O Papa: a oração ao Espírito Santo é espontânea, deve vir do coração

Mariangela Jaguraba (Vatican News)

“A palavra de Deus é uma fonte inesgotável”, disse o Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (10/11), no final das catequeses sobre a Carta aos Gálatas, ressaltando que o Apóstolo Paulo, nesta Carta, “nos falou como evangelizador, teólogo e pastor”.  

Segundo o Papa, Paulo “foi um verdadeiro teólogo, que contemplava o mistério de Cristo e o transmitia com a sua inteligência criativa. E foi também capaz de exercer a sua missão pastoral a uma comunidade desorientada e confusa. Ele fez isto com métodos diferentes: usou ironia, rigor e mansidão. Reivindicou a própria autoridade como apóstolo, mas ao mesmo tempo não escondeu as fraquezas do seu caráter. O poder do Espírito realmente escavou no seu coração: o encontro com Cristo Ressuscitado conquistou e transformou toda a sua vida, e ele dedicou-a inteiramente ao serviço do Evangelho”.

A verdadeira lei tem a sua plenitude na vida no Espírito

O Apóstolo dos Gentios “estava convencido de que tinha recebido um chamado ao qual só ele podia responder; e queria explicar aos Gálatas que também eles foram chamados a essa liberdade, que os aliviava de todas as formas de escravidão, porque os tornou herdeiros da antiga promessa e, em Cristo, filhos de Deus”.

“Consciente dos riscos que este conceito de liberdade comportava”, Paulo “nunca minimizou as consequências”. Ele “colocou a liberdade na sombra do amor e estabeleceu o seu exercício coerente ao serviço da caridade. Toda esta visão foi colocada no horizonte da vida de acordo com o Espírito Santo”.

Existe sempre a tentação de voltar atrás. Uma definição de cristãos que se encontra na Escritura diz que nós cristãos não somos pessoas que voltam atrás. Uma definição bonita! A tentação de voltar atrás porque é mais seguro. Voltar à lei transcurando a vida nova no Espírito. Paulo nos ensina que a verdadeira lei tem a sua plenitude na vida no Espírito que Jesus nos doou e esta vida no Espírito só pode ser vida na liberdade, na liberdade cristã.

Despertar Cristo dentro de nós

“No final deste itinerário de catequese, parece-me que possa surgir em nós uma atitude dupla”, disse ainda Francisco. “Por um lado, o ensinamento do Apóstolo gera entusiasmo em nós; sentimo-nos impelidos a seguir imediatamente o caminho da liberdade, a «caminhar segundo o Espírito». Por outro, estamos conscientes das nossas limitações, pois sentimos todos os dias como é difícil ser dócil ao Espírito, para seguir a sua ação benéfica. Pode então surgir o cansaço que diminui o entusiasmo. Sentimo-nos desanimados, fracos, por vezes marginalizados em relação ao estilo de vida da mentalidade mundana”.

Nos momentos de dificuldades estamos, como diz Santo Agostinho, no barco, que é o momento da tempestade. O que os Apóstolos fizeram? Acordaram Cristo. Acordar Cristo que dorme e você está na tempestade, mas Ele está presente. A única coisa que podemos fazer nos momentos ruins é despertar Cristo que está dentro de nós, mas dorme como no barco. Devemos despertar Cristo no nosso coração e só então poderemos contemplar as coisas com o seu olhar, porque Ele vê para além da tempestade. Através desse seu olhar sereno, podemos ver um panorama que, por nós mesmos, nem sequer é possível divisar.

A oração ao Espírito Santo é espontânea

Segundo o Papa, “neste caminho desafiador, mas fascinante, o Apóstolo nos lembra que não nos podemos dar ao luxo de nos cansarmos de fazer o bem. Devemos confiar que o Espírito vem sempre em auxílio da nossa fraqueza e nos concede o apoio de que necessitamos”.

Qual é a oração do Espírito Santo”? A oração ao Espírito Santo é espontânea: ela deve vir de seu coração. Você deve pedir nos momentos de dificuldade: “Espírito Santo, vem”. A palavra-chave é esta: vem. Vem. Você deve dizê-la com sua linguagem, com as suas palavras. Vem porque estou em dificuldade, vem porque estou na escuridão, no escuro; vem porque não sei o que fazer; vem porque estou prestes a cair. Vem. Vem. É a palavra do Espírito. Invocar o Espírito. Aprendamos a invocar o Espírito Santo com mais frequência.

O Papa concluiu, dizendo que nos fará bem rezar esta “oração com frequência. Vem, Espírito Santo. Com a presença do Espírito, salvaguardemos a liberdade. Seremos livres, cristãos livres, não apegados ao passado no sentido ruim da palavra, não acorrentados a práticas. A liberdade cristã nos faz amadurecer. Esta oração nos ajudará a caminhar no Espírito, na liberdade e na alegria, porque quando o Espírito Santo vem, vem a alegria, a verdadeira alegria”.

Fonte: Vatican News

Papa Francisco na Audiência Geral: caminhar segundo o espírito é deixar-se guiar por Ele

Mariangela Jaguraba (Vatican News)

O Papa Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre a Carta de São Paulo aos Gálatas, na Audiência Geral, desta quarta-feira (03/11), que teve como tema “Caminhar segundo o Espírito”.

“Crer em Jesus significa segui-lo, ir atrás dele no seu caminho, como fizeram os primeiros discípulos. Ao mesmo tempo, significa evitar o caminho oposto, o do egoísmo, da busca do próprio interesse, que o Apóstolo Paulo chama de “desejo da carne”. O Espírito é o guia deste caminho na estrada de Cristo, um caminho maravilhoso, mas também cansativo que começa no Batismo e dura a vida inteira”, disse o Pontífice.

Deixar-se guiar pelo Espírito Santo

“Caminhar segundo o Espírito”, exorta São Paulo, significa “deixar-se guiar” por Ele. “É como dizer: coloquemo-nos na mesma linha e deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo.” A seguir, o Papa acrescentou:

São expressões que indicam uma ação, um movimento, um dinamismo que nos impede de parar nas primeiras dificuldades, mas nos provoca a confiar na “força que vem do alto”. Percorrendo este caminho, o cristão adquire uma visão positiva da vida. Isso não significa que o mal presente no mundo tenha desaparecido, ou que os impulsos negativos do egoísmo e do orgulho tenham sumido; ao contrário, significa acreditar que Deus é sempre mais forte do que as nossas resistências e maior do que os nossos pecados.

Deixar-se guiar pelo Espírito. Paulo sente esta exortação necessária também para si. Mesmo sabendo que Cristo vive nele, está convencido de não ter ainda alcançado a meta, o ápice da montanha. O Apóstolo dos Gentios não se coloca acima de sua comunidade, não diz: eu sou o chefe e vocês são os outros, mas caminha com todos, dando exemplo concreto da necessidade de obedecer a Deus, correspondendo cada vez mais e melhor à guia do Espírito. “Como é bonito encontrar pastores que caminham com o seu povo, que não se distanciam”, acrescentou o Papa. Pastores que não dizem: “Eu sou mais importante, eu sou um pastor. Eu sou um padre”, “Eu sou um bispo”, com o nariz empinado, mas pastores que caminham com o povo. Isso é muito bonito e faz bem à alma”, ressaltou.

Assumir as dificuldades uns dos outros

“Caminhar segundo o Espírito” não é apenas uma ação individual: diz respeito também à comunidade como um todo. Construir a comunidade seguindo o caminho indicado pelo Apóstolo é emocionante, mas desafiador.

Os “desejos da carne”, as tentações que todos nós temos, ou seja, inveja, preconceito, hipocrisia e ressentimento continuam presentes, e recorrer a preceitos rígidos pode ser uma tentação fácil, mas ao fazê-lo se sai do caminho da liberdade e, em vez de subir ao cume, se volta para baixo. Percorrer o caminho do Espírito exige em primeiro lugar dar espaço à graça e à caridade. Dar espaço à graça de Deus sem medo.

Paulo, depois de fazer ouvir a sua voz de maneira severa, convida os Gálatas a assumirem as dificuldades uns dos outros e, se alguém cometer um erro, usar a mansidão. “Uma atitude bem diferente da fofoca para esfolar o próximo. Não, isso não é de acordo com o Espírito. Segundo o Espírito, é ter doçura com o irmão em corrigi-lo e cuidar de si mesmo para não cair nesses pecados, ou seja, ter humildade. Como é fácil criticar os outros! Há pessoas que parecem ter se formado em fofoca. Todos os dias criticam os outros. Olhe para você”, disse ainda o Papa.

A regra suprema da correção fraterna é o amor

Segundo o Papa, “é bom nos perguntarmos o que nos leva a corrigir um irmão ou uma irmã, e se não somos, de alguma forma, corresponsáveis​​ pelo seu erro”.

O Espírito Santo, além de nos dar o dom da mansidão, nos convida à solidariedade, a carregar os fardos dos outros. Quantos fardos estão presentes na vida de uma pessoa: doença, falta de trabalho, solidão, dor…! Quantas outras provações exigem a proximidade e o amor dos irmãos.

O Santo Padre sublinhou que “a regra suprema da correção fraterna é o amor, desejar o bem de nossos irmãos e irmãs, tolerar os problemas dos outros, os defeitos dos outros em silêncio na oração a fim de encontrar o caminho certo para ajudá-lo a se corrigir. Isso não é fácil”. “A maneira mais fácil é fofocar, tirar a pele do outro como se eu fosse perfeito. Isso não deve ser feito. Mansidão, paciência, oração e proximidade”, concluiu Francisco.

Papa Francisco na Audiência Geral: o Espírito muda o coração, a burocracia impede o acesso à graça do Espírito

Mariangela Jaguraba (Vatican News)

O Papa Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre a Carta de São Paulo aos Gálatas na Audiência Geral, desta quarta-feira (27/10), na Sala Paulo VI, no Vaticano, sobre o tema “O fruto do Espírito”.

“A pregação de São Paulo é totalmente centrada em Jesus e no seu mistério pascal. Aos Gálatas, tentados a basear a sua religiosidade na observância de preceitos e tradições, ele recorda o centro da salvação e da fé: a morte e ressurreição do Senhor”, sublinhou Francisco.

Segundo o Papa, “ainda hoje, muitos procuram a certeza religiosa em vez do Deus vivo e verdadeiro, concentrando-se em rituais e preceitos em vez de abraçar o Deus do amor com todo o seu ser. Esta é a tentação dos novos fundamentalistas, daqueles que têm medo de seguir adiante no caminho e voltam atrás porque se sentem inseguros. Buscam a segurança de Deus e não o Deus da segurança“. São Paulo pede aos Gálatas para que voltem ao essencial, ao Deus que nos dá a vida em Cristo crucificado. Ele testemunha isto em primeira pessoa: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim».

Obras da carne e fruto do Espírito

A seguir, o Papa fez a seguinte pergunta: “O que acontece quando encontramos Jesus Crucificado na oração? Acontece o que aconteceu sob a cruz: Jesus entrega o Espírito, ou seja, doa a sua própria vida.”

O Espírito, que flui da Páscoa de Jesus, é o princípio da vida espiritual. É Ele que muda o coração: não as nossas obras. É Ele que muda o coração, não as coisas que fazemos, mas a ação do Espírito Santo em nós! É ele quem guia a Igreja, e nós somos chamados a obedecer à sua ação, que vai para onde e como ele quiser. Além disso, foi a constatação de que o Espírito Santo descia sobre todos e que a sua graça agia sem exclusão que convenceu também os mais relutantes dos Apóstolos de que o Evangelho de Jesus era destinado a todos e não a uns poucos privilegiados.

“Aqueles que procuram segurança, o pequeno grupo, se afastam do Espírito, não deixam a liberdade do Espírito entrar neles. Assim, a vida da comunidade regenera-se no Espírito Santo; e é sempre graças a Ele que alimentamos a nossa vida cristã e continuamos a nossa luta espiritual.”

Segundo o Papa, o combate espiritual é outro grande ensinamento da Carta aos Gálatas. O Apóstolo apresenta duas frentes opostas: por um lado as «obras da carne», por outro o «fruto do Espírito». “Quais são as obras da carne?”, perguntou Francisco. “São comportamentos contrários ao Espírito de Deus. Carne é uma palavra que indica o homem na sua dimensão terrena, fechado em si mesmo, numa vida horizontal, onde os instintos mundanos são seguidos e a porta se fecha ao Espírito, que nos eleva e nos abre a Deus e aos outros. Mas a carne também nos lembra que tudo isto envelhece e passa, apodrece, enquanto o Espírito dá vida. Paulo enumera as obras da carne, que se referem ao uso egoísta da sexualidade, a práticas mágicas que são idolatrias e ao que mina as relações interpessoais, como «contendas, ciúmes, iras, rixas, discórdias, partidos…» Tudo isso é fruto da carne, de um comportamento apenas humano, doentiamente humano. Um ser humano tem seus valores, mas isso é doentiamente humano.

O fruto do Espírito, ao contrário, é «caridade, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, temperança». Os cristãos, que no batismo se revestiram «de Cristo», são chamados a viver deste modo. Pode ser um bom exercício espiritual ler a lista de São Paulo e observar a própria conduta, para verificar se corresponde, se a nossa vida está verdadeiramente de acordo com o Espírito Santo, se dá estes frutos. Por exemplo, os três primeiros são amor, paz e alegria: por eles se reconhece se uma pessoa é habitada pelo Espírito. Uma pessoa que está em paz, que é alegre e ama. Com esses três traços, vemos o Espírito.

Tanta burocracia para dar um sacramento

Segundo o Papa, “este ensinamento do Apóstolo é um grande desafio para as nossas comunidades”. Por vezes, aqueles que se aproximam da Igreja têm a impressão de estarem perante uma grande quantidade de comandos e preceitos. Isto não é a Igreja, pode ser qualquer associação. Na realidade, a beleza da fé em Jesus Cristo não pode ser apreendida com base em demasiados mandamentos e numa visão moral que, desenvolvendo-se em muitas correntes, pode fazer-nos esquecer a fecundidade original do amor, alimentado pela oração que doa a paz e pelo testemunho jubiloso”.

“A vida do Espírito expressa nos sacramentos não pode ser abafada por uma burocracia que impede o acesso à graça do Espírito, autor da conversão do coração. Quantas vezes nós padres ou bispos, fazemos tanta burocracia para dar um sacramento, para acolher as pessoas, e as pessoas dizem: “Não, eu não gosto disso”, e vão embora. Não veem em nós, muitas vezes, a força do Espírito que regenera, que nos faz novos.”

Rumo à Cop26

Depois da catequese, o Papa saudou os peregrinos de língua inglesa, “especialmente os jovens de vários países envolvidos na COP26 de Glasgow e grupos dos Estados Unidos”. “Sobre todos vocês e suas famílias invoco a alegria e a paz do Senhor”, disse Francisco.

“Sim à vida”

Saudando os fiéis poloneses, Francisco recordou que a pedido de uma fundação no país chamada “Sim à vida”, ele abençoou nesta quarta-feira os sinos com o nome “A voz dos nascituros”.

Eles têm como destino o Equador e a Ucrânia. Para essas nações e para todos, são um sinal de compromisso em favor da defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural. Que o seu som”, afirmou o Papa, “anuncie ao mundo o «Evangelho da vida», desperte a consciência dos homens e a memória dos nascituros. Confio à sua oração cada criança concebida, cuja vida é sagrada e inviolável.

Fonte: Vatican News

Papa Francisco: a verdadeira liberdade é plenamente expressa na caridade

Mariangela Jaguraba (Vatican News)

“A liberdade se realiza na caridade” foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (20/10). O pontífice deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre a Carta de São Paulo aos Gálatas.

Uma criança se aproximou do Papa e o Pontífice aproveitou a ocasião para recordar o que Jesus diz a propósito da espontaneidade e da liberdade das crianças. “Este menino teve a liberdade de se aproximar e se mover como se estivesse em casa”, disse o Papa, lembrando as palavras de Jesus: “Se vocês não se tornarem como crianças, vocês não entrarão no Reino do Céu.” Ter a “coragem de aproximar-se do Senhor, de estar aberto ao Senhor, de não ter medo do Senhor.

Testemunho que vem do coração

Agradeço a este menino pela lição que nos deu a todos. Que o Senhor o ajude em sua limitação, em seu crescimento, porque ele deu este testemunho que veio de seu coração. As crianças não têm um tradutor automático do coração para a vida: o coração continua.

São Paulo, na sua Carta aos Gálatas, “nos introduz gradualmente na grande novidade da fé. Renascidos em Cristo, passamos de uma religiosidade feita de preceitos para uma fé viva, que tem o seu centro na comunhão com Deus e com os irmãos, ou seja, na caridade. Passamos da escravidão do medo e do pecado para a liberdade dos filhos de Deus”.

“A liberdade não é uma forma libertina de viver, segundo a carne, ou segundo o instinto, desejos individuais e impulsos egoístas; pelo contrário, a liberdade de Jesus nos leva a estar – escreve o Apóstolo – «ao serviço uns dos outros». A liberdade em Cristo tem alguma dimensão de escravidão, que nos leva ao serviço, a viver para os outros. Em outras palavras, a verdadeira liberdade é plenamente expressa na caridade. Mais uma vez encontramo-nos perante o paradoxo do Evangelho: somos livres para servir; e não em fazer o que queremos. Encontramo-nos plenamente na medida em que nos doamos; possuímos a vida se a perdemos. Isto é Evangelho puro”, sublinhou Francisco.

Não existe liberdade sem amor

“Mas como se pode explicar este paradoxo?”, perguntou o Papa. A resposta do Apóstolo é simples e exigente: «mediante o amor».

Não existe liberdade sem amor. A liberdade egoísta de fazer o que eu quero não é liberdade, porque ela volta para si mesma. Não é fecunda. Foi o amor de Cristo que nos libertou e é ainda o amor que nos liberta da pior escravidão, a do nosso ego; por conseguinte, a liberdade cresce com o amor. Mas, atenção: não com o amor intimista, das novelas, não com a paixão que simplesmente procura o que nos convém e o que gostamos, mas com o amor que vemos em Cristo, a caridade: este é o amor verdadeiramente livre e libertador. 

O Papa frisou que “para Paulo a liberdade não significa “fazer o que lhe apetece”. Este tipo de liberdade, sem um fim e sem referências, seria uma liberdade vazia. Uma liberdade de circo. E de fato deixa um vazio interior: quantas vezes, depois de termos seguido apenas o nosso instinto, nos damos conta de que ficamos com um grande vazio interior e que abusamos do tesouro da nossa liberdade, da beleza de poder escolher o verdadeiro bem para nós mesmos e para os demais. Só esta liberdade é plena, concreta, e nos insere na vida real de cada dia”.

Recordar-se dos pobres

Na primeira Carta aos Coríntios, o Apóstolo responde àqueles que têm uma ideia errada de liberdade. «Tudo é lícito!», dizem eles. «Sim, mas nem tudo é benéfico», responde Paulo. «Tudo é lícito!» – «Sim, mas nem tudo edifica», objetou o Apóstolo. E acrescenta: «Ninguém procure o próprio interesse, senão os dos outros».

Esta é uma regra para desmascarar qualquer liberdade egoísta. Aqueles que são tentados a reduzir a liberdade apenas aos próprios gostos, Paulo apresenta a exigência de amor. A liberdade guiada pelo amor é a única que liberta os outros e a nós mesmos, que sabe ouvir sem impor, que sabe amar sem forçar, que constrói e não destrói, que não explora os demais para a sua conveniência e que pratica o bem sem procurar o próprio benefício. Em suma, se a liberdade não estiver a serviço do bem, corre o risco de ser estéril e de não dar frutos. Por outro lado, a liberdade animada pelo amor conduz aos pobres, reconhecendo no seu rosto o de Cristo.

“Recordar-se dos pobres.” Depois da luta ideológica entre Paulo e os apóstolos eles concordaram que o importante é seguir adiante e “não se esquecer dos pobres, ou seja, que a sua liberdade como pregador deve ser uma liberdade a serviço dos outros, não para si mesmo, para fazer o que quer”.

A pandemia nos ensinou que precisamos uns dos outros

Francisco recordou uma das mais difundidas concepções modernas de liberdade: “A minha liberdade acaba onde começa a sua”. “Mas aqui falta a relação! Trata-se de uma visão individualista. A dimensão social é fundamental para os cristãos”, recordou Francisco, permite-lhes “olhar para o bem comum e não para o interesse particular”.

O Papa sublinhou que “neste momento histórico, precisamos redescobrir a dimensão comunitária, não individualista, da liberdade.  

A pandemia nos ensinou que precisamos uns dos outros, mas não é suficiente sabê-lo, precisamos de o escolher concretamente todos os dias. Decidir sobre aquela estrada. Os outros não são um obstáculo à minha liberdade, mas a possibilidade de a realizar plenamente. A nossa liberdade nasce do amor de Deus e cresce na caridade.

Fonte: Vatican News

Papa Francisco: ninguém pode ser feito escravo em nome de Jesus

Cidade do Vaticano (Bianca Fraccalvieri)

A liberdade cristã foi o tema da catequese do Papa Francisco, que se reuniu com milhares de fiéis na Sala Paulo para a Audiência Geral.

O Pontífice deu continuidade ao ciclo sobre a Carta aos Gálatas, comentando alguns versículos do quarto capítulo, em que o Apóstolo afirma que “é para a liberdade que Cristo nos libertou”.

O Papa explicou que Paulo não podia suportar que aqueles cristãos, depois de terem conhecido e acolhido a verdade de Cristo, se deixassem atrair por propostas enganosas, passando da liberdade à escravidão: da presença libertadora de Jesus à escravidão do pecado, do legalismo e assim por diante. “Não se pode forçar em nome de Jesus, ninguém pode ser feito escravo em nome de Jesus que nos torna livres”, disse Francisco. “Uma pregação que impedisse a liberdade em Cristo nunca seria evangélica.”

O Papa prosseguiu explicando que a liberdade cristã é fundada sobre dois pilares fundamentais: primeiro, a graça do Senhor Jesus.

“Antes de tudo, é dom do Senhor. A liberdade que os Gálatas receberam – e nós como eles – é fruto da morte e ressurreição de Jesus. (…) Ali mesmo, onde Jesus se deixou cravar, Deus colocou a fonte da libertação radical do ser humano. Este é o mistério do amor de Deus! Jesus realiza sua plena liberdade ao entregar-se à morte; sabe que só assim pode obter vida para todos.

A verdade através da inquietude

O segundo pilar da liberdade é a verdade. É preciso recordar que a verdade da fé não é uma teoria abstrata, mas a realidade de Cristo vivo:

“Quantas pessoas que não estudaram, que não sabem ler ou escrever, mas que entenderam bem a mensagem de Cristo, têm esta sabedoria que as torna livres, sem estudo. É a sabedoria de Cristo que entrou através do Espírito Santo no Batismo. Quantas pessoas encontramos que vivem a vida de Cristo mais do que os grandes teólogos, por exemplo. Elas são um grande testemunho da liberdade do Evangelho“, disse o Papa.

“A liberdade torna livres na medida em que transforma a vida de uma pessoa e a direciona para o bem”, acrescentou Francisco.

“A verdade deve nos inquietar, voltemos a esta palavra muito, muito cristã: inquietude. Sabemos que existem cristãos que nunca, nunca se inquietam: vivem sempre o mesmo, não há movimento em seus corações, não há inquietude. Por que? Porque a inquietude é o sinal de que o Espírito Santo está trabalhando dentro de nós, e a liberdade é uma liberdade ativa, com a graça do Espírito Santo. É por isso que eu digo que a liberdade deve nos inquietar, deve continuamente nos fazer perguntas, para que possamos cada vez mais aprofundar sobre quem realmente somos.”

Todavia, o caminho da verdade e da liberdade é um caminho difícil, que dura a vida inteira. “Um caminho no qual somos guiados e apoiados pelo Amor que vem da Cruz: o Amor que nos revela a verdade e nos dá a liberdade. E este é o caminho da felicidade.”

Fonte: Vatican News

Papa: justificados pela graça, sejamos ativos no amor a Deus e ao próximo

Bianca Fraccalvieri (Cidade do Vaticano)

O Papa Francisco se reuniu na manhã desta quarta-feira com milhares de fiéis na Sala Paulo VI para a Audiência Geral.

Após a parentese na semana passada para recordar sua viagem a Budapeste e Eslováquia, na catequese de hoje o Pontífice retomou o ciclo sobre a Carta aos Gálatas e comentou um tema que ele mesmo definiu “difícil, mas importante”: o da justificação.

“O que é a justificação? Nós, como pecadores, nos tornamos justos. Quem nos fez justos? Este processo de transformação é a justificação. Nós, diante de Deus, somos justos.”

Certamente somos pecadores, “mas na base somos justos”, explicou Francisco, e quem nos justificou foi Jesus Cristo.

A bondade de Deus

Paulo insiste no fato de que a justificação vem da fé em Cristo. No seu pensamento, a justificação é a consequência da “misericórdia de Deus que oferece o perdão”. “E este é o nosso Deus, assim tão bom! Misericordioso, paciente e repleto de misericórdia, que continuamente oferece o perdão. Continuamente.

De fato, através da morte de Jesus, Deus destruiu o pecado e deu-nos o perdão e a salvação de uma forma definitiva. Assim justificados, os pecadores são acolhidos por Deus e reconciliados com Ele.

É como um regresso à relação original entre o Criador e a criatura, antes que interviesse a desobediência do pecado. Portanto, a justificação que Deus realiza permite que recuperemos a inocência perdida com o pecado. E isto ocorre “por pura graça, não por nossos méritos”. Cristo pagou por todos nós, através de sua morte e ressurreição.

Responder ao Amor com amor

Todavia, isso não significa que, para Paulo, a Lei mosaica já não tenha valor; pelo contrário. Inclusive para a nossa vida espiritual é essencial observar os mandamentos, mas também aqui não podemos confiar na nossa própria força: a graça de Deus que recebemos em Cristo é fundamental. Dele recebemos aquele amor gratuito que nos permite, por nossa vez, amar de modo concreto.

E não só: a resposta da fé exige que sejamos ativos no amor a Deus e no amor ao próximo. Isso requer de nós colaboração, conjugar a graça que recebemos com nossas obras de misericórdia.

Francisco citou novamente o estilo de Deus, que resumiu em três atitudes: proximidade, compaixão e ternura.

“E a justificação é justamente a maior proximidade Deus para conosco, homens e mulheres, a maior compaixão de Deus para conosco, homens e mulheres, a maior ternura do Pai. A justificação é este dom de Cristo, da morte e ressurreição de Cristo que nos torna livres. (…)  Permitam-me a palavra: somos santos na base. Mas depois, com a nossa obra, nos tornamos pecadores. Mas na base somos santos.”

E o Papa concluiu:

“Vamos em frente com esta confiança: todos fomos justificados, somos justos em Cristo. Devemos aplicar aquela justiça com as nossas obras.”

A proteção dos Santos Arcanjos

No final da Audiência, em sua saudação em várias línguas, o Papa recordou hoje a memória litúrgica dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.

“Confiemo-nos de modo especial à proteção dos santos Arcanjos: Miguel, que combate satanás e os espíritos malignos; Gabriel, que leva a boa nova do Senhor; e Rafael, que cura e acompanha na busca do bem. Com a sua ajuda, sejam também vocês mensageiros da graça e da misericórdia do Senhor.”

Paz na Nigéria

Francisco fez também um apelo em prol da paz na Nigéria, depois dos ataques domingo passado contra os vilarejos de Madamai e Abun, no norte do país. “Rezo por quem perdeu a vida, por quem ficou ferido e por toda a população nigeriana. Faço votos de que seja sempre garantida no país a incolumidade de todos os cidadãos.”

Fonte: Vatican News

O Papa: Hungria e Eslováquia, uma peregrinação de oração, às raízes e de esperança

Mariangela Jaguraba (Vatican News)

A Viagem Apostólica à Hungria e Eslováquia foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (22/09). A viagem concluiu-se há uma semana.

O Papa fez um resumo de sua viagem: “Foi uma peregrinação de oração, uma peregrinação às raízes, uma peregrinação de esperança.”

“Não há oração sem memória”

A primeira etapa foi em Budapeste, para a Santa Missa de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, adiada exatamente de um ano por causa da pandemia. Houve uma grande participação nessa celebração. O povo santo de Deus, no dia do Senhor, reuniu-se perante o mistério da Eucaristia, pelo qual é continuamente gerado e regenerado. Foi abraçado pela Cruz que se erguia sobre o altar, mostrando a mesma direção indicada pela Eucaristia, ou seja, o caminho do amor humilde e abnegado, do amor generoso e respeitador de todos, do caminho da fé que purifica da mundanidade e conduz à essencialidade. Essa fé nos purifica sempre e nos distancia da mundanidade que nos arruína, é um verme que nos arruína por dentro.

A seguir, Francisco recordou que “a peregrinação de oração concluiu se na Eslováquia, na Festa de Nossa Senhora das Dores. Também ali, em Šaštín, no Santuário da Virgem das Sete Dores, um grande povo de filhos veio para a festa da Mãe, que é também a festividade religiosa nacional. Então, a minha foi uma peregrinação de oração no coração da Europa, começando pela adoração e terminando com a piedade popular. Pois o Povo de Deus é chamado sobretudo a isto: adorar, rezar, caminhar, peregrinar, fazer penitência e nisto sentir a paz, a alegria que o Senhor nos dá”.

O Papa recordou que este povo santo de Deus sofreu a perseguição ateia. Lembrou os irmãos judeus e disse que “não há oração sem memória”. “Quando rezamos devemos lembrar a própria vida, do povo, de tantas pessoas que nos acompanham. Lembrar qual foi a história. A oração é a memória da própria vida, da vida do povo, da história. Recordar faz bem e ajuda a rezar”, disse ainda o Pontífice.

As raízes são garantia de futuro

Uma peregrinação às raízes foi o segundo aspecto da viagem do Papa Francisco. O Papa recordou o encontro com os bispos, tanto em Budapeste quanto em Bratislava, onde ele pode “tocar com as próprias mãos a grata memória destas raízes da fé e da vida cristã, vividas no brilhante exemplo de testemunhas da fé, como os Cardeais Mindszenty e Korec, e o Beato Bispo Pavel Peter Gojdič. Raízes que remontam ao século IX, à obra evangelizadora dos santos irmãos Cirilo e Metódio, que acompanharam esta viagem como uma presença constante. Senti a força destas raízes na celebração da Divina Liturgia em rito bizantino, em Prešov, na festa da Santa Cruz. Nos cânticos senti vibrar o coração do santo povo fiel, forjado por tantos sofrimentos padecidos em nome da fé”.

Para nós, Cirilo e Metódio não são personagens a ser comemorados, mas modelos a imitar, mestres dos quais sempre aprender o espírito e o método da evangelização, assim como o compromisso civil. Durante esta viagem ao coração da Europa pensei muitas vezes nos pais da União europeia. Assim entendidas e vividas, as raízes são garantia de futuro: delas brotam frondosos ramos de esperança. Nós também temos raízes, cada um de nós, dos pais, dos avós. Estamos ligados aos avós que são um tesouro. Eles nos dão a linfa.

Esperança nos olhos dos jovens

O terceiro aspecto da viagem é que foi uma peregrinação de esperança. Francisco disse que viu “muita esperança nos olhos dos jovens, no inesquecível encontro no Estádio de Košice“.

Me deu esperança ver tantos casais jovens, tantas crianças. Pensei no inverno demográfico que estamos vivendo e esses países florescem de casais jovens e crianças. Um sinal de esperança. Especialmente em tempos de pandemia, este momento de festa foi um sinal forte e encorajador, também graças à presença de muitos casais jovens com os seus filhos. Igualmente forte e profético foi o testemunho da Beata Ana Kolesárová, jovem eslovaca que defendeu a própria dignidade contra a violência à custa da vida: um testemunho que infelizmente é mais relevante do que nunca, pois a violência contra as mulheres é uma chaga aberta. Em todos os lugares.

O Papa disse também que “viu esperança em muitas pessoas que, silenciosamente, se ocupam e se preocupam com o próximo. Penso nas Irmãs Missionárias da Caridade do Centro Belém, em Bratislava, boas irmãs que recebem os descartados da sociedade, rezam e servem, rezam e ajudam, rezam muito e ajudam muito sem pretensões. São heroínas dessa civilização”. O Papa pediu um aplauso para Santa Teresa de Calcutá e para as irmãs Missionarias da Caridade que acolhem os sem-teto. Recordou a “Comunidade Cigana e todos aqueles que trabalham com eles num caminho de fraternidade e inclusão”. “Foi emocionante partilhar a festa da Comunidade Cigana, uma festa simples com o sabor do Evangelho. Os ciganos são nossos irmãos. Devemos acolhê-los, estar próximos a eles como fazem os sacerdotes salesianos em Bratislava”, disse o Pontífice.

Permanecer juntos 

O Papa concluiu, dizendo que a esperança do Evangelho que ele viu nesta viagem, “só pode ser realizada e concretizada se for declinada com outra palavra: juntos. A esperança nunca decepciona, mas a esperança nunca caminha sozinha”. Na Hungria e na Eslováquia “encontramo-nos, juntos, com os diferentes ritos da Igreja católica, juntos com os nossos irmãos de outras Confissões cristãs, juntos com os irmãos Judeus, juntos com os fiéis de outras religiões, juntos com os mais fracos. Este é o caminho, porque o futuro será de esperança se permanecermos juntos, não sozinhos. Isso é importante”.

Fonte: Vatican News

Papa: ser cristão é superar discriminações. O batismo confere igual dignidade a todos

Bianca Fraccalvieri (Cidade do Vaticano)

“Somos filhos de Deus”: este foi o tema da catequese do Papa Francisco esta quarta-feira (08/09), na Sala Paulo VI, dando continuidade ao ciclo sobre a Carta de São Paulo aos Gálatas. O Apóstolo insiste com aqueles cristãos para que não se esqueçam da novidade radical que supõe o batismo na vida dos fiéis.

“Nós, cristãos – comentou o Papa -, damos frequentemente por certa esta realidade de ser filhos de Deus. Ao contrário, é bom recordar sempre com gratidão o momento em que nos tornamos tais, o do nosso batismo, para viver com maior consciência o grande dom recebido.”

Como já fez em inúmeras ocasiões, o Pontífice reforçou a importância de saber a data em fomos batizados e recordá-la todos os anos. “Se hoje eu perguntasse quem de vocês sabe a data do batismo, creio que poucos levantariam a mão”, brincou Francisco, recomendando que os fiéis celebrem esta memória. 

Cristo faz toda a diferença

A filiação de que fala Paulo contém uma particularidade, ele afirma que a fé permite ser filhos de Deus «em Cristo» (3, 26). É este “em Cristo” que faz a diferença, explicou Francisco. Pela sua encarnação, Ele tornou-se nosso irmão, e pela sua morte e ressurreição reconciliou-nos com o Pai.

Nas suas Cartas, São Paulo refere-se várias vezes ao batismo. Para ele, ser batizado equivale a participar de modo efetivo e real no mistério de Jesus. Portanto, não é apenas um rito externo. Aqueles que o recebem são transformados nas profundezas do seu ser, no seu íntimo, e possuem uma nova existência, precisamente a vida que lhes permite dirigir-se a Deus e invocá-lo com o nome de “Aba, pai”.

Superação das diferenças

Francisco define como audaciosas, chocantes e revolucionárias as afirmações do Apóstolo na época, pois, através do batismo, a filiação divina prevalece sobre as diferenças culturais, sociais e religiosas: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher”.

Sobre estes conceitos, o Papa afirmou com pesar que, no caso da escravidão, esta existe ainda hoje: “Milhões de pessoas sem direito a comer, à educação, ao trabalho. São os novos escravos, que estão na periferia, explorados por todos. Ainda hoje existe a escravidão, pensemos nisto”.

Quanto à diferença entre homens e mulheres, o Pontífice condenou expressões de desprezo ao gênero feminino. “Homem e mulher têm a mesma dignidade. E tem na história hoje uma escravidão das mulheres, as mulheres não tem as mesmas oportunidades que os homens.”

Unidade da raça humana

Paulo afirma a profunda unidade que existe entre todos os batizados, qualquer que seja a sua condição, pois cada um deles, em Cristo, é uma criatura nova. Toda distinção torna-se secundária no que diz respeito à dignidade de ser filho de Deus. O Papa então concluiu:

“As diferenças e os contrastes que criam separação não deveriam existir entre os fiéis em Cristo”, acrescentou o Papa, citando situações “inconscientes” que fazemos inclusive dentro da Igreja, dando prioridade a pessoas bem vestidas e ignorando quem se apresenta maltrapilho.

“A nossa vocação é tornar concreta e evidente a chamada à unidade de toda a raça humana. Tudo o que exacerba as diferenças entre as pessoas, muitas vezes causando discriminação, tudo isto, perante Deus, já não tem qualquer substância, graças à salvação realizada em Cristo. O que conta é a fé que age seguindo o caminho da unidade, indicado pelo Espírito Santo. A nossa responsabilidade consiste em percorrer decisivamente este caminho da igualdade. Mas a igualdade que é sustentada pela redenção de Jesus.”

Fonte: Vatican News

O Papa: “A santidade vem do Espírito Santo, é a gratuidade da redenção de Jesus”

Mariangela Jaguraba (Vatican News)

Gálatas insensatos” foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (1°/09), realizada na Sala Paulo VI, no Vaticano.

A catequese de hoje deu início à segunda parte da Carta de São Paulo aos Gálatas na qual o Apóstolo dos Gentios interpela diretamente os Gálatas, colocando-os “diante das escolhas que fizeram e da sua condição atual, que poderia anular a experiência de graça que viveram”.

Os termos com os quais o Apóstolo se dirige aos Gálatas certamente não são gentis. Nas outras Cartas é fácil encontrar a expressão “irmãos” ou “caríssimos”, aqui não. Diz genericamente “Gálatas” e duas vezes lhes chama “insensatos”. Não o faz porque não são inteligentes, mas porque, quase sem perceber, correm o risco de perder a fé em Cristo que aceitaram com tanto entusiasmo. São insensatos por não perceberem que o perigo é o de perder o precioso tesouro, a beleza da novidade de Cristo.  A maravilha e a tristeza do Apóstolo são evidentes. Não sem amargura, ele provoca esses cristãos a lembrarem-se do primeiro anúncio feito por ele, através do qual lhes ofereceu a possibilidade de adquirirem uma liberdade até então inesperada.

Ação do Espírito Santo nas comunidades

Segundo o Papa, o Apóstolo “faz perguntas aos Gálatas a fim de despertar as suas consciências. Trata-se de questões retóricas, pois os Gálatas sabem muito bem que a sua chegada à fé em Cristo é fruto da graça recebida através da pregação do Evangelho. A palavra que ouviram de Paulo centrou-se no amor de Deus, plenamente manifestado na morte e ressurreição de Jesus. Os Gálatas devem olhar para este evento, sem se deixarem distrair por outros anúncios. A intenção de Paulo é colocar os cristãos em condições para que percebam o que está em jogo e não se deixem encantar pela voz das sereias que os querem conduzir a uma religiosidade baseada unicamente na observância escrupulosa dos preceitos”.

Os Gálatas experimentaram também a ação do Espírito Santo nas comunidades. “Ao serem colocados à prova, tiveram de responder que quanto tinham vivido era fruto da novidade do Espírito. No início da sua chegada à fé, portanto, estava a iniciativa de Deus e não a dos homens. O Espírito Santo tinha sido o protagonista da sua experiência; colocá-lo agora em segundo plano a fim de dar primazia às próprias obras seria uma insensatez. A santidade vem do Espírito Santo e essa é a gratuidade da redenção de Jesus: isso nos justifica“, disse ainda o Papa.

Deus continua concedendo os seus dons

São Paulo nos convida também a refletir sobre a forma como vivemos a fé. “Será que o amor de Cristo crucificado e ressuscitado permanece no centro da nossa vida quotidiana como fonte de salvação, ou será que nos contentamos com algumas formalidades religiosas para estar em paz com a nossa consciência? Estamos apegados ao tesouro precioso, à beleza da novidade de Cristo, ou preferimos algo que neste momento nos atrai, mas que depois nos deixa vazios por dentro?”

“O efêmero bate muitas vezes à porta dos nossos dias, mas é uma triste ilusão, que nos faz cair na superficialidade e nos impede de discernir aquilo pelo qual realmente vale a pena viver.”

O Papa nos convidou a manter a certeza de que, “mesmo quando somos tentados a nos afastar, Deus continua concedendo os seus dons”.

Uma ascese sábia e não artificial

Sempre na história e também hoje, acontecem coisas semelhantes ao que aconteceu aos Gálatas. Também hoje, ouvimos alguém que diz: “Não, a santidade está nesses preceitos, nessas coisas, vocês têm que fazer isso ou aquilo, e isso nos leva a uma religiosidade rígida, de rigidez que nos tira aquela liberdade no Espírito que a redenção de Cristo nos dá. Cuidado com a rigidez que lhe é proposta. Por trás de toda rigidez existe algo ruim, não há o Espírito de Deus. Esta carta nos ajudará a não dar ouvidos a essas propostas um pouco fundamentalistas que nos fazem regressar em nossa vida espiritual, e nos ajudará a ir adiante na vocação pascal de Jesus.

Francisco concluiu sua catequese, dizendo que, apesar de todas as dificuldades que possamos colocar à sua ação do Espírito, “não obstante os nossos pecados, Deus não nos abandona, mas permanece conosco com o seu amor misericordioso. Deus está sempre perto de nós com a sua bondade. Peçamos a sabedoria de percebermos sempre essa realidade e mandar embora os fundamentalistas que nos propõem um caminho de ascese artificial, distante da ressurreição de Cristo. A ascese é necessária, mas uma ascese sábia e não artificial“.

Fonte: Vatican News

Papa Francisco: viver sem medo de ser verdadeiro. O hipócrita não sabe amar

Bianca Fraccalvieri (Vatican News)

A hipocrisia foi o tema da Audiência Geral desta quarta-feira (25/08). Dando continuidade ao ciclo de catequeses sobre a Carta de São Paulo aos Gálatas, o Papa Francisco citou um episódio narrado pelo Apóstolo ocorrido em Antioquia.

O protagonista é Pedro e o que está em jogo é a relação entre a Lei e a liberdade. O objeto da crítica foi o comportamento de Pedro à mesa, que mudou de acordo com a companhia. A Lei proibia a um judeu de partilhar refeições com não judeus. Pedro estava à mesa sem qualquer dificuldade com os cristãos que tinham vindo do paganismo, mas quando alguns cristãos de Jerusalém, circuncidados, chegaram à cidade, ele já não o fez, para não incorrer nas críticas deles. Isto é grave aos olhos de Paulo, até porque Pedro estava a ser imitado por outros discípulos e o seu comportamento criou uma divisão injusta na comunidade.

Paulo recorda aos cristãos que eles não devem absolutamente escutar aqueles que pregam a necessidade de serem circuncidados e assim ficar “sob a Lei” com todas as suas prescrições. Na sua repreensão, Paulo usa um termo que permite entrar nos méritos da sua reação: hipocrisia (cf. Gl 2, 13).

A observância da Lei por parte dos cristãos levou a este comportamento hipócrita, que o Apóstolo pretende combater com força e convicção.

Papa saúda fiéis na Sala Paulo VI

Fingir é maquiar a alma

Para Francisco, hipocrisia é o medo da verdade. As pessoas preferem fingir do que ser elas mesmas. “É como maquiar a alma, maquiar as atitudes, o modo de proceder: não é a verdade.” Fingir impede a coragem de dizer a verdade abertamente, e assim facilmente se evita a obrigação de a dizer sempre, em todo o lado e apesar de tudo.

“O fingimento leva a isto: às meias verdades”, disse ainda o Papa. E as meias verdades são um fingimento, são um modo de agir não verdadeiro e que impede a coragem, de dizer abertamente a verdade. Num ambiente em que as relações interpessoais são vividas sob a bandeira do formalismo, o vírus da hipocrisia propaga-se facilmente.

O Papa recorda que há vários exemplos na Bíblia onde a hipocrisia é combatida, como o velho Eleazar, e situações em que Jesus repreende fortemente aqueles que parecem justos no exterior, mas no interior estão cheios de falsidade e iniquidade.

“O hipócrita é uma pessoa que finge, lisonjeia e engana porque vive com uma máscara no rosto, e não tem a coragem de enfrentar a verdade. Por isso, não é capaz de amar verdadeiramente: limita-se a viver pelo egoísmo e não tem a força para mostrar o seu coração com transparência.”

O hipócrita não sabe amar

Há muitas situações em que a hipocrisia pode ocorrer, adverte Francisco: no trabalho, na política e até mesmo na Igreja, onde “é particularmente detestável”. “Infelizmente, existe hipocrisia na Igreja. Há muitos cristãos e ministros hipócritas.”

Francisco encerra sua catequese citando as palavras de Jesus: «Seja este o vosso modo de falar: sim, sim, não, não; tudo o que for além disto procede do espírito do mal» (Mt 5, 37).

“Irmãos e irmãs, pensemos nisso que Paulo condena: a hipocrisia; e que Jesus condena: a hipocrisia. E não tenhamos medo de sermos verdadeiros, de dizer a verdade, de sentir a verdade, de nos conformar à verdade. Assim poderemos amar. O hipócrita não sabe amar. Agir de outra forma é pôr em perigo a unidade na Igreja, aquela pela qual o próprio Senhor rezou.”

Fonte: Vatican News