Uma espiritualidade cristã em tempos de coronavírus

Imagem ilustrativa (Fonte: Canva)

Sem dúvida estamos vivendo dias difíceis. O pânico põe em risco o autocontrole das emoções. Aos poucos renasce, com novas interfaces, o instinto de sobrevivência darwiniano onde o mais forte e com capacidade de adaptação toma o primeiro lugar. Consequentemente, os idosos e os pobres correm o risco de serem descartados.

Por outro lado, antigas imagens de Deus renascem ao interno da comunidade cristã. Para entendê-las temos que recordar os momentos tristes da história. Na segunda metade do sec. XIV explodiu a Peste Negra (peste bubônica), dizimando um terço da população europeia. Como toda sociedade teocêntrica, acreditava-se que Deus estava revoltado, pregou-se demasiado a ira divina. Para aplacar tal fúria buscaram-se os bodes expiatórios: judeus foram perseguidos e bruxas queimadas. Dizia-se que tudo estava acontecendo porque a gravidade de nossos pecados desagradava a Deus.

Em plena Segunda Guerra Mundial, o ilustre teólogo Dietrich Bonhoeffer deu-se conta que, diante da dor e morte dos inocentes, temos que falar de Deus a partir de uma linguagem não religiosa. Para ele, o vocabulário religioso que insiste numa imagem metafisica de um Deus todo poderoso já não consegue justificar a força do mal na humanidade. Além disso, Bonhoeffer denuncia profeticamente o comportamento de buscar o divino apenas quando tudo vai mal, transformando Deus em um tapa-buraco.

Notemos que a recente epidemia do coronavírus fez explodir uma série de reações religiosas e psicológicas deturpadoras do essencial. Dizia-se que a grande doença do sec. XXI seria a depressão, entendida como a exaustação do próprio eu – o cansaço de si mesmo – ou o infarto psíquico da própria imagem, causado pela corrida frenética de sucesso e bem-estar pessoal. Diante da explosão da epidemia estamos testemunhando, infelizmente, um comportamento de medo em relação ao próximo. Se com a depressão o grande inimigo do homem era a sua própria imagem (o eu), agora com o coronavírus alguns insistem em dizer que o outro é o novo inimigo que devemos evitar. Esse tipo de reação ameaça o valor sagrado da alteridade. No entanto, para sairmos deste labirinto temos que ouvir as autoridades e, sobretudo, as recomendações da OMS que propõe o tempo de quarentena, dando-nos assim a oportunidade de estarmos mais unidos e nutrirmos mais ainda o respeito pela vida do próximo. Aqui reside a verdadeira alteridade.

Do ponto de vista religioso, a situação é ainda mais delicada. Muitos grupos e comunidades intensificam orações, adorações e multiplicam missas. Quero acreditar que tudo isso é realmente para evitar aglomerações, nos apoiarmos mutuamente e aprendermos acerca da solidariedade e da compaixão com o próximo, e não para fazer barganha com Deus. Se jogarmos a culpa em Deus com comentários do tipo: Por que Ele está permitindo isso? Retornaremos aos tempos da peste bubônica e entraremos em campo com a multiplicação de orações para tentarmos aplacar a ira dele. É Justamente isso que devemos refletir a partir de uma ótica que retoma o Evangelho e não a partir de uma tradição medieval.

J. B. Metz, ao ser vítima das barbáries do campo de concentração nazista, levantou a seguinte pergunta: “Ainda é possível crer em Deus depois de Auschwitz?” Para atualizarmos a sua provocação, nestes dias podemos dizer assim: “Como crer em Deus em tempos de coronavírus?”

Pois bem, um antigo rabino, certa vez, afirmou: “É verdade que Deus fala, mas nem sempre Ele responde”. Às vezes, a nossa forma de rezar pretende obrigar a Deus a dar-nos respostas e sinais. Tomados pelo desespero do coronavírus podemos cair na pior de todas as tentações, aquela que tenta a divindade do Pai, ou seja, a exigência da demonstração de seu poder. No deserto, Jesus também foi exposto a isso quando o demônio lhe pedia para transformar as pedras em pães.

Porém, o próprio Jesus nos ensina outra relação com o Pai, a partir de sua fé e obediência absoluta, sobretudo diante das consequências de sua fidelidade ao Reino de Deus. Só o grito de Jesus na cruz pode nos ensinar uma nova espiritualidade libertadora para os nossos dias. O Filho grita e reclama ao Pai de seu abandono. Porém, Deus silencia. No entanto, mesmo que pareça que o Pai abandona o Filho, este por sua vez não abandona jamais ao Pai. Eis aqui a verdadeira fé!

Uma espiritualidade cristã em tempos de coronavírus não exige de Deus nenhum sinal ou a sua proteção, isso para não o tentarmos. O que deveríamos aprender é a fidelidade incondicional a Ele, sobretudo neste momento sombrio de nossa história, como o próprio Jesus que soube perseverar com a sua cruz. Quem se lança nas águas profundas da perseverança aprende que, “quanto mais escura for a noite, mais clara será a madrugada” (Dom Helder Câmara). Que assim seja!

Pe. Ademir Guedes Azevedo ¹

Fonte: Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil (OFM)


 

¹Pe. Ademir Guedes Azevedo, cp, é missionário passionista e mestre em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana. Atualmente reside em Camaragibe/PE, novo Seminário para a etapa do Postulantado dos Passionistas.

Em setembro, Papa pede oração e respeito ao meio ambiente

Papa Francisco | Fonte: A12

No vídeo de intenção de oração para o mês de setembro, enquanto pede rezar pelos recursos do planeta, o Papa Francisco denuncia o enriquecimento de países e empresas com a exploração do meio ambiente, expressando, assim, a sua preocupação com a geração de uma “dívida ecológica”. O convite para cuidar da Criação “hoje, não amanhã, hoje” e “com responsabilidade” acontece nesta segunda-feira (31), véspera do Dia Mundial de Oração pela Criação; no âmbito do #TempoDaCriação, celebrado de 1º de setembro a 4 de outubro; e no 5º aniversário da Laudato si’.

A campanha pelo cuidado da Criação, além do novo Vídeo do Papa, com a intenção de oração de Francisco confiada a toda Igreja por meio da Rede Mundial de Oração do Papa (que inclui o Movimento Eucarístico Jovem – MEJ), também reúne o trabalho de várias ONGs, buscando a transformação social e procurando melhorar a vida dos mais desfavorecidos.

O alerta para a dívida ecológica

A mensagem do Papa Francisco sobre o cuidado da Criação é contundente quando afirma que “estamos espremendo os bens do planeta. Espremendo-os, como se fosse uma laranja”. É por isso que o Pontífice encoraja todas as pessoas a tomarem consciência da grave “dívida ecológica”, resultado da exploração dos recursos naturais e da atividade de algumas multinacionais que “fazem fora de seus países o que não é permitido nos seus.”

Um exemplo para a desproporção dos recursos, segundo relatórios internacionais, é que quase um bilhão de pessoas vão dormir com fome todas as noites. Isso acontece não porque não haja comida suficiente para todos, mas por causa da profunda injustiça na maneira como a comida é produzida e distribuída. Entre as causas estão: o aumento do poder empresarial na produção de alimentos, a crise climática e o acesso injusto aos recursos naturais, o que afeta a capacidade das pessoas de cultivar e comprar alimentos.

A exploração de recursos naturais não-renováveis, incluindo o petróleo, o gás, minerais e madeira, tem sido frequentemente identificada como um dos fatores desencadeadores, impulsionadores ou sustentadores de conflitos violentos em diferentes partes do mundo.

A promoção da ecologia integral

O Pe. Frédéric Fornos, diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, declarou que, “nestes tempos de pandemia, estamos mais conscientes, como o Santo Padre já disse várias vezes, da importância de nossa Casa Comum, o que nos recorda a necessidade de cuidar dos bens do planeta”. O padre lembrou que, em maio deste ano, Francisco divulgou uma mensagem em vídeo para a Semana Laudato Si’ com o convite de “responder à crise ecológica, ao grito da terra e ao grito dos pobres”.

O diretor, então, encorajou à oração, junto com o Papa, e finalizou:

“Hoje, mais do que nunca, temos que ouvir esse clamor e promover concretamente, com um estilo de vida pessoal e comunitário sóbrio e solidário, uma ecologia integral. Vamos rezar por isso porque é um caminho de conversão.”

Fonte: Vatican News