande em e através de Jesus – “viu e creu” – mas ainda não era claro o que significavam esses acontecimentos e que diferença teriam feito em sua vida.

Muitos estudiosos da Bíblia concordam em afirmar que esse “outro discípulo” é cada um de nós, seguidores do Senhor Jesus ressuscitado. Como esse discípulo”, talvez também nós nos encontramos em momentos diferentes de nossa vida, a correr em busca de respostas às perguntas da vida, que se tornaram ainda mais evidentes nestes tempos da pandemia Covid-19. Talvez nós, como o “outro discípulo”, chegamos a perceber no vazio, no medo e no isolamento provocados pela pandemia algo diferente em nossas vidas, em nosso mundo, algo que pede uma conversão mais profunda, uma verdade maior, uma justiça e uma paz mais profundas para poder verdadeiramente “ver e crer”. No que consiste esse “ver e crer”? Talvez seja a convicção de que Deus está aqui, que a esperança está próxima, que o amor de Deus em Jesus é um amor que se estende a todas as pessoas e a toda criatura, é mais forte do que a ameaça da pandemia, a ameaça da doença e da morte!

A terceira testemunha desses acontecimentos, Pedro, é aquele que negou conhecer Jesus, durante o processo, a condenação e a crucificação. Talvez seu silêncio seja resultado de seu sentimento de culpa, vergonha e total inconveniência. Muitas vezes, esses sentimentos provocam silêncio. Ele era somente um dos muitos discípulos e amigos que haviam abandonado Jesus, na hora mais obscura. Não há confissão de fé por parte de Pedro, como no caso do “outro discípulo”. Ou melhor, ele recolhe informações e, depois, retorna à “sala fechada com chave”, onde ele e outros discípulos e amigos de Jesus se haviam refugiado. É provável que, juntos, tenham discutido sobre o que haviam visto e percebido. Todavia, o vazio do túmulo e sua mensagem ainda não haviam penetrado nos grossos escudos protetores que Pedro, os discípulos e seguidores de Jesus, e que nós, muitas vezes, construímos para nos proteger daquilo que percebemos como perigo, ameaça, aquilo que nos provoca medo, confusão, raiva e até desprezo.

Meus caros irmãos, teria sido mais encorajador que eu falasse da segunda parte do capítulo 20 do Evangelho de João, que, segundo muitos estudiosos da Escritura, foi acrescentado num momento posterior como que para resgatar os impenetráveis eventos do sofrimento e da morte de Jesus, demonstrando aos discípulos a presença viva do corpo ressuscitado de Jesus. Contudo, creio que esse primeiro “encontro” com o túmulo vazio nos fornece importante instrumento para refletir sobre nossa experiência vivida com a pandemia Covid-19. Claramente, a escuridão cobriu a terra, exatamente como nos tempos primordiais, antes que Deus fizesse emergir a ordem do caos (Gn 1,2). Junto com toda a humanidade, temos vivido as ameaças do caos e do vazio provocado pela pandemia Covid-19. Estávamos isolados, privados de contatos físicos. Tivemos que nos revestir com “escudos” para proteger-nos do desconhecido, mas sempre presente, perigo, em tocaia num organismo invisível, capaz de nos causar grandes danos físicos, mentais, espirituais, sociais, econômicos e em todos os outros modos. Enquanto nos preparamos para sermos vacinados a fim de nos proteger, reconhecemos também que ainda há demasiadas coisas escondidas sobre o vírus para que possamos relaxar. A noite escura ainda não acabou.

A mensagem da Páscoa é mensagem que traz esperança e inspira coragem a todos os que professam a fé no amado Filho de Deus, Jesus. O túmulo vazio não nos dá respostas. Ou, ao contrário, cria um espaço no qual podemos colocar perguntas difíceis. Fornece lugar no qual podemos achar-nos face a face com tudo o que nos causa medo, tudo aquilo que nos empurra a escolher o isolar-nos de Deus, dos outros e por fim de nós mesmos, em vez de escolher a estrada em direção de uma autêntica fraternidade com Deus e com os outros. Enfim, a promessa da ressurreição dá-nos esperança. Todavia, essa esperança não é apenas o resultado de algo que vem de fora de nós, do crer no poder da graça e do amor de Deus. É, enfim, o resultado de uma decisão que tomamos do interior de nossas mentes e de nossos corações para acolher e abraçar Aquele que abraçou a morte a fim de poder conduzir todos nós rumo a uma experiência autêntica daquilo que significa estar vivos. A ressurreição de Jesus apresenta-nos uma escolha radical – viver diariamente na força do amor de Deus, que é mais forte do que os efeitos cruéis e escravizadores da injustiça, do racismo, do ódio, da violência e de uma terra espiritualmente desolada. O de viver na indiferença, no medo e na falta de esperança, oferecidas por tudo o que se opõe à justiça, à santidade, à bondade e à verdade.

Que o amor e a paz, que Jesus oferece a todos os que repõem Nele sua confiança, nos encha de alegria e nos reforce em nossa determinação de abraçar o caminho da cruz, o caminho do Evangelho, a abraçar também o túmulo vazio. Que, como Maria Madalena, “o outro discípulo” e Pedro, possamos experimentar o que significa verdadeiramente estar vivos em Cristo Jesus.

As Bênçãos da alegria pascal a vós, meus caros Irmãos, e também a vós, minhas caras Irmãs Clarissas e Concepcionistas de clausura. Também continuemos a rezar para que a graça amorosa de Deus se derrame sobre nosso Capítulo geral.

Votos de Boa e Santa Páscoa!
28 de março de 2021
Domingo dos Ramos

Frei Michael Anthony Perry, OFM
Ministro Geral e Servo

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil