30º Domingo do Tempo Comum: “O amor a Deus está vinculado com o amor ao próximo!”

Jesus é chamado de Mestre por um doutor de Lei. Por parte dos fariseus isto seria uma ironia em relação a Jesus que não era doutor da Lei, mas estava ensinando nas sinagogas e no templo de Jerusalém. No Evangelho deste Domingo o doutor lhe pergunta sobre “o maior mandamento da Lei”. Ele estava se referindo à Lei de Deus, partindo do decálogo que Deus revelou a Moisés. Em poucas palavras Jesus resume toda a Lei e os profetas: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento… e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. O maior mandamento se resume no amor.

O amor na Sagrada Escritura é uma força que faz sair de si mesmo e agir para o bem do outro. São João diz que “Deus é amor” (cf 1Jo 4,8). A sua experiência de Deus que vive em comunhão com o Filho Jesus e o Espírito Santo e está presente no meio da comunidade agindo como Pai, Mãe, Pastor, Guia, Luz, Força e Vida, o fez chegar a esta definição, pois o mistério da ação gratuita de Deus pelos seus filhos e filhas não se explica com palavras humanas. De fato, na Sagrada Escritura, a aliança de Deus com o seu povo é um compromisso de amor em que Deus se empenha, cuida, zela por seu povo e espera uma resposta de gratidão e reconhecimento. Ao mesmo tempo, Deus espera o empenho de cada filho e filha com o seu semelhante. É o que vemos expresso na primeira leitura onde aparece o mandamento do amor ao próximo em atitude de “não prejudicar o estrangeiro, nem oprimir, nem maltratar, nem explorar com juros, nem confiscar o necessário do pobre”.
O amor a Deus está vinculado com o amor ao próximo, isto é viver a caridade. O amor a Deus deve ser incondicional, com todo o ser, “coração, alma e entendimento” repete Jesus (cf Dt 6,5) e o amor ao próximo como se ama “a si mesmo” (cf Lv 19,18). Os primeiros cristãos entenderam, mas tinham dificuldades como os fariseus. São João foi categórico escrevendo às comunidades: “quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar” (1Jo 4,20). Jesus faz entender a relação profunda entre os dois amores que, na prática não podem estar desvinculados para não cair na aridez do racionalismo ou da hipocrisia.
Os cristãos são amados por Deus, por Jesus que é a revelação do grande amor do Pai e que, por sua vez, viveu o amor até as últimas consequências abraçando a morte de cruz, e pelo Espírito Santo que é dom e força criadora de Deus. Cabe a cada um corresponder a este amor infinito de Deus amando-o e amando o próximo desinteressadamente como si mesmo. A caridade nos faz colocar-nos na pele dos sofredores deste mundo e agir impulsionados pelo amor gratuito.

Frei Valmir Ramos, OFM

29º Domingo do Tempo Comum: “O Ensinamento de Jesus é para que os seus seguidores sejam livres da dependência d poder econômico e do poder político!”

Jesus revela aos judeus, tantos fariseus que eram muito nacionalistas, quanto herodianos que colaboravam com o Império romano, que existe um único Deus poderoso. O profeta Isaías já havia anunciado, como vemos na primeira leitura: “Eu sou o Senhor, não existe outro”. Acontece que os judeus estavam enganados pelo poder do dinheiro e do imperador romano. Eles pensavam que poderiam confiar no imperador que se autodenominava deus. E não foi apenas um dos imperadores romanos que pensava assim. Por isso, no território do Império que se estendia pela Ásia Menor, construíam os templos para adorar o imperador. Daí que no Apocalipse encontramos a expressão “trono de satanás” (cf. Ap 2,13) fazendo referência a um desses templos.

Quando os fariseus, ofendidos pelo ensinamento de Jesus, fazem uma aliança com os herodianos, aparece claramente a intenção de liquidar com Jesus, pois o veem como inimigo maior. Jesus, conhecendo suas intenções, impõe uma grande derrota a eles justamente através da palavra com a qual queriam condená-lo. Isto é bem claro no diálogo transmitido pelos evangelistas: os fariseus falam em “pagar” a César e Jesus fala em “devolver” ao imperador o que é dele e a Deus o que é de Deus.

Não foi a primeira nem a única vez que as pessoas colocaram a confiança no dinheiro e nos poderosos desse mundo. A história dos povos e a nossa de hoje indicam que o ser humano precisa crescer na confiança no único e verdadeiro Deus. Jesus ensina que a confiança no dinheiro é idolatria. Ele mostra que nenhum poderoso deste mundo é Deus. De fato, todos que colocaram a sua confiança no dinheiro e nos poderosos desse mundo caíram por terra.

Hoje é importante compreender que não se trata simplesmente de diferenciar as duas dimensões: a política e a religiosa. O ensinamento de Jesus é para que o seus seguidores sejam livres da dependência do poder econômico e do poder político, pois estes poderes exploram, oprimem e matam outros seres humanos. No Reino de Deus todos têm vida em abundância (cf. Jo 10,10) e existe paz porque todos se respeitam e são solidários. Devolver a Deus o que é dEle é empenhar-se concretamente para defender a vida de todos e construir o seu Reino neste mundo.

Na segunda leitura, São Paulo faz menção às virtudes cristãs: fé, esperança e caridade. Ele elogia os cristãos de Tessalônica por terem deixado os ídolos e abraçado Jesus Cristo para “servir o Deus vivo e verdadeiro”. Este serviço implica a construção do Reino com fé, esperança e caridade.

Os cristãos de hoje são chamados a enxergar a presença de Deus na história e discernir a sua ação para defender seus filhos e filhas das garras dos enganadores deste mundo. O Espírito Santo é a força dos cristãos e de todos aqueles que defendem a vida dos seres humanos e da natureza.

Frei Valmir Ramos, OFM

 

28° Domingo do Tempo Comum: “O Reino é dom gratuito que Deus oferece aos seus filhos e filhas!”

A imagem do banquete era usada já no Antigo Testamento para indicar o “dia da salvação” ou, como vemos na primeira leitura, o dia em que Deus “enxugaria todas as lágrimas… faria desaparecer toda desonra sobre o povo”. Deste banquete participaria todos os povos que, no Evangelho deste Domingo, são aqueles que aceitaram o convite e se vestiram adequadamente, isto é, se revestiram das obras do Reino. O Reino é dom gratuito que Deus oferece aos seus filhos e filhas, contudo, cada um deve responder a esta graça com atitude de coração pobre, de criança que confia, de alguém de busca primeiro o Reino e a sua justiça e faz a vontade do Pai.

Alguns elementos se destacam na parábola de Jesus sobre o banquete: os primeiros convidados não responderam ao convite, pois estavam ocupados com seus compromissos e negócios, ou pior, maltrataram e mataram os mensageiros do Rei (esta é uma menção do que aconteceu com os profetas enviados por Deus e com os primeiros cristãos, perseguidos e mortos pelos judeus e pelos romanos); o Rei “enviou seus exércitos e incendiou a cidade” (menção à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.); todos os outros convidados, “bons e maus” encheram a sala (é menção aos que abraçaram a fé cristã, pobres, doentes e pecadores que se encontravam pelas margens da sociedade); “um homem que não estava vestido com o traje nupcial” (menção daqueles cristãos que pretendem o Reino sem praticar a justiça, o amor e a misericórdia).

O texto completo de Mateus se conclui com a máxima: “muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”. Na Bíblia a eleição ou escolha é um ato gratuito de Deus para constituir um povo santo, consagrado a Ele (cf Dt 26,19). Este povo deveria colocar-se a serviço de Deus que o elegeu e o consagrou. Caso contrário, é possível ver uma “rejeição” no momento do julgamento: “não vos conheço” (cf Mt 25,12), pois os que tinham sido eleitos não praticaram a justiça do Reino e não acudiram aos necessitados.

Para nós cristãos de hoje ressoa o convite de Jesus para participarmos do seu banquete revestidos das obras do Reino. Para isto é preciso despojarmo-nos de qualquer privilégio, da arrogância, da pretensão de sermos justo, da sede de poder e do egoísmo que nos faz pensar somente em satisfazer os nossos próprios interesses.

Frei Valmir Ramos, OFM

27º Domingo do Tempo Comum: “Deus continua vigilante sobre a sua vinha e espera bons frutos!”

Imagem ilustrativa (Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição – OFM)

Jesus usa uma imagem muito conhecida pelos discípulos e pelo povo de seu tempo. É a imagem da vinha usada pelo profeta Isaías na primeira leitura. O profeta fala da vinha como sendo o povo da aliança, o povo de Israel que foi tirado da escravidão do Egito, conduzido pelo deserto até chegar na terra prometida. Deus foi fiel ao empenho assumido na aliança: “eu serei o seu Deus”, mas o povo desviou-se do compromisso de tê-lo como Deus e agir de acordo com a sua vontade. Por isso não produziu uvas boas, frutos bons, que quer dizer, não foi fiel a Deus, foi injusto com o semelhante, usou de violência, foi vingativo, atentou contra a vida dos outros e adorava deuses falsos. O profeta lia a destruição do povo de Israel como consequência de sua infidelidade.

Jesus contextualiza a imagem da vinha para a realização plena da promessa de Deus de enviar o Salvador. Aconteceu que aquele povo não aceitou o empenho de produzir frutos para o Reino de Deus. E, pior ainda, foi egoísta e quis tomar posse da vinha, por isso perseguiu e matou os profetas, mensageiros do dono da vinha. Por fim matou o próprio Filho do dono.

Esta parábola foi contada aos chefes dos sacerdotes e aos anciãos do povo. Quer dizer que Jesus estava diante daqueles que tinham a responsabilidade de guiar o povo para a fidelidade a Deus, para a construção do Reino e para a aceitação de Jesus como o Salvador. Nada disso estava acontecendo e, por isso mesmo, a vinha não seria mais o povo de Israel, mas a nova família de Jesus formada por judeus e estrangeiros que acreditavam Nele e se empenhavam na construção do Reino de Deus.

Esta consequência não pode ser entendida como vingança de Deus, pois Ele sempre espera a conversão de seu povo. Deus continua vigilante sobre a sua vinha e espera pelos bons frutos. Ele continua enviando operários para que a vinha produza bons frutos para o Reino.

Acontece que hoje muitos sinais indicam frutos amargos, gestos egoístas e desprezo pela vida. Podemos constatar isso desde a violência doméstica até ataques contra inocentes em situações de guerra, terroristas ou ainda negligentes que deixam outros morrerem sem cuidados. Ninguém pode dizer que esta é vontade de Deus ou que Ele não intervém. Acontece que Deus deu a vida para todos e deu inteligência para que todos pudessem se amar, se respeitar e, juntos, viver a justiça e construir o Reino onde todos tivessem vida plena em paz e harmonia.

Usar à inteligência para destruir a vida é ser infiel a Deus e aos princípios da humanidade. Por isso, nós cristãos precisamos agir em defesa da vida com empenho constante. Por exemplo, só votar em um político que defende a vida em todos as suas etapas, que é contra a liberação de armas, que defende território aos indígenas, aos quilombolas, aos pobres… pois os políticos fazem as leis que às vezes não defendem a vida mais vulnerável. Deus conta com cada um de nós para que a sua vinha continue produzindo bons frutos e o Reino dele seja uma realidade na vida de todos os povos.

Frei Valmir Ramos, OFM

26° Domingo do Tempo Comum: “O amor de Deus é gratuito e espera de seus filhos e filhas a obediência à sua vontade!”

Imagem ilustrativa (Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição – OFM)

Os evangelistas apresentam uma série de controvérsias de Jesus com os líderes religiosos dos judeus. Normalmente são diálogos em que Jesus propõe uma pergunta e eles respondem contra si mesmos. No texto do Evangelho deste Domingo, Mateus apresenta uma parábola de Jesus sobre a necessidade de conversão para entrar no Reino de Deus, isto é, fazer a vontade de Deus. Citando três personagens, um pai e dois filhos, Jesus mostra um que inicialmente resiste à vontade do Pai e depois a cumpre; outro que é incoerente, pois aparentemente aceita a vontade do Pai, mas não a põe em prática.

O texto é simples e bem claro, fazendo entender que a vinha é o Reino de Deus no qual todos devem trabalhar no “caminho da justiça” ensinado por João Batista. O primeiro filho representa todos os considerados pecadores públicos como é o caso dos “cobradores de impostos (publicanos) e as prostitutas”. O segundo são os líderes religiosos judeus, incluindo “fariseus, saduceus, escribas e mestres da lei”, que conheciam a Palavra, mas não a colocavam em prática, pois ficavam no discurso e perdidos em disputas estéreis. Jesus provocou a ira dos judeus, pois afirmou que os mais desprezados da sociedade os precederia no Reino. Na prática, os judeus não aceitaram que Deus pudesse usar de misericórdia e que os pecadores pudessem mudar de vida. Eles se consideravam “justos” aos olhos de Deus, mas estavam longe de praticar a justiça divina.
O profeta Ezequiel já havia denunciado a pretensão de alguns que chegavam a dizer que “a maneira de proceder do Senhor não é justa”. Eles pensavam a partir da lógica humana que classifica como justo somente aquele que segue a lei, mesmo que fira os mais sagrados direitos das pessoas. O profeta é claro em anunciar a voz de Deus que espera a conversão do pecador para se “afastar do mal e praticar o direito e a justiça”. O amor de Deus é gratuito e espera de seus filhos e filhas a obediência à sua vontade.
O Mestre Jesus é o grande sinal de obediência à vontade do Pai. Na carta aos Filipenses temos o testemunho: “Jesus que era de condição divina… assumiu a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens… humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz”. O Pai não queria a morte de Jesus, mas os homens não entenderam o seu projeto e usaram a lei para condená-lo à morte. Com a ressurreição, porém, Jesus saiu vencedor da morte, da violência e de toda forma de aniquilamento da vida.
Os cristãos de hoje são chamados a espelhar-se no Mestre, ouvir e colocar em prática a vontade de Deus, realizando a palavra de São Pedro: “obedecer a Deus antes que aos homens” (cf At 5,29) e tomando sempre o caminho da conversão constante.

Frei Valmir Ramos, OFM

25° Domingo do Tempo Comum: “A lógica de Deus é a aquela da Justiça Misericordiosa!”

Imagem ilustrativa (Fonte: Agrosaber)

A parábola do Evangelho deste Domingo indica a lógica do Reino de Deus. De fato, Deus pensa diferente dos seres humanos. Ouvimos isto na primeira leitura tirada do livro do profeta Isaías: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos… meus pensamentos estão acima dos vossos pensamentos, quanto está o céu acima da terra”. A lógica de Deus é aquela da justiça misericordiosa que olha para cada filho e cada filha com suas necessidades, enquanto a nossa lógica é aquela da retribuição.

Além disso, nós consideramos que somos mais merecedores que os outros e, às vezes, somos tomados pela inveja.Nesta parábola dos trabalhadores da vinha, Jesus usa um exemplo do cotidiano para indicar ao menos três realidades do próprio Deus. Primeiro indica que Deus é justo e misericordioso, isto é, Ele está sempre presente na vida de seus filhos e filhas e não admite a miserabilidade; depois que Deus não faz distinção de pessoas e chama a todos para a sua vinha, isto é, chama a todos para a construção do seu Reino neste mundo; finalmente, que Deus age com o coração, isto é, retribui a cada um não de acordo com o merecimento, mas de acordo com sua misericórdia.

A parábola termina com o versículo 15, mas o evangelista acrescentou o 16: “os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”. Este acréscimo insere a parábola no contexto da nova família de Jesus, a Igreja, que acolhe a revelação do Filho de Deus feito homem para salvar a humanidade. Os judeus foram os primeiros a receber a revelação, mas os cristãos acolheram-na por primeiro. Com a morte e ressurreição de Jesus, são seus discípulos que deverão continuar construindo o Reino neste mundo para participar dele na eternidade. Por isso lemos na segunda leitura: “para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Aqueles que se empenham na construção do Reino sabem que a morte não será o fim, mas o início da vida eterna com Deus.

Para os cristãos de hoje, esta parábola é um apelo para agir com os outros com justiça e misericórdia. Por exemplo, aceitar que quem está desempregado, mesmo trabalhando apenas a “última hora da jornada” receba uma diária, pois ele precisa comprar o pão para si e para os filhos. Aceitar que os pobres possam usufruir dos mesmos meios e recursos tecnológicos da área da saúde quando estiverem doentes. Em âmbito mais restrito da comunidade cristã, divulgar todo bem e todos os elogios ao bem que se faz e não apenas o malfeito. Finalmente, aceitar que Deus é justo e misericordioso com cada filho e cada filha.

Frei Valmir Ramos, OFM