Tocar as feridas de Cristo

Imagem Ilustrativa (Fonte): Catholic Pictures

Somos homens e mulheres que, no universo da fé, convivemos com o Ressuscitado. Essa certeza dá alento ao viver da Igreja e à nossa passagem por essa terra dos homens. Orações, devoções, ladainhas foram e são muitas vezes voltadas para as feridas de Jesus, mormente àquela de seu coração. Sempre se considerou que através da ferida do coração se revelava o mais íntimo de seu Mistério. Foram dolorosíssimas as feridas do corpo do Senhor!

Tentemos refletir sobre estas linhas de Tomás Halík: “De que consiste a dor verdadeira, o fardo e a escuridão da cruz? Não são as torturas físicas, nas quais o senso piedoso se deleitava tanto, não é nem mesmo a própria morte física. É algo diferente, mais profundo, algo que provoca terror ainda maior. Tocar as feridas de Cristo, não só as feridas de suas mãos e seus pés, que testificam o sofrimento físico, mas também a ferida do lado, que atingiu o coração, significa tocar a escuridão da qual testemunha o grito do homem completamente abandonado por Deus. A ferida até o coração é aquilo que se expressa na palavra de Jesus, aquela que um único evangelista teve a coragem de documentar: Meu Deus, por que me abandonaste?”. (Toque as feridas, Vozes, p.43).

Por vezes, costuma-se atenuar o peso dessas palavras dizendo que se trata de uma citação do salmo 21(22) que termina com uma nota de vitória, marcada por otimismo. Halík afirma que nesse grito vislumbramos a escuridão daquele momento a respeito do qual o credo apostólico afirma que ele desceu à mansão dos mortos. “Nesse momento sua fé foi crucificada e traspassada, sua unidade com o Pai; nesse momento “Deus morreu” para ele e nele. Jesus tomou sobre si não só a morte humana, mas também a morte de Deus” (op.cit, p. 44).

Reconciliador, Salvador, é aquele que veio unir o que estava separado pelo pecado. “Solidarização” com os pecadores, tendo em vista unir os que estavam separados. Já no seu batismo, Cristo havia se colocado na fileira dos pecadores que iam se dirigindo rumo ao Jordão. “Este é meu Filho Amado: escutai-o”. Através de gestos e palavras, Ele vai tentar colocar as bases de um mundo de harmonia entre nós, homens, e entre estes e o Pai. Ele se fez pecado para unir o que estava separado. Na cruz morre o Filho do Altíssimo e o pecado do homem.

Momento de escuridão para Jesus. Penso no condenado à morte, mal ou bem culpado, penso nas torturas infringidas a uma mãe quando um filho drogado quer saber onde está o anel de ouro, penso nessas crianças violentadas.

Meu Deus, porque me abandonaste?

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Será que traímos o Senhor?

Imagem Ilustrativa (Fonte): El Greco, Cristo Crucificado (Wikipedia – Domínio Público)

Não cessamos de contemplar o lado aberto no peito de Jesus. Seu imenso coração e o sangue derramado estão sempre diante de nosso eu mais profundo, ou deveriam estar. Incansáveis vezes tivemos a certeza de sermos amados e a vontade de amar esse Senhor do peito dilacerado.

Convivemos, no entanto, com nossas contradições. Paulo já nos alertava da dupla lei. Querer o bem e fazer o mal. Somos contradições ambulantes. Embrenhamo-nos em situações às quais somos arrastados por movimentos violentos de paixão ou buscamos compensações que podem ferir outros. Desesperarmo-nos? Será que traímos irremediavelmente o Senhor? Será que foi uma traição pensada? Existe uma fonte de misericórdia?

Nos últimos tempos, por diferentes razões, tem-se a impressão que Deus foi banido do universo dos interesses dos humanos. Algumas vezes temos a impressão que o problema de Deus é página virada. Mesmo quando se colocam ritos, pronunciam-se rezas, esse amor de Deus manifestado em Cristo Jesus não toca o projeto de vida da pessoas. Um solene indiferentismo. Faltam visitas ao mistério de cada um onde ressoam desejos diferentes da busca novos método de desempenho sexual, preocupações com a bolsa de valores e nosso eu massageado. Pessoas alheias aos seu mistério pessoal.

Seguindo a sabedoria do Evangelho, o mais humilde movimento do coração tem muito mais peso que as manchas que escapam das paixões que torturam, paixões às quais não nos engajamos de coração, mas que acontecem devido à nossa fragilidade congênita, claro, com nosso consentimento. Há esse sangue de Deus que ensopou a terra. A ele podemos recorrer. A orientação fundamental de nossa vida é conviver com o Senhor, é criar espaços de dom, de solidariedade, de amizade. Isto, certamente tem mais peso do que certas lembranças que nos torturam quando o tempo vai passando e a noite da vida descendo.

Contrição, coração doído, arrependimento sincero. Cantilena constante e suave do Miserere, esperando na fé, o bafejo do amor de Deus. O coração contrito parece ser a única brecha pela qual pode entrar a graça de Deus.

“O prioritário hoje não é transmitir uma doutrina, pregar uma moral ou sustentar uma prática religiosa, mas tornar possível a experiência originária dos primeiros discípulos que acolheram o Filho de Deus vivo encarnado em Jesus como caminho de salvação. Quando não se reproduz a renovação continua dessa experiência continua a pregação passa a repetir a doutrina, a ação pastoral continua o rito religioso, a experiência mística original de onde nasce a fé cristã em Deus desaparece e se dilui( Pagola).

Consequência: ficam os relatos das faltas e pecados sem o coração contrito. Será que traímos de fato o Senhor? Que portas ser-nos-ão abertas?

Não é tempo perdido fixar detidamente nosso olhar no Coração de Jesus. É puro lucro.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Que não seja inútil esse sangue derramado!

Imagem Ilustrativa (Fonte): Catholic Pictures

Bernard Clavel, pensador francês muito apreciado, que  muito escreveu  na segunda metade do século passado, respondeu assim a uma pergunta de um entrevistador: “Quem é Cristo para você?”

“Sem dúvida somente escrevendo um livro inteiro é que um escritor deveria responder esta questão. A tentação é forte, diante desta figura luminosa que é, sem dúvida, o  mais belo personagem com qual se possa sonhar. A mais bela aventura desta vida, marcada por caminhadas, descobertas, criatividade e alegria e a aceitação de imensa dor.

Como me sinto indigno de escrever um livro sobre ele, talvez possa responder com uma ou poucas palavras. Quais?

Homem, Irmão, Deus?

Para mim que nada faço sem voltar o olhar para minha infância,  Jesus é antes de tudo o recém-nascido no presépio. Quer dizer a estrela mais  cintilante  despontada de repente  na noite mais obscura,  no inverno mais frio, na miséria mais escura.

É a esperança.

É prova de que nem tudo é definitivamente mergulhado nas trevas.

Jesus é uma palavra que iluminava o olhar de minha mãe  quando ela o pronunciava e se debruçava sobre mim, sem dúvida porque ela desejava que um pouco da pureza do menino de Belém se encontrasse em mim.

Filho de todas as mães , ele é ao mesmo tempo o que elas  mais  esperam e receiam já que ele se  encaminha  para o calvário, palco de seu suplício e de sua ressurreição.

É um personagem que atravessa um caminho ladeado de  espinhos, mas que semeia caridade, justiça e amor.

É um olhar, ao qual o pecador que sou pede força para lutar. Ele é o olhar que eu gostaria de ter  diante de mim no último instante.

É aquele que sofreu para que descobríssemos  a luz refletida em suas lágrimas e gostas de sangue.

Ajuda a carregar nosso sofrimento e nos ensina a partilhar nossa alegria.

Como vêm nada mais faço do que repetir o  que outros já disseram, certamente cem vezes melhor.

Ele está presente.

Ele não nos pede que pintemos seu retrato, mas que lutemos para que ninguém  possa experimentar o sentimento que seu sacrifício foi inútil.

Que não seja inútil esse sangue derramado.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Uma ferida de amor

Imagem Ilustrativa (Fonte): Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Lá vai ela, a vida, lá vai ela passando, sem pedir  nossa anuência, Ela nos carrega no seu bojo. Eu e a vida. A vida em mim. Passamos,  como ela passa.  Deixamos traços e marcas nas areias dos tempos que percorremos, ao longo das estações que nos metamorfoseiam. Lágrimas que vertemos, sorrisos que iluminaram nossos rostos, braços que nos seguraram, palavras carinhosas que foram sussurradas aos nossos ouvidos, dores e arrependimentos.  Tudo faz parte de nossa vida.

Nas voltas e esquinas da caminhada andamos tentando  colocar-nos à escuta de uma Voz que vinha lá de dentro de nós ou de alhures. Uma Voz que falava sem palavras.  Andamos querendo ser do Mistério. Quisemos ou queremos que o Senhor  possa marcar nossos dias, colorir nossos sonhos, dar-nos a mão para viver.  Continuamos a buscá-lo sentando-nos  num canto da sala, estirados na grama, folheando as páginas dos evangelhos. Queremos que ele, esse do Coração aberto,  nos persiga. Ou  que nunca deixemos de andar à sua procura.

Quem é esse  Altíssimo e Bom Senhor? Deus em Jesus se tornou um recém-nascido deitado numa manjedoura, um pequerrucho de olhos fechados, chorando, pedindo o peito da mãe, incomodado por ter deixado o ninho quente onde estava antes.  Um Deus que, aos poucos, abre os olhos, vê pessoas à sua volta, que aprende a sorrir, que se encanta com uma bola em seu berço. Um Deus tão pertinho. Deus num recém-nascido.

Fomos entendendo que Deus quis ser nosso companheiro de estrada e que em Jesus  andou  mostrando  um pouco do seu Mistério. Não falou  tanto de onipotência e de poder, mas de coisas mais simples, uma presença próxima.  Querendo estar perto,  sempre mais perto.  Misturando sua vida com  nossa vida.  Colorindo nossos dias.

Aos poucos, seus gestos e suas falas, suas posturas e suas revoltas, seu olhar e seus gestos  foram nos encantando.  Em Jesus,  Deus se tornou próximo de nós e foi dando viço  à nossa vida e andamos e continuamos a contemplar um  Deus que ama. Francisco de Assis  se extasiava diante do  Menino das Palhas: “Quero evocar a lembrança do Menino que nasceu em Belém e todos os incômodos  que sofreu desde a sua infância;  quero vê-lo tal qual era deitado numa manjedoura  e dormindo sobre o feno entre um boi e um burro” (2Celano 84).

Um dia, bem mais tarde, elevado  entre o céu e a terra, já tendo dado a vida ,  Jesus teve o lado, seu peito aberto. O Menino das  Palhas, no alto a cruz,  haveria de ter uma fenda no Coração.  Uma ferida de amor.

Frei  Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

“Sem sede, somos dominados pela apatia”

Imagem Ilustrativa (Fonte): Museu de Arte Sacra da Bahia

Sim, somos seres de desejo. Não podemos não ser seres de desejo. Às vezes damos a impressão de termos dessedentados não nossa sede de água, mas a de viver densamente. Na verdade nada está pronto, tudo está inacabado, precisa ser retomado. Em muitos momentos irrompe dentro de nós a certeza do amor do Senhor. Por vezes, quando nos sentimos meio paralisados interiormente, relemos a Paixão de Jesus e agarramo-nos nos braços do discípulos de Emaús até o momento em que eles entraram na estalagem e o Senhor partiu o pão. Ora, cada primeira sexta-feira do mês, para nós, é uma chamada, um despertar: “Vejam se existe um amor igual ao meu”, nos diz o Senhor.

Esta reflexão se baseia em José Tolentino Mendonça (Elogio da Sede, p. 55-57). Sede de descobrir mais densamente o Deus que se revela no olhar, nos gestos, nos silêncios, nas parábolas, nas reações de Jesus. Não ficar apenas na religião do Creio em Deus Pai todo poderoso… Sede de vislumbrar meios e modos de esvaziar-nos de nossos pequenos interesses. Sede de saber a razão pela qual fomos inventados e quais as trilhas mais acertadas a serem percorridas para satisfazer essa urgência de amar e ser amado. Sede de viver para… Não podemos ser dominados pela apatia.

A contemplação do peito aberto do Senhor deve nos curar de certo tipo de depressão. Kierkegaard escreve em seu diário: “Estranha inquietação essa que me aprisiona. Parece que a vida que vivo não seja a minha, mas corresponda ponto por ponto a uma outra pessoa sem que eu possa fazer o que quer que seja para impedi-lo… Não tenho vontade de nada. Não me apetece caminhar, pois isso cansa-me; não me apetece deitar-me porque ou deverei passar muito tempo deitado e não me convém; ou levantar-me depressa e isso aborrece-me; e nem pensar em cavalgar, é um exercício duro demais para minha apatia”.

“Quando desistimos de desejar, de achar sabor nos encontros, nas conversas partilhadas, nas trocas, na saída de nós mesmos, nos projetos, na própria oração. Quando diminui a nossa curiosidade pelo outro, a nossa abertura ao inédito e tudo nos soa um requentado déjà-vu que advertimos como um peso inútil, incongruente e absurdo que nos esmaga. Parece então que passamos a viver com uma tabuleta na frente que diz: “Não estou, ou não quero estar, ou não consigo estar com ninguém”.

Jesus, no alto da cruz, teve sede. Sede de água. Sede da atenção cordial das pessoas. Que nos tenhamos sede dos borbotões de vida que jorram do mais belos dos homens e que esta água nos arranque da apatia.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Sem lágrimas endurecemos o coração

Imagem (Fonte): Piero Casentini

Os evangelhos nos falam de três momentos em que Jesus chorou: diante do empedernimento de Jerusalém, junto ao túmulo de Lázaro e no Jardim das Oliveiras. Deus chora pelas lágrimas de Jesus. Nos três casos estamos diante de lágrimas que exprimem uma dor interior muito forte. Há muitas lágrimas que são sinais de dor e outras que expressam um grato acontecimento ou um agradável surpresa. Estas são lágrimas de alegria. Francisco de Assis chora diante do amor do Senhor na cruz e lamenta aos prantos por todos os cantos: “O amor não é amado”.

Um autor diz que Deus recolhe nossas lágrimas e as junta ao seu coração. Quantas lágrimas em toda a face da terra: nos leitos dos hospitais, nos cárceres e nos asilos de idosos, nas salas de espera de médicos e nos campos de guerra. Lágrimas, tristezas, dores lancinantes e outras menos violentas mas que não passam. Casamentos desfeitos, seres em depressão, crianças violentadas, lágrimas. Quem as verá e quem poderá enxugá-las?

“De todas as expressões da emoção humana no léxico da vida, chorar pode ser a mais funcional, a mais profundamente versátil. As lágrimas que choramos nos mostram nossos selves (eu) mais profundos, necessitados e íntimos. Nossas lágrimas nos expõem. Nos desnudam tanto para os outros quanto para nós mesmos. O que nos faz chorar é aquilo com que nos importamos. As coisas para as quais não temos lágrimas endurecem o coração” (Joan Chittister).

Lágrimas de Jesus, nossas lágrimas. Há momentos em nossa vida em que tomamos consciência de um conjunto de ações e de um pano de fundo de vida tal em que ignoramos a proximidade do Senhor. Fizemos de conta que não ouvíamos os seus passos. Buscamos nossos caminhos ao nosso jeito. Essa consciência de estarmos desperdiçando o tempo da vida, a dor de termos deixado de lado os jogados à beira da estrada sem um carinho, sem lhes dar um pedaço do tempo de nossa vida, a ingratidão para com Aquele que sempre dizia nos amar pode e deve nos levar ao arrependimento a ao pranto. Benditas lágrimas. Nossa vida pode, então, ser um perpétuo “molhado” e belo ato de contrição. As lágrimas limpam os nossos olhos e passamos a enxergar.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

O Coração, lugar de mistério e comunicação

Imagem ilustrativa (Fonte): Catholic Pictures (https://www.cathopic.com/)

As reflexões das primeiras sextas-feiras de cada mês sempre nos reconduzem ao mistério de Cristo Jesus. Como é bom pensar nele, partilhar a vida com ele, deixar que sua Palavra nos ensope e que seu Pão nos nutra, olhar o mundo a partir de seu jeito de olhar e, sobretudo, nunca perder o senso de assombro diante de seu Coração aberto. O nosso coração se encanta com seu Coração.

O coração humano é, ao mesmo tempo, centro pessoal e espaço de Presença, lugar de mistério e de comunicação. Entrar em nosso coração, uma interioridade habitada, significa fazer espaço para um Alguém, esse Outro. Entrar no coração é penetrar no santuário do relacionamento e da intimidade amorosa com a Alteridade mais radical, com sua vida que se derrama em nossas entranhas e em todo o nosso ser.

“Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Esse encontro, esse olhar, essa palavra silenciosa dita ao coração, transforma-nos radicalmente. A interioridade se torna um acontecimento da graça. Um autor afirma: quem está nessa dimensão do interior pode perfurar a realidade, as coisas, as pessoas, os relacionamentos tal como Deus os vê. Os que sabem viver escondidamente sob o olhar do Pai a todos têm como irmãos.

Esse penetrar no mais profundo não acontece com o mera ação de nossas potencialidades. Nem se trata de querer alcançar um especialmente elevado nível de consciência. Depende de abrir caminho. Não pensar-se a si mesmo como merecedor de favores. Sem atos de humildade mentirosos; é questão de ser ter consciência diante de Deus de nossa situação de mendicância. Mendigos, no entanto, com seu mistério pessoal visitado pela graça. Mendigos amados pelo Senhor.

Convém lembrar que esse movimento de interioridade é inseparável da saída, saída pelos caminhos, tendo nos olhos o brilho das visitas do Amado. Sair, sair em missão e para a missão. Isto se torna urgente quando o apelo vem do Coração e atinge nosso coração. Um autor diz que Jesus vive por dentro e por fora. Não somos seres fechados numa interioridade narcisista. Os homens que deixam seu interior ser visitado pelo amor são os melhores missionários.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

Viemos do amor e para o amor nos dirigimos

Fonte (Imagem): El Greco (Wikimedia Commons)

Quando tentamos compreender a Deus (compreender o incompreensível!), vemo-lo como fonte de todo o ser e, ao mesmo tempo, aquele que ama com paixão. Bento XVI, na Deus caritas est, quando começa a dissertar sobre o Mistério de Deus escreve: “…por um lado, nos encontramos diante de uma imagem estritamente metafísica de Deus: Deus é absolutamente a fonte originária de todo ser; mas esse princípio criador de todas as coisas, o Logos, a razão primordial – e, ao mesmo tempo um amante com toda paixão de um verdadeiro amor” (Deus caritas est, n.10).

Somos buscadores do Mistério, peregrinos do Altíssimo, gente que tem perguntas a arder no peito. Triste quando acabam as perguntas que queimam a garganta e ficam apenas respostas secas, frias e mortas, sempre soluções do momento, provisórias. E a gente se acostuma com as respostas que se coloca em caixinhas fechadas. Não há mais surpresas. O problema da religião está resolvido. Não se fala mais. Vai assim e pronto.

Os homens e mulheres de todos os tempos sempre sentiram saudade de Deus. As Escrituras falam dessa presença do Deus amor. Oseias nos leva para o deserto, somos a esposa que o Esposo atrai. Ele quer falar ao nosso interior. Núpcias de amor. E amam os que fazem delicadamente a sua vontade. Buscar a Deus, viver com Deus é escrever a dois e a muitos uma história de amor.

“Como te abandonarei, ó Efraim? Entregar-te-ei, ó Israel? O meu coração dá voltas dentro de mim, comove-se a minha compaixão. Não desafogarei o furor de minha cólera, não destruirei Efraim; porque sou Deus e não um ser humano, sou o santo no meio de ti” (Os 11, 8-9).

Viemos do amor e para o amor nos dirigimos. O Deus belo que procuramos no silêncio das grutas, na límpida e persistente leitura das Escrituras, o Deus que resolveu ter carne, ser gente, beber de nossas fontes e sonhar nossos sonhos, nasce e é colocado numa estrebaria. Vive falando do Pai, falando com amor sem controle. Morre na cruz. Que mais poderia ter feito? Quer saber a razão de uma certa e grande indiferença de nossa parte.

O segredo de uma vida profundamente feliz só é possível quando se consegue entabular um diálogo com aquele cujo coração dá voltas dentro do peito.

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

O Senhor não está nas grandiloquências

Imagem: A gruta do presépio em Greccio

Sempre de novo Cristo, Cristo Jesus, o Verbo feito carne, a imagem de Deus, aquele que entrega sua vida para a vida do mundo, a encarnação da bondade, que tem o peito tocado pela lança do soldado que abre uma fresta no seu íntimo mais íntimo. Aquele que queremos seguir.

Deus… muitas vezes o imaginamos em termos de grandeza. Ele é infinito, onipotente, omnisciente, aquele que controla os passos e volteios do homem. Quando lemos o episódio de Elias na gruta do Horeb vemos o contrário. O Senhor não está no vento impetuoso, no terremoto, mas na brisa suave. Certamente, ele é o inefável, o infalível, o portentoso, o criador, mas aparece diante de nós, em Cristo Jesus, sem grandiloquências e para Francisco de Assis um Deus que fez belamente pobre. Vamos ver como David de Azevedo (São Francisco, Fé e Vida, Ed. Franciscana de Braga, p. 74-65) encara o tema:

“Há uma alteza mais sublime na nobreza da alma, do que na imponência de um imperador rodeado de fausto e de cortesãos. A glória da verdade está em sua nudez indefesa. Quando a pretexto de defender a verdade, se faz recurso à propaganda, à pressão e à força – venha de onde vier – do medo, do prestigio, do dinheiro -, a verdade perdeu a sua glória. A glória que era dela, só dela”.

Estamos acostumados sempre a atribuir a Deus predicados no superlativo e em outras áreas. “Para nós teria mais valor que São Francisco curasse o leproso da doença do que chegasse como chegou, ao gesto de o beijar. Seria mais impressionante que Maximiliano Kolbe libertasse todos os prisioneiros de Auschwitz, que desse, como deu a sua vida em troca de um deles. Somos mais sensíveis ao milagre ou a outra manifestação do poder de Deus do que à gloria do seu amor”.

E agora os argumentos definitivos em prol da “fragilidade” de Deus. “O poder de Deus é muito mais assombroso no presépio de Belém do que na criação do universo. A glória do Senhor é muito maior no acontecimento do Calvário do que na imensidade e harmonia das galáxias. A Eucaristia é um prodígio infinitamente maior do que a ressureição de Lázaro. E nestes mistérios, concretiza-se o amor e a ternura de Deus”.

Podemos encontrar Deus pelo caminho da razão, mas há um outro “caminho mais prometedor: a candura da criança, a ternura do coração materno, a bondade humilde da enfermeira, o sorriso de um canceroso desenganado pelos médicos e, sobretudo, a dignidade, a bondade, o amor e a inocência de Jesus.”

Frei Almir Guimarães, OFM

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil

O Sagrado Coração e a cruz, o sangue e água (Jo 19,31-37)

Imagem ilustrativa (Fonte): Catholic Pictures

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]

O evangelho sobre o qual vamos refletir é Jo 19,31-37. Trata-se da agonia final de Jesus na cruz. Ele acabara de morrer. Vieram soldados com a ordem de Pilatos para quebrar as suas pernas. Por que isso? Para que isso? A pergunta, com certeza, mais inquietante é por que ler essa passagem no dia dedicado ao Sagrado Coração de Jesus? A Sexta-Feira Santa já está distante. Estranho? Não. Então, que relação existe entre coração e cruz? Ah! Outra pergunta: o que significa jorrar água e sangue do lado aberto de Jesus? Resta-nos, então, refletir a partir desses quatro elementos que formam dois pares: o coração e a cruz, o sangue e a água.

Vamos à primeira resposta às perguntas, a de ordem histórica. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus surgiu com a religiosa Margarida Maria Alacoque. Era o ano de 1675. Segundo a tradição, ela teve uma visão de Jesus mostrando-lhe o seu coração e pedindo que fosse realizada uma celebração em honra ao Sagrado Coração de Jesus, no oitavo dia depois da festa de Corpus Christi, isto é, numa sexta-feira. Nesse dia, todos deveriam comungar e fazer o desagravo do Coração de Jesus com muita piedade. O povo tinha medo de comungar. Havia um sentimento de poder comungar a própria condenação ao inferno. Essa visão é fruto dos ensinamentos de um holandês, chamado Cornélio Jansênio. Ele pregava um Deus carrasco que punia os pecadores.[2] O pedido de comungar e, mais tarde, de nove sextas-feiras ou o ano todo, em honra ao Sagrado Coração de Jesus foi uma resposta ao jansenismo.

O outro pedido, o do desagravo do Sagrado Coração, é uma devoção, uma piedade popular antiga na Igreja que consiste em fazer um ato de reparação de algo que foi feito de maneira errada. Por exemplo: o Santíssimo foi profanado. Então, era necessário fazer um ato de desagravo do Santíssimo. O desagravo do Sagrado Coração de Jesus se justifica porque segundo o evangelho de João, e somente ele, Jesus recebeu um golpe indevido de lança no seu coração, uma violação (Jo 19,34), seu coração foi dilacerado. O amor não foi amado. E o que é pior, Jesus morreu na cruz sem ser culpado de nada. Esse é o sentido da festa do Sagrado Coração, que logo se espalhou pela Europa e pelo mundo cristão.

Na Bíblia há várias citações do substantivo coração. Ele aparece 853 vezes. Para exemplificar:  povo tinha o coração indócil (J 5,23); o Faraó do Egito era de coração duro (Ex 7,14); mudar de vida é rasgar o coração (Jl 2,13); o judeu é chamado a ter um coração puro (Sl 51,12); Jesus é manso e humilde de coração (Mt 11,24-30).

Coração é, na Bíblia, a sede da razão, da decisão, mais do que sentimento. Deus, fonte de conhecimento, colocou a lei no nosso coração (Jr 31, 3.33) para que possamos decifrá-la e vivê-la. A falta de razão das lideranças judaicas e romanas crucificaram Jesus na cruz. Nela, Jesus teve o coração dilacerados por anônimos soldados que representavam o poderoso Pilatos, de coração duro e mãos impuras, as quais foram lavadas com o sangue de Jesus.

Uma coisa é certa: a cruz tem relação com o coração e o coração com a cruz. Na cidade do Divino, Divinópolis (MG), está sendo construída uma cruz de 74 metros de altura dedicada ao Espírito Santo. Duas outras, no Líbano e no México, dedicadas ao Pai e ao Filho, já foram construídas. Chama a atenção, nas imagens de divulgação, a presença do coração de Jesus no centro da cruz.

Os dois outros elementos que aparecem em Jo 19,31-37 são o sangue e a água. Jesus e dois ladrões estavam crucificados. Era o final de uma sexta-feira. No sábado, que para os judeus começa às 18h da sexta-feira, não poderia ter um morto exposto. Isso causaria impureza no sábado de Páscoa. Portanto, era preciso terminar o serviço, isto é, causar a morte definitiva e tirar os corpos da cruz, expostos aos corvos famintos. Os soldados quebraram as pernas dos dois ladrões, de modo que pudessem morrer por asfixia. Ao aproximarem de Jesus, a surpresa, ele já estava morto. Isto quer dizer que Jesus é o cordeiro imolado sem defeito que seria oferecido na Páscoa judaica.

No corpo de Jesus, um dos soldados golpeia com a lança e abre o seu lado. Seria o lado do coração? Pode ser. Há quem interprete que a lança entrou pelo lado direito e atingiu o coração. Na aparição aos discípulos, Jesus mostra três vezes esse lado chagado (Jo 20,20.25.27). Como vimos, esse relato em Jo 19,31-37 tornou-se o mais importante para justificar o ato reparatório do Sagrado Coração de Jesus. O simbolismo do Jesus morto numa cruz injustamente nos convida a um ato de pedido de perdão, de reparação, de conversão em direção à uma vida nova que jorra do corpo morto. Que paradoxo, a salvação vem pela morte!  Mas, como que de um corpo morto pode jorrar sangue e água?

Santo Agostinho e tantos outros intérpretes dessa passagem procuram respostas, das quais, destaco algumas. [3] A água e o sangue são os preciosos líquidos que nos mantêm vivos. O nosso corpo é um rio de sangue que passa pelas veias, rodeadas de carne embebecida por um rio abundante de água, reabastecido a cada vez que a tomamos. Jesus, o Divino, é também humano, é o que quis dizer João com esse acontecimento.

O sangue significa a morte violenta de Jesus que nos salva, assim como os seus conterrâneos reparavam o pecado com sangue de bode aspergido no altar do sacrifício (Lv 16). O sangue faz a memória do corpo de Cristo na Eucaristia, assim como o doloroso o martírio dos primeiros cristãos que derramavam seu sangue para testemunhar a ressurreição de Jesus.

A água simboliza o banho que purifica o velho Adão, o ser humano. Ela nos purifica como com um novo dilúvio (Gn 6,5–9,17). As águas batismais nos purificam e nos preparam para uma vida a caminho, guiado pelo Espírito Santo, no Pai e no Filho.

João viu e deu o seu testemunho de que tudo aquilo era verdadeiro (Jo 19,15). Os outros que olharão são futuros adeptos da fé em Jesus.

Jesus, humanamente falando, é o ser humano, o Adão que dorme, morto na cruz, para dele sair a ‘mãe dos viventes’, a Eva que, simbolicamente, gera a comunidade de fé, a ‘nova mãe dos viventes’. A mãe que nos acolhe hoje. Nós, os cristãos seguidores do coração e da cruz, no sangue e na água da vida presente e futura. Amém! Amém! Amém!

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil


[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. No nosso canal no You Tube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos ou https://www.youtube.com/c/FreiJacirdeFreitasFariaB%C3%ADbliaAp%C3%B3crifos

[2] SANTOS, Cândido dos. Jansenismo e Antijansenismo nos Finais do Antigo Regime. Portugal: Edições Afrotamento, 2011; MELO, Amarildo José de. Jansenismo no Brasiltraços de uma moral rigorista. Aparecida: Editora Santuário, 2014.

[3] Veja RAVASI, Gianfranco; FABRIS, Rinaldo. Giovanni: traduzione e comento. Roma: Borla, 1992, p. 998-1004.