6º Domingo do Tempo Comum: “A lepra desapareceu e ele ficou curado!”

A fama de Jesus já tinha se espalhado quando um leproso chegou até ele pedindo a cura de sua doença. É bom lembrarmos que a lepra não tinha cura no tempo de Jesus e todos os que eram contagiados deviam ficar isolados, pois já sabiam que a doença era transmissível e, pior, os leprosos eram discriminados e marginalizados. Por isso, vemos na 1ª leitura do livro do Levítico a lei que exigia que o leproso andasse mal arrumado e ainda gritasse que era impuro. Aí tinha também uma questão religiosa, pois acreditavam que por causa da lepra a pessoa nem podia frequentar a sociedade e o templo.

No Evangelho acontece algo novo. O leproso vai até Jesus e diz “se queres, tens o poder de curar-me”. Na prática ele desrespeita a lei antiga e, confiante, pede a Jesus que o cure. Jesus também desrespeita a lei antiga e quebra a lei, o preconceito, a discriminação e a dureza de coração. O amor é maior do que a lei e ele toca no leproso. Para a lei antiga isto significava tornar-se impuro também. Jesus sente compaixão e diz “eu quero, fica curado”. Depois pede segredo, que era uma forma para impedir que as pessoas pensassem que Jesus fosse um mago, e manda o leproso apresentar-se ao sacerdote para ser purificado, pois esta era a lei e assim ele poderia voltar ao convívio.

No tempo de São Francisco de Assis, início dos anos 1200, ainda existia muitas pessoas atingidas pela lepra e também muito preconceito e discriminação. Perto da cidade de Assis, na Itália, existiam “colônias” de leprosos fora das cidades. Estando com os leprosos por amor, São Francisco enxergou Jesus sofrendo neles e eles mudaram a sua vida. Ele diz “que era amargo ver os leprosos, mas depois tornou-se doçura”.

Em nossos dias existe cura para a lepra (hanseníase). Infelizmente, existe também muito preconceito e discriminação a ponto de forçar as pessoas infectadas a viverem “escondidas” na sociedade. Poderia ser bem diferente se o nosso sentimento fosse aquele de Jesus que amou e teve compaixão do leproso e o curou, se fosse aquele de São Francisco que viu o próprio Jesus no leproso e o amou e o abraçou. O amor e a compaixão vencem a discriminação.

Frei Valmir Ramos, OFM

5º Domingo do Tempo Comum: “Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios!”

No mundo da Bíblia existiam crenças em espíritos maus que atormentavam as pessoas. Aos poucos o povo hebreu foi assimilando a ideia de que estes espíritos eram “demônios” caracterizados pelo orgulho e pela luxúria e que, por serem espíritos maus, arrastavam as pessoas para o pecado e provocavam as doenças nelas. Além disso, muitos problemas psiquiátricos eram atribuídos aos demônios. Quando Jesus começou a sua pregação ainda existia esta ideia e, por isso, quando Ele cura uma pessoa está expulsando um demônio e, ao mesmo tempo, perdoando os seus pecados. São muitos os casos em que vemos Jesus atuando para libertar as pessoas de doenças e perturbações. Todos são lidos como um combate de Jesus contra o “príncipe dos demônios” que termina em vitória do Reino de Deus.

Para São Marcos Jesus começa a sua missão em Cafarnaum, na Galileia, e vai à casa de Pedro. Era sábado, eles saíram da sinagoga e Jesus curou a sogra de Pedro que estava com febre. O gesto de Jesus causa indignação nos mestres da Lei porque Ele não observa os preceitos e faz um milagre no sábado. O povo, no entanto, leva os seus doentes para Jesus. O núcleo do texto evangélico deste Domingo é que “Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios”. É o início de sua missão de pregar e construir o Reino de Deus que vence os poderes deste mundo. É bom notar que Jesus conjuga oração e missão, pois Ele age com a força do Espírito que recebeu do Pai e é obediente ao Pai que quer libertar todos os seus filhos e filhas que enfrentam luta e sofrimento neste mundo como vemos o lamento de Jó na primeira leitura.

Jó pensa que o sofrimento é por causa do pecado e é um castigo de Deus. No entanto, Jesus mostra que Deus é misericordioso e não deseja o sofrimento aos seus filhos e filhas e sim a vida plena e a felicidade.

Jesus anuncia que deve pregar “em outros lugares, nas aldeias da região” e vai por toda a Galileia. O seu anúncio é o do Reino de Deus, por isso ensina, faz curas e liberta as pessoas dos males. Os discípulos vão com Ele. Depois de ressuscitado, Jesus os envia pelo mundo onde deverão também ensinar, curar e libertar as pessoas dos males. É o testemunho que vemos na segunda leitura em que São Paulo sente o dever da missão sem esperar retribuição neste mundo. Assim também deveriam agir todos os cristãos de hoje: discípulos missionários que estão a serviço do Reino de Deus, do Evangelho e de cada irmão e irmã que enfrenta sofrimentos.

Frei Valmir Ramos, OFM

4º Domingo do Tempo Comum: “O profeta é porta-voz de Deus e anuncia a vontade d’Ele para o seu povo!”

Jesus começou a sua vida pública na Galileia e escolheu alguns lugares estratégicos para iniciar a pregação do Reino de Deus. Hoje vemos Jesus na Sinagoga de Cafarnaum que estava às margens norte do lago chamado Mar da Galileia. O evangelista Marcos apresenta Jesus iniciando sua vida pública logo depois do seu batismo, quando João Batista foi preso por Herodes. Jesus então está às margens do Mar da Galileia onde chama seus primeiros discípulos: Pedro e André, Tiago e João.

Num dia de sábado, que era o dia reservado para o culto a Deus, Jesus entrou com eles em uma Sinagoga. Esta ação de Jesus indica que está acontecendo algo novo, pois na Sinagoga Jesus ensina e realiza a libertação de um homem que estava possuído por um espírito mau. Não teria nenhum problema se esta ação acontecesse na sexta-feira ou no Domingo, mas no sábado a Lei proibia a realização de algo semelhante. Contudo, o que deixa os judeus admirados é que ele ensina com autoridade e manda até nos espíritos maus e eles obedecem.

A intenção do evangelista é mostrar que Jesus é o “Santo de Deus”, expressão colocada na boca do homem possuído. Os judeus não entendem e não aceitam que alguém que cresceu no meio deles possa ser o “Santo de Deus”. Jesus é o Santo de Deus por ser o Filho de Deus, o eleito que foi enviado ao mundo para construir o Reino de Deus e salvar a todos os seus filhos e filhas. Para os judeus, quem deveria realizar esta missão deveria ser o Messias, o Salvador. Eles veem, ouvem e questionam aquele homem que eles conheciam na Galileia, mas nunca tinham visto suas ações realizadas com autoridade.

A este Jesus São Paulo recomenda que os irmãos e irmãs de Corinto sigam e sejam fieis. Ele ainda diz para permanecerem junto a Jesus sem outras preocupações.

Na vida prática dos cristãos podem acontecer muitas preocupações e até desvios de atenção daquilo que é próprio do Reino de Deus. Pode até acontecer que tenham comportamento não condizente com o nome de Cristão, isto é, de um seguidor fiel de Jesus e de seu Evangelho. Por isso, a insistência de São Paulo, mas principalmente a ação de Deus quando envia profetas e profetizas no meio do seu povo, conforme a promessa que vemos na primeira leitura. O profeta é porta-voz de Deus e anuncia a vontade dEle para o seu povo. É preciso então ter ouvidos atentos, para ouvir a mensagem de Deus em todos os tempos e ser fiel a Ele, seja na missão de profeta, seja na missão dos seguidores de Jesus de construir o Reino de Deus com ações práticas de amor ao próximo.

Frei Valmir Ramos, OFM

3º Domingo do Tempo Comum: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo!”

Jonas é um personagem criado para mostrar a ação de Deus na história da humanidade. Como profeta judeu, ele não quer nem ouvir falar de Nínive, que era uma cidade opressora do seu povo. Por isso Jonas reluta e não quer assumir a sua missão de profeta e anunciar o castigo de Deus para aquela cidade se o povo não se convertesse. Como Jonas não conseguiu fugir de Deus, foi a Nínive começou a pregar o caminho da conversão e viu o povo fazer penitência. O profeta pensava como os seres humanos e não queria que Deus perdoasse os ninivitas. Mas a misericórdia de Deus é para todos os povos e o seu Reino de amor, justiça e paz também. Então, “vendo Deus que os ninivitas se afastaram do mau caminho, compadeceu-se”.

São Marcos apresenta Jesus iniciando a sua missão na Galileia, uma região ao norte da Judeia, que era tida como impura e de onde os mestres da Lei diziam que não sairia nada. Os chefes de Jerusalém menosprezavam os galileus e afirmavam que nada de bom poderia vir da Galileia. Jesus, o galileu, começa a sua missão anunciando que “o tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo”. O tempo é aquele da realização da promessa de Deus, que quer salvar o seu povo, e que São Paulo diz que “está abreviado”. De fato, com a vinda de Jesus, cumpre-se vontade do Pai e Ele se torna o Salvador da humanidade que revela o rosto misericordioso do Pai. 

João Batista tinha iniciado a sua missão pregando a conversão e batizando o povo para a purificação dos pecados. Agora ele está preso, pois os poderosos não suportaram a verdade e não se arrependeram. Jesus continua suplicando pela conversão do povo, pois sem o amor verdadeiro e a justiça não seria possível a presença do Reino de Deus. Isto significa basear a vida na nova lei do amor e não apenas nos preceitos humanos que às vezes discrimina, exclui, marginaliza e não cuida dos irmãos e irmãs mais frágeis.

Para construir o Reino de Deus Jesus chama trabalhadores da Galileia, iniciando por aqueles que eram pescadores. Simão, André, Tiago e João deixam as redes e seguem Jesus para uma nova missão: devem ajudar na construção do Reino de Deus. Este Reino será uma realidade quando as injustiças, a violência, o desrespeito pelos outros, o egoísmo e os sistemas que levam à morte forem vencidos. Os discípulos ainda não sabiam disso, mas acreditaram em Jesus e viram durante a sua vida como ele agiu e venceu os reinos deste mundo passando pela morte e ressuscitando. 

Hoje os cristãos são chamados a comprometerem-se na construção do Reino de Deus, que não será apenas uma realidade em nosso coração, mas no mundo onde as pessoas vivem, amam, sofrem e morrem. Aceitar a vontade de Deus e empenhar-se na construção do seu Reino neste mundo com ações concretas de amor ao próximo será sempre um caminho de conversão.

Frei Valmir Ramos, OFM

2º Domingo do Tempo Comum: “Eis o Cordeiro de Deus!”

 

Os primeiros discípulos de Jesus eram discípulos de João Batista que, reconhecendo Jesus como Messias, retira-se para dar lugar àquele que veio para salvar a humanidade.

A liturgia nos oferece o início da vida pública de Jesus logo depois de seu batismo. E é o próprio João Batista que indica Jesus como sendo o “Cordeiro de Deus”. Esta expressão tem um significado profundo construído durante a história da religião hebraica e depois pelos cristãos. O ponto de partida é a ideia do cordeiro pascal, que os hebreus escravizados no Egito deveriam sacrificar na celebração da Páscoa que se torna a celebração da libertação do Egito. É pelo sangue do cordeiro que o povo hebreu ganha a libertação. Os cristãos viram em Jesus o verdadeiro Cordeiro que entregou-se até a morte para libertar a humanidade do pecado e da própria morte.

João Batista indicou Jesus aos seus discípulos. Nesta narração, os primeiros a encontrar Jesus são André e João evangelista. Para este o primeiro encontro com Jesus ficou marcado em sua memória e ele diz “era por volta das 4 da tarde”. Eles vivenciaram uma experiência concreta de encontro. Quando perguntaram “Mestre onde moras?”, queriam permanecer com Jesus para escutá-lo.

No Evangelho de João, André é quem chama Pedro para conhecer Jesus que eles já tinham reconhecido como Messias. Ele diz “encontramos o Messias”, o que indica a dimensão comunitária do encontro com Deus. Mesmo sendo encontro personalizado, nunca deixa de referir-se à comunidade. Assim é o chamado de Jesus a todos os seus discípulos. A Pedro Ele constitui o líder dos Apóstolos e primeiro responsável pela Igreja. A cada um dos discípulos e discípulas Ele chama e envia para “pregar a Boa Nova a todas as criaturas”.

Na Carta aos Coríntios, São Paulo deixa bem claro esta compreensão comunitária da Igreja. Ele faz referência a ela como corpo em que todos os discípulos e discípulas de Jesus são membros. Por isso mesmo, nenhum deles é chamado para satisfazer os seus próprios interesses, mas para servir toda a comunidade.

Numa página preciosa do primeiro Livro de Samuel, na primeira leitura ouvimos como Deus chama Samuel para servir o seu povo. A atitude de Samuel é aquela de quem está a serviço. Primeiramente ouve o chamado e corre para apresentar-se a Eli. Depois entende que o chamado não vem de Eli, mas de Deus. Então responde convicto: “fala, que teu servo escuta”.

Hoje Deus continua chamando seus filhos e filhas ao seu serviço. Cada um de nós precisa estar atento a este chamado, pois num mundo dilacerado pelo egoísmo, pela falta de respeito pela vida, pelas injustiças, pela violência, Jesus continua construindo o Reino de Deus através das mãos de seus discípulos e discípulas.

Frei Valmir Ramos, OFM

33º Domingo do Tempo Comum: “Ser sóbrios na fé significa não permitir que a verdade do Evangelho seja ofuscada!”

 

A parábola do Evangelho está no contexto do anúncio da realização plena do Reino de Deus com a vinda gloriosa de Jesus. Reflete o momento em que a comunidade cristã esperava a segunda vinda de Jesus, a chamada “parusia”. Como sabemos, a parábola é um recurso para transmitir um ensinamento. Jesus usa termos conhecidos, porém o significado vai muito além do que parecia.

A ausência física daquele homem que viajou pode ser entendida como a ausência física de Jesus mesmo que permanece sempre com seus discípulos de outro modo. Os discípulos são convidados a “não dormir” mas serem “sóbrios” porque chegará o “dia do Senhor”, como vemos o alerta à comunidade de Tessalônica na 2ª leitura. Isto significa vivenciar a fé ativamente, mesmo dormindo as horas necessárias para o descanso cotidiano. Ser sóbrio na fé significa não permitir que a verdade do Evangelho seja ofuscada por doutrinas ou ideologias.

O talento era uma moeda de grande valor e é usado no Evangelho para indicar os “dons” recebidos de Deus. Na parábola os “servos” indicam os cristãos que devem fazer o Reino de Deus frutificar. Por isso, a “administração” significa ter uma participação ativa na construção do Reino de Deus. Isto é cobrado de cada seguidor de Jesus. Aquele “servo” que enterrou o talento agiu como se a fé fosse algo a ser guardada num cofre e reservada para si de modo egoísta. Jesus então ensina que a fé é vida que se manifesta nas ações concretas de amor para com os outros. Isto é multiplicar os dons.

Na 1ª leitura temos o louvor à mulher que, além de trabalhar, “estende a mão ao pobre e ajuda o indigente”, “que teme a Deus”. Esta mulher é aquela que multiplica os talentos. Aí o livro da Sabedoria, escrito numa sociedade machista, reconhece a grande dignidade da mulher os olhos de Deus.

Hoje todos nós cristãos somos chamados a vivenciar nossa fé de modo que o Evangelho continue brilhando no mundo: “vocês são filhos da luz, filhos do dia” diz São Paulo na 2ª leitura. De fato, o amor verdadeiro vivenciado em as ações concretas e corajosas dos cristãos mostram a presença viva de Jesus no mundo. Além disso revela a verdade sobre Deus que é Amor e não castigo e severidade de quem os filhos e filhas devem ter medo.

Frei Valmir Ramos, OFM

32º Domingo do Tempo Comum: “O pedido de Jesus é que toda a comunidade esteja vigilante!”

 

No ensinamento de Jesus através da parábola vemos a utilização simples do costume daquele povo na época: na noite antes do casamento o noivo ia até a casa da família da noiva com seus amigos “padrinhos”. Lá era recebido pela noiva com suas damas “madrinhas”. O evangelista escreve a partir do contexto da Igreja primitiva que esperava a secunda vinda de Jesus glorioso. Então os que tinham sido fiéis à sua Palavra entrariam com Ele no Reino, aqui simbolizado pelas “núpcias eternas”. Como podemos ver, na parábola não aparece a noiva, que pode ser entendida de imediato como a própria comunidade eclesial. Na 2ª leitura vemos a carta endereçada à comunidade de Tessalônica que reaviva a esperança na ressurreição, que no Evangelho é simbolizada pelas núpcias do banquete eterno.

O pedido de Jesus é que toda a comunidade esteja vigilante. Significa pedir que esteja vivenciando na prática o ser cristão e não apenas dizer-se cristão. Podemos então entender que as virgens prudentes são semelhantes àquele homem prudente, sábio, sensato, que construiu a sua casa sobre a rocha, como diz Jesus em Mt 7,24: “quem ouve estas minhas palavras e as pões em prática é como o homem sensato”. Significa alguém que usa a sabedoria que vem de Deus, que é o próprio Deus, como vemos na 1ª leitura, para viver com Ele e agir de acordo com a sua vontade.

As virgens prudentes são pessoas que pensam em Jesus dia e noite e querem participar de sua vida mantendo-se unidas a Ele. Isto significa manter acesa a luz de sua Palavra e ter atitude que condiz com o nome de cristão. Ter o nome e agir de modo contrário ao Evangelho é arriscar ouvir uma resposta dura: “na verdade eu não vos conheço”.

Para a nossa comunidade cristã de hoje, o Evangelho faz o apelo para não descuidar da “luz do mundo” que ilumina o caminho da humanidade na direção da vida, da paz, da harmonia entre as pessoas e entre as nações. Ao mesmo tempo interpela os cristãos a uma atitude coerente com o Evangelho agindo em prol dos sofredores nos quais Jesus continua sofrendo a sua paixão. Tudo isso significa manter-se unidos a Jesus, esposo da Igreja, amigo dos pobres, marginalizados e sofredores, para ser reconhecidos por Ele nas núpcias do banquete eterno.

Frei Valmir Ramos, OFM

30º Domingo do Tempo Comum: “O amor a Deus está vinculado com o amor ao próximo!”

Jesus é chamado de Mestre por um doutor de Lei. Por parte dos fariseus isto seria uma ironia em relação a Jesus que não era doutor da Lei, mas estava ensinando nas sinagogas e no templo de Jerusalém. No Evangelho deste Domingo o doutor lhe pergunta sobre “o maior mandamento da Lei”. Ele estava se referindo à Lei de Deus, partindo do decálogo que Deus revelou a Moisés. Em poucas palavras Jesus resume toda a Lei e os profetas: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento… e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O maior mandamento se resume no amor.

O amor na Sagrada Escritura é uma força que faz sair de si mesmo e agir para o bem do outro. São João diz que “Deus é amor” (cf 1Jo 4,8). A sua experiência de Deus que vive em comunhão com o Filho Jesus e o Espírito Santo e está presente no meio da comunidade agindo como Pai, Mãe, Pastor, Guia, Luz, Força e Vida, o fez chegar a esta definição, pois o mistério da ação gratuita de Deus pelos seus filhos e filhas não se explica com palavras humanas. De fato, na Sagrada Escritura, a aliança de Deus com o seu povo é um compromisso de amor em que Deus se empenha, cuida, zela por seu povo e espera uma resposta de gratidão e reconhecimento. Ao mesmo tempo, Deus espera o empenho de cada filho e filha com o seu semelhante. É o que vemos expresso na primeira leitura onde aparece o mandamento do amor ao próximo em atitude de “não prejudicar o estrangeiro, nem oprimir, nem maltratar, nem explorar com juros, nem confiscar o necessário do pobre”.
O amor a Deus está vinculado com o amor ao próximo, isto é viver a caridade. O amor a Deus deve ser incondicional, com todo o ser, “coração, alma e entendimento” repete Jesus (cf Dt 6,5) e o amor ao próximo como se ama “a si mesmo” (cf Lv 19,18). Os primeiros cristãos entenderam, mas tinham dificuldades como os fariseus. São João foi categórico escrevendo às comunidades: “quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). Jesus faz entender a relação profunda entre os dois amores que, na prática não podem estar desvinculados para não cair na aridez do racionalismo ou da hipocrisia.
Os cristãos são amados por Deus, por Jesus que é a revelação do grande amor do Pai e que, por sua vez, viveu o amor até as últimas consequências abraçando a morte de cruz, e pelo Espírito Santo que é dom e força criadora de Deus. Cabe a cada um corresponder a este amor infinito de Deus amando-o e amando o próximo desinteressadamente como si mesmo. A caridade nos faz colocar-nos na pele dos sofredores deste mundo e agir impulsionados pelo amor gratuito.

Frei Valmir Ramos, OFM

29º Domingo do Tempo Comum: “O Ensinamento de Jesus é para que os seus seguidores sejam livres da dependência d poder econômico e do poder político!”

Jesus revela aos judeus, tantos fariseus que eram muito nacionalistas, quanto herodianos que colaboravam com o Império romano, que existe um único Deus poderoso. O profeta Isaías já havia anunciado, como vemos na primeira leitura: “Eu sou o Senhor, não existe outro”. Acontece que os judeus estavam enganados pelo poder do dinheiro e do imperador romano. Eles pensavam que poderiam confiar no imperador que se autodenominava deus. E não foi apenas um dos imperadores romanos que pensava assim. Por isso, no território do Império que se estendia pela Ásia Menor, construíam os templos para adorar o imperador. Daí que no Apocalipse encontramos a expressão “trono de satanás” (cf. Ap 2,13) fazendo referência a um desses templos.

Quando os fariseus, ofendidos pelo ensinamento de Jesus, fazem uma aliança com os herodianos, aparece claramente a intenção de liquidar com Jesus, pois o veem como inimigo maior. Jesus, conhecendo suas intenções, impõe uma grande derrota a eles justamente através da palavra com a qual queriam condená-lo. Isto é bem claro no diálogo transmitido pelos evangelistas: os fariseus falam em “pagar” a César e Jesus fala em “devolver” ao imperador o que é dele e a Deus o que é de Deus.

Não foi a primeira nem a única vez que as pessoas colocaram a confiança no dinheiro e nos poderosos desse mundo. A história dos povos e a nossa de hoje indicam que o ser humano precisa crescer na confiança no único e verdadeiro Deus. Jesus ensina que a confiança no dinheiro é idolatria. Ele mostra que nenhum poderoso deste mundo é Deus. De fato, todos que colocaram a sua confiança no dinheiro e nos poderosos desse mundo caíram por terra.

Hoje é importante compreender que não se trata simplesmente de diferenciar as duas dimensões: a política e a religiosa. O ensinamento de Jesus é para que o seus seguidores sejam livres da dependência do poder econômico e do poder político, pois estes poderes exploram, oprimem e matam outros seres humanos. No Reino de Deus todos têm vida em abundância (cf. Jo 10,10) e existe paz porque todos se respeitam e são solidários. Devolver a Deus o que é dEle é empenhar-se concretamente para defender a vida de todos e construir o seu Reino neste mundo.

Na segunda leitura, São Paulo faz menção às virtudes cristãs: fé, esperança e caridade. Ele elogia os cristãos de Tessalônica por terem deixado os ídolos e abraçado Jesus Cristo para “servir o Deus vivo e verdadeiro”. Este serviço implica a construção do Reino com fé, esperança e caridade.

Os cristãos de hoje são chamados a enxergar a presença de Deus na história e discernir a sua ação para defender seus filhos e filhas das garras dos enganadores deste mundo. O Espírito Santo é a força dos cristãos e de todos aqueles que defendem a vida dos seres humanos e da natureza.

Frei Valmir Ramos, OFM

 

28° Domingo do Tempo Comum: “O Reino é dom gratuito que Deus oferece aos seus filhos e filhas!”

A imagem do banquete era usada já no Antigo Testamento para indicar o “dia da salvação” ou, como vemos na primeira leitura, o dia em que Deus “enxugaria todas as lágrimas… faria desaparecer toda desonra sobre o povo”. Deste banquete participaria todos os povos que, no Evangelho deste Domingo, são aqueles que aceitaram o convite e se vestiram adequadamente, isto é, se revestiram das obras do Reino. O Reino é dom gratuito que Deus oferece aos seus filhos e filhas, contudo, cada um deve responder a esta graça com atitude de coração pobre, de criança que confia, de alguém de busca primeiro o Reino e a sua justiça e faz a vontade do Pai.

Alguns elementos se destacam na parábola de Jesus sobre o banquete: os primeiros convidados não responderam ao convite, pois estavam ocupados com seus compromissos e negócios, ou pior, maltrataram e mataram os mensageiros do Rei (esta é uma menção do que aconteceu com os profetas enviados por Deus e com os primeiros cristãos, perseguidos e mortos pelos judeus e pelos romanos); o Rei “enviou seus exércitos e incendiou a cidade” (menção à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.); todos os outros convidados, “bons e maus” encheram a sala (é menção aos que abraçaram a fé cristã, pobres, doentes e pecadores que se encontravam pelas margens da sociedade); “um homem que não estava vestido com o traje nupcial” (menção daqueles cristãos que pretendem o Reino sem praticar a justiça, o amor e a misericórdia).

O texto completo de Mateus se conclui com a máxima: “muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”. Na Bíblia a eleição ou escolha é um ato gratuito de Deus para constituir um povo santo, consagrado a Ele (cf Dt 26,19). Este povo deveria colocar-se a serviço de Deus que o elegeu e o consagrou. Caso contrário, é possível ver uma “rejeição” no momento do julgamento: “não vos conheço” (cf Mt 25,12), pois os que tinham sido eleitos não praticaram a justiça do Reino e não acudiram aos necessitados.

Para nós cristãos de hoje ressoa o convite de Jesus para participarmos do seu banquete revestidos das obras do Reino. Para isto é preciso despojarmo-nos de qualquer privilégio, da arrogância, da pretensão de sermos justo, da sede de poder e do egoísmo que nos faz pensar somente em satisfazer os nossos próprios interesses.

Frei Valmir Ramos, OFM