2º Domingo do Tempo Comum: “Eis o Cordeiro de Deus!”

 

Os primeiros discípulos de Jesus eram discípulos de João Batista que, reconhecendo Jesus como Messias, retira-se para dar lugar àquele que veio para salvar a humanidade.

A liturgia nos oferece o início da vida pública de Jesus logo depois de seu batismo. E é o próprio João Batista que indica Jesus como sendo o “Cordeiro de Deus”. Esta expressão tem um significado profundo construído durante a história da religião hebraica e depois pelos cristãos. O ponto de partida é a ideia do cordeiro pascal, que os hebreus escravizados no Egito deveriam sacrificar na celebração da Páscoa que se torna a celebração da libertação do Egito. É pelo sangue do cordeiro que o povo hebreu ganha a libertação. Os cristãos viram em Jesus o verdadeiro Cordeiro que entregou-se até a morte para libertar a humanidade do pecado e da própria morte.

João Batista indicou Jesus aos seus discípulos. Nesta narração, os primeiros a encontrar Jesus são André e João evangelista. Para este o primeiro encontro com Jesus ficou marcado em sua memória e ele diz “era por volta das 4 da tarde”. Eles vivenciaram uma experiência concreta de encontro. Quando perguntaram “Mestre onde moras?”, queriam permanecer com Jesus para escutá-lo.

No Evangelho de João, André é quem chama Pedro para conhecer Jesus que eles já tinham reconhecido como Messias. Ele diz “encontramos o Messias”, o que indica a dimensão comunitária do encontro com Deus. Mesmo sendo encontro personalizado, nunca deixa de referir-se à comunidade. Assim é o chamado de Jesus a todos os seus discípulos. A Pedro Ele constitui o líder dos Apóstolos e primeiro responsável pela Igreja. A cada um dos discípulos e discípulas Ele chama e envia para “pregar a Boa Nova a todas as criaturas”.

Na Carta aos Coríntios, São Paulo deixa bem claro esta compreensão comunitária da Igreja. Ele faz referência a ela como corpo em que todos os discípulos e discípulas de Jesus são membros. Por isso mesmo, nenhum deles é chamado para satisfazer os seus próprios interesses, mas para servir toda a comunidade.

Numa página preciosa do primeiro Livro de Samuel, na primeira leitura ouvimos como Deus chama Samuel para servir o seu povo. A atitude de Samuel é aquela de quem está a serviço. Primeiramente ouve o chamado e corre para apresentar-se a Eli. Depois entende que o chamado não vem de Eli, mas de Deus. Então responde convicto: “fala, que teu servo escuta”.

Hoje Deus continua chamando seus filhos e filhas ao seu serviço. Cada um de nós precisa estar atento a este chamado, pois num mundo dilacerado pelo egoísmo, pela falta de respeito pela vida, pelas injustiças, pela violência, Jesus continua construindo o Reino de Deus através das mãos de seus discípulos e discípulas.

Frei Valmir Ramos, OFM

Festividade do Batismo do Senhor: “Eu vos batizei com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo!”

 

Antes de iniciar a sua missão, Jesus recebe o batismo de João Batista. O evangelista Marcos apresenta João Batista como o “mensageiro” anunciado pelo profeta Isaías que está realizando a sua missão no deserto quando vem Jesus para ser batizado por ele. João Batista sabe da grandeza do Messias e anuncia o batismo no Espírito, que quer dizer o dom dos últimos tempos que virá habitar no coração de cada fiel. Marcos mostra o movimento que acontece no batismo de Jesus: Ele sobe da água e o Espírito desce do céu. A voz de Deus confirma Jesus como o “Filho amado” que é “luz das nações” enviado “para abrir os olhos aos cegos, tirar os cativos da prisão, livrar do cárcere os que vivem nas trevas”, como anunciou o profeta Isaías na primeira leitura.

De fato, com o batismo Jesus inicia a sua vida pública, isto é, a pregação do Reino e a realização da vontade de Deus para libertar o seu povo de toda opressão. Os presos que deveriam ser libertados eram os que tinham dívidas e não tinham dinheiro para pagar. Não eram criminosos, eram pobres que tinham que pagar perdendo a liberdade ou entregar pessoas da família como escravos para saldar dívidas. Jesus cheio do Espírito age para dar vida em abundância às pessoas, combater toda forma de injustiça, de ódio e de violência e para construir o Reino de Deus.

No discurso de São Pedro na segunda leitura vemos como ele anuncia Jesus “ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder”, “que é o Senhor de todos”. E Pedro testemunha que “Deus não faz distinção entre pessoas”, mas “aceita quem o teme e pratica a justiça”. Pedro está atuando naquele período que São Lucas entende como terceiro, isto é, o período da Igreja, no qual os cristãos é que são os responsáveis por continuar o projeto de Jesus. Muitos na Igreja daquele período colocavam em dúvida se os estrangeiros poderiam ser batizados e fazer parte dela. Foi preciso dialogar muito e São Paulo foi a Jerusalém para mostrar também como Jesus Ressuscitado estava agindo no meio dos estrangeiros sem fazer distinção.

Hoje todos os batizados são chamados a continuar a missão de Jesus, pois ainda existe muita injustiça, muita treva, muito ódio e muito sofrimento na vida dos irmãos e irmãs de Jesus. O anúncio na boca de Isaías continua ressoando para os cristãos: “te chamei para a justiça, te tomei pela mão, te constituí luz das nações”. Nenhum cristão pode esconder-se e não irradiar a luz que vem de Deus.

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade da Epifania do Senhor: “Viemos do oriente adorar o Rei!”

 

Acredita-se que inicialmente os “reis magos” vinham da Pérsia e eram um tipo de sacerdotes ou sábios ou astrólogos, observadores dos astros celestes. O texto do profeta Isaías (Is 60,6) fez a tradição enxergar nos “magos” vindos do oriente como “reis”. Eles chegam em Jerusalém e perguntam “onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?”. Não só a presença destas visitas inesperadas causa inquietação, mas principalmente a pergunta pelo rei que acabava de nascer. Herodes, que era o rei, quer saber detalhes porque não admite um sucessor concorrente. Os visitantes captam suas intenções e voltam para casa “seguindo outro caminho”.

Eles foram guiados por uma estrela diz o texto. No Antigo Testamento vemos o anúncio de uma “nova estrela” (cf Nm 24,17) que não seria simplesmente um novo fenômeno astral, mas um “rei”. De fato, encontram um “menino com Maria, sua mãe” e o reconhecem como um Deus. Por isso “se ajoelham diante dele e o adoram”.

Aí está a manifestação de Jesus, que nasceu para salvar todos os filhos e filhas de Deus, sem olhar a qual nação ou raça pertença. O profeta Isaías havia anunciado a glória de Deus sobre Jerusalém como “luz” para todos os povos. Com isso Isaías indica a presença de Deus que manifesta a sua glória naquela cidade onde atrairia povos e reis. Ao mesmo tempo, indica que brilhou a luz não apenas para um grupo seleto, restrito aos mais fervorosos seguidores da Lei, mas a todos os povos, incluindo os considerados “infiéis”.

São Paulo faz ver como de fato o Salvador se manifesta a todos dizendo que “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho”. Este é o ensinamento para todos os cristãos, pois nenhum deles pode ter a pretensão de tomar posse da salvação ou restringi-la ao seu próprio grupo. Com esta compreensão, a tradição cristã fez os três reis aparecerem como raças e cores diversas.

A manifestação de Jesus não se dá com poderio e a partir do centro, mas vem da pequenina cidade de Belém, de onde os poderosos e os doutores não esperavam. A glória de Deus se manifesta então a partir da humilde presença do Salvador como menino recém-nascido e colocado em uma manjedoura. Por isso mesmo, a Igreja, como comunidade missionária, é chamada a anunciar a presença do Salvador entre todos os povos estando do lado dos mais pequeninos e humildes que mais enfrentam as trevas deste mundo.

Frei Valmir Ramos, OFM

4º Domingo do Advento: “Os cristãos são chamados a fazer gerar o salvador onde vivem!”

Maria, jovem de fé, esperava o Messias prometido por Deus através dos profetas. O que ela não esperava é que Deus a escolhesse para ser a mãe do Messias. O evangelista Lucas narra a visita do anjo focando o diálogo com Maria. A cena se desenvolve com o anúncio, a reflexão daquela jovem que fica intrigada, o esclarecimento do modo como o Espírito agiria em prol da salvação de toda a humanidade e finalmente a disponibilidade para gerar o Filho de Deus.

A saudação “alegra-te cheia de graça” faz referência à alegria messiânica que deveria inundar todo o povo de Deus. Um povo que esperava o cumprimento da promessa feita a Davi através do profeta Natan: “suscitarei, depois de ti, um filho teu, e confirmarei a sua realeza. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho”. A jovem Maria é noiva de José descendente de Davi. O filho prometido será rei e “reinará para sempre” diz o profeta Natan.

“Eis aqui a serva do Senhor, faça em mim segundo a tua Palavra”. Esta resposta de Maria diante do grande mistério é sinal de sua profunda confiança em Deus que não abandona o seu povo. A jovem não vê claramente como será a ação de Deus, mas oferece sua disponibilidade para que a Palavra dEle seja realizada. A abertura de Maria faz com que ela inicie sua participação no plano de Deus para salvar a humanidade. Ela torna-se a mãe do Messias, do Salvador, o faz presente na história dos filhos e filhas de Deus.

Os cristãos de hoje são chamados a fazer gerar o Salvador no mundo em que vivem. Certamente o Salvador não nascerá como nasceu em Belém, pois agora Ele está vivo e presente no meio do seu povo. Mas, como as pessoas se dobram diante dos ídolos deste mundo, é necessário ainda gerar o Salvador. São Francisco de Assis viu bem esta necessidade e convidou todos os fiéis a serem também mães do Salvador “trazendo-o no coração e no corpo através do amor divino e da consciência pura e sincera; dando-o à luz por santas ações que devem brilhar como exemplo para os outros” (1CtFi).

Maria é o exemplo do verdadeiro carisma, isto é, dom de Deus para o bem de toda a comunidade. A Igreja pode espelhar-se nela para servir a humanidade hoje tão necessitada de um leme e de luzes dos verdadeiros valores.

Frei Valmir Ramos, OFM

3º Domingo do Advento: “Somos chamados a preparar a vinda do Senhor!”

O evangelista João identifica Jesus como “luz do mundo”. A luz que brilha nas trevas da humanidade, luz que ilumina cada filho e filha de Deus. João Batista é então a “testemunha” da luz. Na carta aos Efésios, São Paulo afirma que Cristo é a luz “que brilhou sobre nós” (Ef 5,14), por isso ele pede aos Tessalonicenses que vivam como “filhos da luz” (1Ts 5,5).

É neste contexto que a liturgia deste Domingo interpela os cristãos a esperar vigilantes a vinda do Senhor que brilhará no mundo e “fará brotar a justiça e a sua glória diante de todas as nações” (Is 61,11). Na primeira leitura vemos o profeta anunciando aquele que viria “para dar a boa notícia aos humildes, curar as feridas da alma, libertar os cativos, proclamar o tempo da graça do Senhor”. Este anúncio se concretiza com o nascimento de Jesus que no início de sua pregação usa este texto para revelar-se como o libertador enviado por Deus (Lc 4,16-20). Este é motivo pelo qual o apóstolo pede aos tessalonicenses: “irmãos estais sempre alegres… não apagueis o Espírito”. A presença do Salvador deve transformar a vida dos cristãos em alegria profunda, contagiosa, que é capaz de reavivar sempre a esperança.

João Batista prepara e anuncia a chegada do Salvador, luz do mundo, com humildade e firmeza. No texto do Evangelho vemos como João Batista responde com palavras claras que ele não é o Messias, mas apenas aquele que prepara a sua vinda e o apresenta ao seu povo. O profeta não tem pretensões de ser o primeiro, de ser protagonista, de aparecer diante do povo. Ao contrário, ele quer desaparecer para que brilhe o Filho de Deus.

Hoje todos somos chamados a viver como quem prepara a vinda do Senhor. Isto implica um comportamento de humildade, sem ambiguidades, como seguidores de Jesus que nasce na pobreza, na humildade e na pequenez humana. João Batista diz que “não é digno de desamarrar as correias de suas sandálias” o que significa reconhecer humildemente sua pequenez e não colocar-se no lugar no Messias. Nenhum cristão, nem a Igreja, pode pretender assumir o lugar de Cristo. Todos somos chamados ao seu seguimento e a testemunhar com alegria, fé e obras a sua presença no mundo.

Frei Valmir Ramos, OFM

2º Domingo do Advento: “É tempo de viver e implantar a justiça de Deus!”

O evangelista Marcos inicia seu escrito definindo quem é Jesus: é “o Cristo, o Filho de Deus”. Para ele é importante começar dizendo que aquele menino nascido em Belém, crescido na Galileia, que recebeu o nome de Jesus, é o Salvador e não há outro. Imediatamente após este anúncio aparece João Batista realizando a sua missão, isto é, preparar os caminhos do Senhor. De acordo com o evangelista, João Batista era aquele mensageiro anunciado pelo profeta Isaías, na primeira leitura, quando dizia: “Eis o vosso Deus! Eis que o Senhor Deus vem com poder… como um pastor ele apascenta o seu rebanho… carrega os cordeirinhos no colo e tange docilmente as ovelhas-mães”.

João Batista realiza o batismo de conversão, quer dizer, ele acolhe as pessoas que buscam a misericórdia de Deus e mudam sua conduta. No batismo dele a água é o elemento de purificação de cada batizado. Mas, João anuncia um outro batismo que será feito por aquele que veio para salvar a humanidade. João mesmo diz que é alguém forte, que ele nem é digno de se “abaixar para desamarrar suas sandálias”. E ainda anuncia que este alguém batizará com o Espírito Santo. Isto significa que João Batista anuncia que o Salvador já está no meio do seu povo e que é tempo de viver e implantar a justiça de Deus. Daí a necessidade de conversão dos pecados.
Com a chegada de Jesus chegou também um novo tempo. Deus veio morar no meio do seu povo. Por isso é que vemos São Pedro escrevendo às comunidades da Igreja sobre o dia do Senhor. Num primeiro momento parece que ele fala do fim do mundo. No entanto, quando ele escreve sobre “um novo céu e uma nova terra onde habitará a justiça” ele se refere ao Reino de Deus implantado já neste mundo. A destruição mencionada é referência ao que os reinos daquele tempo faziam quando guerreavam, saqueando, matando as pessoas e destruindo com fogo as casas e templos.
Para os nossos dias é preciso levar em conta que o Menino Jesus nasceu longe do centro, onde reinava o poder e acumulava riqueza. Ele nasce pobre, vive no deserto e anuncia a salvação pela prática da justiça do Reino de Deus. O apelo dos profetas Isaías e João Batista é de preparar a chegado do Salvador corrigindo o que não agrada a Deus.

Frei Valmir Ramos, OFM

1º Domingo do Advento: “Jesus vem morar no meio da humanidade!”

Jesus que vem morar no meio da humanidade pede “ficai atentos”. No Evangelho deste Domingo, Marcos evangelista usa a palavra grega “kairós” que é traduzida por “momento”. A abrangência do termo “kairós” vai além do seu significado literal. Os cristãos usam este termo para indicar o “tempo de Deus”, que não é cronológico, pois não pode ser medido. É o tempo da salvação de Deus. O pedido de Jesus para ficar atentos é para todos, pois todos precisam empenhar-se em “praticar a justiça com alegria”, como vemos na 1ª leitura. O profeta mostra como o povo queria colocar a culpa em Deus pelos sofrimentos, mas, de fato a culpa é daqueles que deixaram de observar a vontade de Deus e se tornaram malvados. A imagem do oleiro é forte e contém o pedido a Deus de “refazer” os seus filhos e filhas.

O tempo do Advento é uma oportunidade para todos os cristãos refletirem sobre o mistério da vinda de Jesus. Ele veio em um momento histórico, em um tempo determinado, quando Herodes era rei, e nasceu como um menino em lugar determinado. O motivo de sua vinda só pode ser encontrado no grande amor de Deus por seus filhos e filhas, como vemos na 1ª primeira leitura. O profeta reconhece as infidelidades dos humanos, mas, mesmo assim anseia pela vinda de Deus: “Ah, se rompesses os céus e descesses!” Concluímos que é pelo amor infinito de Deus que Jesus nasceu entre nós e deu início ao tempo de salvação.

Hoje os cristãos são chamados a preparar um Natal com empenho renovado na vivência da justiça de Deus. É bom lembrarmos que Deus olha por todos os filhos e filhas com os mesmos olhos de amor. Com estes olhos os cristãos são chamados a reconhecer os “sinais dos tempos” que indicam a necessidade de empenho junto aos mais pobres e sofredores. As injustiças presentes no mundo ameaçam a vida e geram um grito de dor dos filhos e filhas que sofrem em nossos dias. A “vigilância” que pede Jesus nos faz estar atentos para cumprir a missão de cada um que Ele mesmo confiou. A espera pela sua vinda nos faz sair do comodismo e da indiferença.

Sem deixar-se contaminar pelo poder do consumismo intensificado neste período, os cristãos são chamados então a celebrar o tempo de salvação e não apenas festejar uma data. O empenho alegre com a justiça será essencial par manter a comunhão com Jesus Cristo sendo fiel a Deus como sugere São Paulo na 2ª leitura.

Frei Valmir Ramos, OFM

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo: “A humilde realeza de Jesus Cristo que contrasta com as realezas deste mundo!”

Com este texto o Evangelista Mateus encerra o ensinamento de Jesus iniciado no capítulo 5. Todo ensinamento de Jesus gira em torno da vida eterna, quer dizer uma vida que não é apenas futuro, mas também presente. Por isso Jesus conta a parábola do Filho do Homem, o rei que, sentado em seu trono, julga os que foram solidários, deram vida, e os que se omitiram e foram indiferentes diante das ameaças à vida.

No último Domingo do Tempo Comum celebramos a humilde realeza de Jesus Cristo, que contrasta com as realezas deste mundo por colocar-se a serviço da vida e não na busca de domínio e de poder temporal. Jesus é um rei que serve o seu povo. O serviço aos irmãos levado ao extremo até a morte de cruz foi sua missão. Contudo, não ficou morto, mas venceu até o último inimigo que é a morte como vemos na 2ª leitura da primeira carta de São Paulo aos Coríntios. Ele ressuscitou para que todos os filhos e filhas do Pai ressuscitassem com Ele.

A primeira leitura revela que Deus é como o pastor que cuida bem de suas ovelhas, vai atrás daquelas sumidas, daquelas doentes, das mais frágeis, sem descuidar das mais fortes. A imagem é bonita de um compromisso que Deus tem para com o seu povo.

Jesus é o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas. E a vida é o que Ele tem de mais precioso. No entanto, Ele não volta atrás diante das ameaças, pois é um rei bem diferente dos reis deste mundo. Os povos que se organizam em nações constituem os seus reis que, normalmente são poderosos e desfrutam de poder e riquezas quase sempre ilícitas e injustas. São reis que oprimem o povo e desrespeitam a vida.

O ensinamento de Jesus, porém, indica aos cristãos a necessidade de empenhar-se como Ele se empenhou pelos irmãos mais pequeninos, quer dizer os sofredores. No Evangelho ela fala dos que passam fome, sede, dos migrantes, dos sem agasalho, dos doentes, dos presos por dívidas ou escravizados. Na prática são os que mais tem a vida ameaçada por falta de alimento, de água, de agasalho, de segurança, de remédios, de recursos para sobreviver e, normalmente são os mais explorados por outros com mais recursos. Então são como as ovelhas mais frágeis de um rebanho que mais precisam de cuidados.

Jesus ressuscitado transmite aos cristãos a missão de cuidar para que todos estes mais frágeis tenham vida. Este ensinamento não foi apenas para os ouvintes de Jesus, mas ecoa para todos os seus seguidores que não podem ficar indiferentes enquanto Jesus mesmo sofre nos mais sofredores, doentes, marginalizados, discriminados e perseguidos. É preciso colocar-se a serviço da vida transitória para participar da vida eterna que começa aqui. Este é o único critério para todas as nações, sem falar de religiões, para o julgamento final.

Frei Valmir Ramos, OFM

33º Domingo do Tempo Comum: “Ser sóbrios na fé significa não permitir que a verdade do Evangelho seja ofuscada!”

 

A parábola do Evangelho está no contexto do anúncio da realização plena do Reino de Deus com a vinda gloriosa de Jesus. Reflete o momento em que a comunidade cristã esperava a segunda vinda de Jesus, a chamada “parusia”. Como sabemos, a parábola é um recurso para transmitir um ensinamento. Jesus usa termos conhecidos, porém o significado vai muito além do que parecia.

A ausência física daquele homem que viajou pode ser entendida como a ausência física de Jesus mesmo que permanece sempre com seus discípulos de outro modo. Os discípulos são convidados a “não dormir” mas serem “sóbrios” porque chegará o “dia do Senhor”, como vemos o alerta à comunidade de Tessalônica na 2ª leitura. Isto significa vivenciar a fé ativamente, mesmo dormindo as horas necessárias para o descanso cotidiano. Ser sóbrio na fé significa não permitir que a verdade do Evangelho seja ofuscada por doutrinas ou ideologias.

O talento era uma moeda de grande valor e é usado no Evangelho para indicar os “dons” recebidos de Deus. Na parábola os “servos” indicam os cristãos que devem fazer o Reino de Deus frutificar. Por isso, a “administração” significa ter uma participação ativa na construção do Reino de Deus. Isto é cobrado de cada seguidor de Jesus. Aquele “servo” que enterrou o talento agiu como se a fé fosse algo a ser guardada num cofre e reservada para si de modo egoísta. Jesus então ensina que a fé é vida que se manifesta nas ações concretas de amor para com os outros. Isto é multiplicar os dons.

Na 1ª leitura temos o louvor à mulher que, além de trabalhar, “estende a mão ao pobre e ajuda o indigente”, “que teme a Deus”. Esta mulher é aquela que multiplica os talentos. Aí o livro da Sabedoria, escrito numa sociedade machista, reconhece a grande dignidade da mulher os olhos de Deus.

Hoje todos nós cristãos somos chamados a vivenciar nossa fé de modo que o Evangelho continue brilhando no mundo: “vocês são filhos da luz, filhos do dia” diz São Paulo na 2ª leitura. De fato, o amor verdadeiro vivenciado em as ações concretas e corajosas dos cristãos mostram a presença viva de Jesus no mundo. Além disso revela a verdade sobre Deus que é Amor e não castigo e severidade de quem os filhos e filhas devem ter medo.

Frei Valmir Ramos, OFM

32º Domingo do Tempo Comum: “O pedido de Jesus é que toda a comunidade esteja vigilante!”

 

No ensinamento de Jesus através da parábola vemos a utilização simples do costume daquele povo na época: na noite antes do casamento o noivo ia até a casa da família da noiva com seus amigos “padrinhos”. Lá era recebido pela noiva com suas damas “madrinhas”. O evangelista escreve a partir do contexto da Igreja primitiva que esperava a secunda vinda de Jesus glorioso. Então os que tinham sido fiéis à sua Palavra entrariam com Ele no Reino, aqui simbolizado pelas “núpcias eternas”. Como podemos ver, na parábola não aparece a noiva, que pode ser entendida de imediato como a própria comunidade eclesial. Na 2ª leitura vemos a carta endereçada à comunidade de Tessalônica que reaviva a esperança na ressurreição, que no Evangelho é simbolizada pelas núpcias do banquete eterno.

O pedido de Jesus é que toda a comunidade esteja vigilante. Significa pedir que esteja vivenciando na prática o ser cristão e não apenas dizer-se cristão. Podemos então entender que as virgens prudentes são semelhantes àquele homem prudente, sábio, sensato, que construiu a sua casa sobre a rocha, como diz Jesus em Mt 7,24: “quem ouve estas minhas palavras e as pões em prática é como o homem sensato”. Significa alguém que usa a sabedoria que vem de Deus, que é o próprio Deus, como vemos na 1ª leitura, para viver com Ele e agir de acordo com a sua vontade.

As virgens prudentes são pessoas que pensam em Jesus dia e noite e querem participar de sua vida mantendo-se unidas a Ele. Isto significa manter acesa a luz de sua Palavra e ter atitude que condiz com o nome de cristão. Ter o nome e agir de modo contrário ao Evangelho é arriscar ouvir uma resposta dura: “na verdade eu não vos conheço”.

Para a nossa comunidade cristã de hoje, o Evangelho faz o apelo para não descuidar da “luz do mundo” que ilumina o caminho da humanidade na direção da vida, da paz, da harmonia entre as pessoas e entre as nações. Ao mesmo tempo interpela os cristãos a uma atitude coerente com o Evangelho agindo em prol dos sofredores nos quais Jesus continua sofrendo a sua paixão. Tudo isso significa manter-se unidos a Jesus, esposo da Igreja, amigo dos pobres, marginalizados e sofredores, para ser reconhecidos por Ele nas núpcias do banquete eterno.

Frei Valmir Ramos, OFM